Econoceitos – Riqueza X Renda

Oi pessoal,

Hoje a coluna é nova assim como a última – Econoceitos: pílulas de economês! Conceitos importantes, explicados de forma mastigada.

Começamos estabelecendo a diferença entre dois conceitos centrais em Economia: riqueza e renda.

Riqueza é o estoque de bens e serviços à disposição da sociedade, de um indivíduo ou grupo social. Ou seja, a riqueza é o produto social que é apropriado de formas distintas na sociedade. Quando se diz que um sujeito tem “tantos reais” quer dizer que ele é proprietário de um estoque de ativos que vale, em determinado momento, uma quantidade de dinheiro.

Renda, em bom economês, é um fluxo monetário advindo de fatores de produção alocados em um processo produtivo, ou seja: renda é aquilo que é pago pelo que está aplicado à produção. O que se utiliza como fator de produção para produzir algo? Terra, capital e trabalho. As rendas que são pagas pela aplicação destes fatores à produção são, respectivamente: renda da terra/aluguéis, lucro/juros e salário.

Assim, o meu salário é minha renda. A conta que tenho no banco onde coloco meu salário compõe minha riqueza. O sujeito dono de ativos financeiros obtém renda financeira, como por exemplo um fluxo de pagamentos recebido pela propriedade de um ativo qualquer – o sujeito que sobrevive de rendas financeiras (pagamentos pela propriedade jurídica de capital aplicado) é o famoso rentista.

O Brasil é um país marcado pela desigualdade de renda (desigualdade entre salários e lucros (chamada distribuição funcional da renda) e desigualdade entre indivíduos (distribuição pessoal da renda)) e de riqueza, perpetuada via heranças e doações.

Cotidianomics: dinheiro não traz felicidade

Olá a todos!

Hoje eu inicio uma coluna no blog intitulada “Cotidianomics: economia do cotidiano”. A ideia é trazer situações cotidianas para o diálogo com a Teoria Econômica. O nome é uma junção de cotidiano + economics (Ciência Econômica, em inglês). O projeto é publicar textos curtos, de fácil leitura, se possível bem humorados – ou pelo menos fugindo do jargão mais acadêmico, explicando os termos e a lógica econômica.

Nosso primeiro tema é: dinheiro não traz felicidade [manda buscar].

Eu estava na academia hoje e ouvi um rapaz conversando com um colega e ele falou que se o dinheiro não trazia, pelo menos mandava buscar a felicidade. Procurando na internet ainda existem variantes da frase, mas todas são unânimes: o dinheiro, em si, não nos torna necessariamente mais felizes. Ora, se consumimos bens e serviços que nos trazem satisfação, o dinheiro manda buscar e até entrega a felicidade sim. Certo? Depende…

Depende porque em Economia define-se utilidade como aquilo que gera bem-estar (um cálculo psicológico) ao indivíduo. E como é o indivíduo quem melhor sabe o que é bom para si, cada sujeito decide sobre consumir aquilo que lhe traz bem-estar e que pode ser captado pelo que os economistas chamam de utilidade. Ora, o conceito de consumo refere-se a tudo aquilo que aumenta a utilidade (e gera bem-estar). Até aqui, tudo bem: uma cerveja, um carro ou um corte de cabelo são consumo, geram utilidade e aumentam nosso bem-estar. Mas, e aquilo que não é comprado: companhia de um parente querido, uma noite com a mulher amada, uma paisagem que você encontra ao abrir a janela… A princípio para nada disso houve gasto direto em dinheiro, mesmo que estas coisas elevem meu grau de satisfação, ou seja, consumo “sem comprar”; será?

O ponto é: mesmo aquilo que explicitamente não é monetizado, na verdade pode ser contabilizado em unidades monetárias. Gary Becker ganhou o prêmio Nobel de Economia ao discutir a existência de mercados para coisas que não são, per se, bens econômicos: casamento, filhos, etc. O que ele aponta é que a companhia de um filho (seu consumo) gera bem-estar – portanto deve fazer parte da cesta de bens que o sujeito escolhe. Assim, o pai calcula que terá gastos ao ter o filho, mas o “serviço” que ele gera de aumento de bem-estar explicita que o pai decide “consumir” o serviço do filho (entram no cálculo até a aposentadoria e os cuidados futuros do filho para com o pai).

Contudo, a decisão de ter filho (ou do casamento, entre outras) é posterior ao cálculo, “na ponta do lápis”. Quem nunca ouviu dizer sobre que se faz conta para saber se era a hora de casar, se cabe no bolso? Existe um conceito, em bom economês é o “custo de oportunidade”, que quer dizer “tudo aquilo que você abdica dada uma escolha”: enquanto você gasta com hospital, fralda, mamadeira, falta de sono e redução de produtividade no trabalho e filmes do Frozen este dinheiro poderia ter sido aplicado, alocado para consumir outra coisa, afinal os recursos são escassos e precisamos aloca-los racionalmente, por isso que escolhemos e, por isso que ter um filho pode ser encarado como uma decisão de consumo, mesmo sem a “compra” direta do “bem” que é o filho.

Assim, nem tudo é diretamente comprado com dinheiro, mas nenhuma decisão é imune ao cálculo econômico, pois em última instância, “não existe almoço grátis”. É por isso que o dinheiro traz sim felicidade em um mundo que tudo é objeto de compra e venda ou que pelo menos é reduzido à sua dimensão econômica.

 

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

 

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 22.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 8 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Não há neutralidade possível!

Não há neutralidade possível!

Diante dos fatos é preciso se posicionar. Eu sustento uma tese: a defesa da manutenção do governo Dilma diante do atual processo de impeachment é uma defesa das Instituições democráticas e da legalidade.

O crime de responsabilidade atribuído ao governo Dilma não se enquadra nos termos da LRF, segundo alguns juristas, pois é prática corriqueira de todos os governos em todas as esferas da administração brasileira. Mesmo outros países se valem de práticas de maquiagem fiscal para fechar suas contas, como apontado pelo relatório (Staff Note) do FMI intitulada “Accounting Devices and Fiscal Illusions”.

Dizer que a maquiagem fiscal sempre ocorreu implica que estejamos de acordo com as práticas de maquiar as contas públicas? Não!

A única certeza é que não se pode criminalizar uma prática corriqueira da administração pública brasileira como pretexto para revisar o resultado eleitoral legítimo, mas adverso segundo setores descontentes com os rumos do Brasil. Ciro Gomes corriqueiramente tem usado a ideia que impeachment não é instrumento para tirar governo ruim ou que não gostamos. A isso cabe o papel das eleições.

Assim, estar de acordo com a manutenção do impeachment segundo o atual processo que criminaliza as tais “pedaladas fiscais” é estar de acordo com mudar as regras do jogo quando se está perdendo –  vale aqui a figura do dono da bola que a coloca embaixo do braço quando seu time perde no clássico do bairro, entre a rua de cima e a rua de baixo. Que mudemos as regras, mas não durante o jogo rolando.

Defender que o impeachment não prospere segundo este processo aberto é a certeza de respeito ao poder soberano do povo, que em seu sufrágio elegeu democraticamente um governo (gostemos ou não dele) e a certeza inclusive da não banalização do mecanismo jurídico do impedimento constitucional. Ora, o impeachment piora os indicadores econômicos pela incerteza generalizada que emerge no curto prazo, desarticula alianças e programas políticos que estavam em funcionamento e nos leva, no limite, para um caos institucional. A defesa de que ele seja utilizado com parcimônia e com fatos concretos que o embasem é a defesa do rito legal e da observância do aparato jurídico brasileiro.

Muitos de nós, vindos da Universidade Pública, batemos na tecla que a banalização da greve como instrumento de luta deslegitima o processo grevista, pois por qualquer motivo deflagra-se uma paralisação que impede todo funcionamento universitário.

A defesa do ritual necessário e do momento correto para que a greve ocorra é, na verdade, uma defesa da legitimidade do próprio instrumento de greve. Exatamente como é o impeachment, elevado à enésima potência por ser muito mais sério: defender que o impeachment não seja aberto simplesmente porque desgostamos do governo, sem embasamento jurídico concreto é lutar para que ele continue um instrumento legítimo do Estado Democrático de Direito. A justificativa é manter a legitimidade de um dos dispositivos constitucionais mais sérios pela legalidade de seu uso.

Assim como o time de futebol que para não ser rebaixado recorre ao tapetão, não estendamos a judicialização da vida cotidiana também para assuntos tão sérios como a vida política brasileira. As leis estão aí para serem cumpridas; se são ruins, cumpramo-las enquanto lutamos para sua mudança. Mas não é certo recorrer à justiça quando somos contrariados, somente para apaziguar nosso ego.

Política não é futebol. Eleição não é Fla x Flu. Impeachment não pode, portanto, ser tapetão.cunha-dilma

Apresentação IC/Monografia: As formas aparentes das crises em Marx

[LINK DO TRABALHO: As formas aparentes das crises em Marx]

Menção Honrosa Monografia

Menção Honrosa referente à Monografia concedida pela FEA USP 

Apresentei, hoje cedo, a minha Iniciação Científica/Monografia na FEA USP. Todos os agradecimentos aos envolvidos é muito pouco. Estou muito satisfeito com o resultado final da pesquisa e só posso agradecer. Meu muito obrigado ao: meu orientador Prof. Eleutério Prado, professores que ajudaram desde o começo da minha formação, amigos, família e a USP pela concessão da minha bolsa de pesquisa.

As formas aparentes das crises em Marx é o título da minha Iniciação Científica que se transformou na minha Monografia de conclusão de curso em Economia na FEA USP. A filmagem abaixo, contudo, é a apresentação no 23º SIICUSP.

Seguem abaixo o vídeo e a apresentação de slides utilizada::

Apresentação: Apresentação SIICUSP

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Resumo:

As formas aparentes das crises em Marx

Objetivos
O presente trabalho tem por objetivo expor a teoria da crise de Karl Marx de um ponto de vista dialético. Queremos delinear uma explicação teórica da crise capitalista a partir da obra de Marx expondo a relação entre a forma como a crise aparece (forma aparente) na superfície da sociedade capitalista e a sua essência. A explicação da crise faz-se a partir da exposição da relação-capital e sua lógica, sendo que a contradição da lógica expansiva do valor engendra a crise. Nossa explicação da crise, ao mesmo tempo que segue a exposição marxiana e seus graus de abstração, é também uma crítica ao marxismo positivista (que explica a crise pela esfera da circulação).

Métodos/Procedimentos
O trabalho aqui apresentado é um estudo em História do Pensamento Econômico. Neste sentido, nossa metodologia é a leitura de textos do próprio autor em tela a partir dos originais e a exposição dos resultados a partir da dialética materialista. O método da dialética materialista é aquele que apreende o capital em seus próprios termos e deixa a lógica do objeto se impor ao pesquisador. Assim, a teoria espelha a lógica do objeto e configura-se como a reprodução ideal do movimento do real.

Resultados e conclusões
A leitura das obras marxianas nas quais despontam suas mais acabadas discussões econômicas nos trouxeram como resultado que, de um ponto de vista dialético – aquele que deriva os resultados como efetivação da lógica contraditória do objeto – a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro (LQTTL) é a causa da crise porque resulta das tendências do capital sob concorrência. Ao mesmo tempo, todos as barreias à valorização que contradizem a lógica expansiva do valor foram apresentadas por nós como “desmedida”, a perda da autorreferência do próprio processo capitalista. A desmedida aparece nos três volumes de “O Capital” em distintas acepções, mas todas elas sem expor seu fundamento plenamente determinado, o capital como contradição processual sob concorrência. Assim, enquanto a crise capitalista é uma crise de sobreacumulação causada pela LQTTL, ela se mostra aos agentes como desmedida, sob formas distintas: o fosso entre produção e consumo, a não fluidez das figuras de capital em seus ciclos na circulação, a inexistência de um fundo de reserva para reposição do capital, a desproporção intersetorial, o subconsumo e a autonomização das finanças ante o sistema. É por isso que nosso resultado final é que a crise deve ser exposta dialeticamente a partir figura de capital e que a LQTTL é a causa da crise, enquanto os fenômenos advindos da circulação são suas formas de manifestação.

Apresentação

Cenário brasileiro: irracionalidade política 


Nós temos alguns níveis no debate político brasileiro:

Temos os religiosos que beatificam autores, teorias ou ideias e deitam a realidade em suas fantasias.

Temos os racionais e científicos que buscam a teoria que explica o movimento da realidade em sua complexidade e não têm problema em abandonar um esquema explicativo furado face o real.

Temos o analfabeto político, que usa termos como “corja”, “esquerdismo”, “esquerdista”, “esquerdopata” porque lê a Veja, que diz que o comunismo matou milhões e que o Lênin era ditador (mas não sabe nem o que foi a NEP ou um kolkhoz, que ouvi dizer sobre mencheviques e que sovietes é uma lembrança remota na memória), que se vale da categoria política de “totalitarismo”, reivindicado, sem saber, o legado tragicômico da Société du Mont Pèlerin, que acha que corrupção é opção política populista (outra categoria política inepta) de quem tem algum projeto de manutenção no poder, que critica a luta de classes porque olha o mundo a partir de seu particular conforto social de fração de classe privilegiada, que reproduz um palavrório conservador porque ao invés de pensar reproduz o senso comum mais básico, que acha que soluções fáceis resolvem problemas complexos e assim defendem a militarização da vida social ou o encarceramento de jovens contra a violência, a meritocracia contra a “preguiça” e a igualdade racial e de gênero contra feministas e cotistas, afinal todo mudo tem uma prima que venceu na vida ou “inclusive amigos negros”, que acha que rico é rico porque trabalhou e não sabe o que é rentismo, grilagem de terras ou qualquer meio escuso de enriquecimento, que defende a ditadura porque, a despeito de algumas unhas arrancadas vivemos uma “ditabranda”…

Pois é, a lista é imensa. Mas já deu pra entender que a irracionalidade move aquela que santificam Lula e que idolatram Bolsonaro, para pegar dois extremos de um mesmo fenômeno alienante.

A economia brasileira recente à la Duménil e Lévy: um ensaio marxista

Posto aqui uma nota que faz uma interpretação da economia brasileira à luz da ideia de G. Duménil e D. Lévy sobre os arranjos sociais entre capitalistas, trabalhadores e gerentes. A nota se chama A economia brasileira recente à la Duménil e Lévy: um ensaio marxista.

A ideia nasceu na tentativa de interpretar as políticas heterodoxas de Dilma dentro de uma chave do compromisso entre as classes e do tipo de política econômica que se faz: as políticas heterodoxas foram a tentativa de uma política keynesiana dentro de uma realidade na qual os gerentes haviam sido capturados pelas finanças. Ao final interpretamos o ajuste fiscal, a redução do rating brasileiro pela S&P e o futuro.

Por se tratar de um artigo escrito por mero prazer, não existe o rigor teórico da Academia. Críticas e deslizes, me informem.