Pequeno guia de estudos marxistas

Certa vez eu montei, com alguns amigos, um grupo de estudo sobre a Crítica da Economia Política na FEA USP. O grupo não vingou, eu me formei e parece que a ideia morreu ali, todavia, eu ainda tenho o programa que montei para o início dos estudos no marxismo.

Não é, nem de longe, a melhor ou definitiva forma de estudar Marx, mas reflete um pouco o meu percurso e alguns dos textos centrais para entender Marx em seus próprios termos, tentando fugir de comentadores ou obras auxiliares (existem diversas, desde David Harvey a Michael Heinrich, são sempre bem vindas, mas como apoio e não ponto de partida).

Espero que ajude um pouco a encontrar qual caminho seguir.

Programa Básico de Economia Marxista

 

Capa Livro III - Boitempo

 Capa de livro III de O Capital publicado pela Boitempo Editorial. Créditos da imagem para Cássio Loredano.

 

Marx no século XXI

Este texto é, ao mesmo tempo uma aventura, um desafio, uma viagem a contrapelo da história. Mas é absolutamente fundamental.

Aparência e essência

O intuito é desmistificar a confusão que existe na cabeça dos que se dizem marxistas quanto ao que Marx fez e falou; e faria se vivo fosse. É necessário começar assumindo que não sou vocalizador de verdades ocultas de Marx que só eu conheço, não sou onisciente e tampouco tenho monopólio da verdadeira interpretação acerca do autor. O que exponho aqui é um exercício de história contrafactual calcado no impossível. Proponho que pensemos o seguinte: Marx foi quem foi, fez o que fez, contudo, continuou vivo até os dias de hoje, ativo do ponto de vista de produção intelectual: o que aconteceria? Assim, eu encarno abaixo um sujeito que [supostamente] entendeu Marx e é capaz de expor quais seriam os seus caminhos e críticas na atualidade (a primeira parte é parcialmente verdadeira, a segunda, visivelmente falsa).

O conceito marxiano de verdade é o mesmo que o da verdade platônica, do desvelamento. A verdade é a correspondência, no nível prático, dos resultados intelectivos e teóricos na medida em que a teoria é a reconstituição da processualidade do concreto, síntese de múltiplas determinações. Livrando-se do fetiche e das interversões dos objetos na esfera da aparência da sociedade Marx expõe a lógica capitalista como aquela calcada na expansão do valor e se serve de um método expositivo que acolhe a contradição – marca fundante de um mundo que tem na sua aparência igualitária (esfera da circulação ou mercado) o escamoteamento de uma profunda divisão social. Nas trocas os agentes aparecem em pé de igualdade como meros possuidores de mercadorias, realidade suportada, todavia, pela cisão radical arquitetada a partir da propriedade privada dos meios de produção na essência (esfera da produção) do modo de produção capitalista. Para expor a forma geral de funcionamento da sociedade dominada pelo sujeito cego e automático – o capital – Marx não só leu os teóricos de seu tempo como participou ativamente da publicação de textos jornalísticos, foi dirigente sindical e lia manuais de máquinas e equipamentos recém lançados para manter-se em dia com a massa crítica de conhecimento produzido em todos os âmbitos. Para trabalhar alguns resultados qualitativos ele se valeu de modelos matemáticos (como os esquemas de reprodução do Livro II) ainda que não de forma clara e suficiente, como por exemplo na explanação do equilíbrio sob Reprodução Ampliada do ponto de vista formal (ele nunca foi capaz de encontrar a equação ). Bem como foi assíduo leitor dos quadros estatísticos e dos dados disponíveis. Quem leu O Capital lembrará das inúmeras estatísticas apresentadas por lá.

Supondo que ele cá estivesse ainda hoje, com toda certeza ele seria um profundo conhecedor de cálculo diferencial e integral, conheceria os teoremas estatísticos e econométricos e não deixaria, jamais, de ter acesso a dados e pesquisas da “fronteira”, insumos de seus trabalhos intelectuais – e talvez achasse facilmente o equilíbrio da reprodução ampliada, poderia reelaborar a temática do problema da transformação dos valores em preços para mostrar que ele nasce da má interpretação de seus leitores e reinvestigar a dinâmica da taxa de lucro com dados e algum modelo formalmente robusto e testável.

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Método e escopo: a formalização necessária

É sabido que a matemática, para Marx, servia como trato pré-teórico do argumento. Ele utilizava este campo do saber na derivação de seus resultados no momento do estudo do tema, como instrumento e não fim. O que fazia com que ela não necessariamente precisasse constar no seu método de exposição. Contudo, dados e matemática são dois pontos centrais no que quero expor aqui: constata-se facilmente que os marxistas atualmente:

  1. não sabem matemática,
  2. têm medo de matemática,
  3. acreditam que ela é mero veículo ideológico, divisor intelectual do saber.

Ora, no mundo em que temos acesso a microdados, informações agregadas e diversas clivagens espaciais, temporais e categorias infindáveis de dados Marx iria se encantar com as possibilidades! É possível estudar absolutamente tudo do ponto de vista dos dados, pois existe massa factual organizada e disponível, além poder computacional para tanto. O apego aos dados não é coisa da minha cabeça, afinal, qualquer um que tenha alguma teoria em mãos quer ter o prazer de confirmá-la via estudo empírico: os dados devem corroborar a sua teoria e não, como fazem alguns (muitos!) ao tentar “deitar a realidade” em seu esquema explicativo em caso de resultados negativos. Se o seu modelo não explica o mundo, pior para o seu trabalho teórico, infelizmente… Modelagem é importante, mas a primazia é do real! A teoria espelha (se bem-feita) a lógica do desenvolvimento concreto, pois não são as ideias que pautam o concreto de forma apriorística como querem os idealistas (se a fé removesse montanhas não precisaríamos de trator) e sim sua própria dinâmica concreta que se impõe sobre nós. Neste ponto é bom lembrar do estatuto do falseacionismo metodológico popperiano, ferramental metodológico dominante na ciência atualmente: qualquer teoria é igualmente confirmável, sendo, portanto, o papel da ciência falsear teorias impróprias. A esta lógica falseadora atribuo, por um lado, um verniz Pós-moderno em que a verdade se torna fluida e não unitária, tornando possível múltiplas verdades ou, de outro, uma vertente neokantiana mais radical em que as respostas são sempre parciais no sentido de que a verdade é inalcançável, impossibilitando o homem de conhecer a coisa em si, reservando o contato com o objeto (a coisa como ela se mostra aos sujeitos) abrindo um abismo lógico entre sujeito e objeto do conhecimento.

O marxismo se opõe frontalmente à ideia de que é impossível conhecer a verdade – ela existe, mas precisa ser desvelada pelo estudo cientificamente exato, ou seja, a dialética materialista, o método de elevação do abstrato ao concreto por meio de operações racionais. A verdade não é autoevidente em um primeiro olhar porque está escondida por um mundo invertido em que as coisas comandam os homens, que reconhecem suas relações humanas apenas pela mediação das coisas. Na inversão sujeito-predicado o fetiche escamoteia o real e a reificação e o estranhamento tornam o mundo um lugar estranho aos homens e confortável às coisas.

A pergunta não é “se devemos usar”, mas sim “qual” matemática usar

A teoria enquanto reprodução ideal do movimento do real deve ir aos fundamentos da lógica e do movimento das categorias. É urgente lançar mão de todos os instrumentos existentes para ingressar em camadas cada vez mais profundas do conhecimento. É claro que a matemática enquanto linguagem deve respeitar à correspondência entre forma e conteúdo, deve ser adequada ao objeto, descrevê-lo em sua essencialidade e nunca sobrepô-lo. Existem diversas “matemáticas”, diversas formalizações e aproximações a um mesmo problema (o mesmo vale para métodos estatísticos e econométricos). Pode parecer desnecessário dizer, mas a matemática é instrumento e não deve se sobrepor ao método dialético. Ela é mais um instrumento que o pesquisador lança mão a fim de corroborar sua elaboração teórica.

A matemática eminentemente equilibrista e estática pode ser substituída por sistemas dinâmicos, adaptativos, complexos e com a introdução de diversos níveis e tipos de heterogeneidade e dinamicidade. A modelagem expectacional pode abarcar vários tipos de racionalidades e os diagramas de fases das variáveis nos dão uma explicação do sentido e movimento dos sistemas. Com a substituição do agente representativo pela divisão entre classes, com a troca do sistema price-taking suportado pelo leiloeiro walrasiano por uma regra de mark-up através da formação de uma taxa média de lucro, com a mudança da hiper-racionalidade ensimesmada por cálculos sob conflito social, com a substituição da busca pela harmonia do equilíbrio pelo reconhecimento de que a realidade é governada por uma disputa econômica diferente dos modelos onde a imperfeição é mero desvio da concorrência perfeita (que é o benchmark), com a alteração da função investimento por uma que inclua o lucro como motor da acumulação… Somente assim poderemos avançar em uma formalização que explique o mundo de forma real, em oposição aos modelos que tomam hipóteses heroicas para a partir daí derivar explicações sobre os fenômenos econômicos. Não negamos a importância desses modelos e formas de abordar os problemas – hoje classificados como “ortodoxos” – todavia, defendemos que para explicar a essência dos fenômenos do mundo econômico é necessário adentrar as esferas mais profundas e mecanismos íntimos de funcionamento da realidade social.

O ponto chave é que a modelagem alternativa pode ir aos fundamentos e atravessar a aparência idealizada e harmônica do mercado, pois é ela quem falsamente confere ao todo social suposta harmonia e equilíbrio da parte: a metonímia se dá porque todos podem trocar livremente no mercado se são possuidores de mercadorias, o que supostamente conferiria à esfera da produção um funcionamento também de modo identitário. Se a Ciência Econômica se debruça somente sobre as relações aparentes acaba formalizando a partir da esfera da circulação e toda questão fundante da Economia Política enquanto conflito e disputa se esvai em harmonia, equilíbrio e convergência.

Acredito que se Marx vivo fosse avançaria não só em novas formas, mas também em alguns conteúdos que não estavam presentes em sua discussão n’O Capital. É relativamente claro o papel e proeminência da esfera financeira e suas imbricações e disputas com o lado real da economia, a relação entre agente e sociedade em um mundo neoliberal onde o individualismo é o liame unificador, pois os indivíduos se relacionam somente se tangenciando em relações contratuais – portanto, questões acerca do fetiche, reificação e alienação estariam no cerne de sua discussão. Marx também discutiria a deposição histórica do valor como categoria fantasmática que confere funcionamento às trocas em uma sociedade capitalista. Outra preocupação central seria a discussão sobre mecanismos e funcionamento da crise econômica, sua forma de aparecimento e seus mecanismos internos e, principalmente, seu conceito. Haveria aprofundamento sobre a ciência enquanto força produtiva e sua utilização massiva na produção, com seus impactos sobre o exército industrial de reserva e a relação entre o crescimento populacional e a divisão do trabalho social, que sob o capitalismo implica em desemprego.

Em suma, a Economia Política avançaria abarcando a contradição como marca fundante do mundo posto, utilizaria ferramentas e métodos novos sem cair em ecletismo e produziria tudo isso em uma linguagem para disputar a explicação do mundo, não para ficar fechada em departamentos acadêmicos sem dialogar com as linhas teóricas divergentes. Marx inverteria sua 11ª Tese dizendo ser o momento de interpretar novamente o mundo para somente depois transformá-lo.

Bruno Miller Theodosio

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Apresentação IC/Monografia: As formas aparentes das crises em Marx

[LINK DO TRABALHO: As formas aparentes das crises em Marx]

Menção Honrosa Monografia

Menção Honrosa referente à Monografia concedida pela FEA USP 

Apresentei, hoje cedo, a minha Iniciação Científica/Monografia na FEA USP. Todos os agradecimentos aos envolvidos é muito pouco. Estou muito satisfeito com o resultado final da pesquisa e só posso agradecer. Meu muito obrigado ao: meu orientador Prof. Eleutério Prado, professores que ajudaram desde o começo da minha formação, amigos, família e a USP pela concessão da minha bolsa de pesquisa.

As formas aparentes das crises em Marx é o título da minha Iniciação Científica que se transformou na minha Monografia de conclusão de curso em Economia na FEA USP. A filmagem abaixo, contudo, é a apresentação no 23º SIICUSP.

Seguem abaixo o vídeo e a apresentação de slides utilizada::

Apresentação: Apresentação SIICUSP

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Resumo:

As formas aparentes das crises em Marx

Objetivos
O presente trabalho tem por objetivo expor a teoria da crise de Karl Marx de um ponto de vista dialético. Queremos delinear uma explicação teórica da crise capitalista a partir da obra de Marx expondo a relação entre a forma como a crise aparece (forma aparente) na superfície da sociedade capitalista e a sua essência. A explicação da crise faz-se a partir da exposição da relação-capital e sua lógica, sendo que a contradição da lógica expansiva do valor engendra a crise. Nossa explicação da crise, ao mesmo tempo que segue a exposição marxiana e seus graus de abstração, é também uma crítica ao marxismo positivista (que explica a crise pela esfera da circulação).

Métodos/Procedimentos
O trabalho aqui apresentado é um estudo em História do Pensamento Econômico. Neste sentido, nossa metodologia é a leitura de textos do próprio autor em tela a partir dos originais e a exposição dos resultados a partir da dialética materialista. O método da dialética materialista é aquele que apreende o capital em seus próprios termos e deixa a lógica do objeto se impor ao pesquisador. Assim, a teoria espelha a lógica do objeto e configura-se como a reprodução ideal do movimento do real.

Resultados e conclusões
A leitura das obras marxianas nas quais despontam suas mais acabadas discussões econômicas nos trouxeram como resultado que, de um ponto de vista dialético – aquele que deriva os resultados como efetivação da lógica contraditória do objeto – a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro (LQTTL) é a causa da crise porque resulta das tendências do capital sob concorrência. Ao mesmo tempo, todos as barreias à valorização que contradizem a lógica expansiva do valor foram apresentadas por nós como “desmedida”, a perda da autorreferência do próprio processo capitalista. A desmedida aparece nos três volumes de “O Capital” em distintas acepções, mas todas elas sem expor seu fundamento plenamente determinado, o capital como contradição processual sob concorrência. Assim, enquanto a crise capitalista é uma crise de sobreacumulação causada pela LQTTL, ela se mostra aos agentes como desmedida, sob formas distintas: o fosso entre produção e consumo, a não fluidez das figuras de capital em seus ciclos na circulação, a inexistência de um fundo de reserva para reposição do capital, a desproporção intersetorial, o subconsumo e a autonomização das finanças ante o sistema. É por isso que nosso resultado final é que a crise deve ser exposta dialeticamente a partir figura de capital e que a LQTTL é a causa da crise, enquanto os fenômenos advindos da circulação são suas formas de manifestação.

Apresentação

É preciso ter coragem!

Interpretamos corretamente os autores ou fizemos deles fantoches para que falassem o que queríamos ouvir?

Interpretamos corretamente os autores ou fizemos deles fantoches para que falassem o que queríamos ouvir?

Publico aqui uma nota curta na qual tento delinear o que de fato é a crítica ao capitalismo do Marx, bem como o que seria uma sociedade comunista (de um ponto de vista de um “tipo ideal” weberiano). À luz dessa classificação preliminar cotejo até que ponto a URSS ou outras experiências históricas poderiam assumir tal nome: sociedade comunista. A nota se chama É preciso ter coragem! e pode ser lida clicando no título dela.

Sobre a ideia de trabalho alienado, estranhamento, coisificação, fetichismo, fica uma reflexão em forma de vídeo. É um curta chamado “El Empleo

O espírito geral de “O Capital” de Karl Marx

Muita gente sabe que eu gosto de ler e acaba me perguntando sobre meus livros favoritos, pedindo indicação.

Pois bem, “O Capital – Crítica da Economia Política” é o meu livro de cabeceira. Talvez porque eu seja (quase) economista. Mas, acima de tudo ele é a chave pro entendimento do mundo atual. Atualmente estou lendo a edição da Boitempo e acredito que alguns dos problemas de tradução foram melhorados em relação à edição d’Os Economistas.

 

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cover1Na obra, Marx delineia as leis gerais de movimento da economia capitalista. O objeto dele era desvendar as leis de produção e reprodução material da sociedade sob o modo de produção capitalista, marcado pela sociabilidade moderna, aonde o capital, sujeito “cego e automático” é quem dá o tom da lógica de reprodutiva do sistema: a expansão e o constante movimento são marca da figura de capital, “valor que se valoriza”, trabalho morto que se vivifica vampirescamente enquanto suga trabalho vivo.Como crítica interna (aquela que aceita os pressupostos e os leva ao limite do desenvolvimento) à Economia Política ele descobre que as formas sociais sob o capitalismo são contraditórias e, portanto, o pesquisador deve desenvolvê-las – e não recusar a contradição, como erro, tal qual a lógica formal indica. A apresentação categorial se vale, pois, das formas que as figuras contraditórias assumem no metabolismo social. A contradição fundamental nasce na oposição interna à própria forma-mercadoria entre valor uso e valor e se desdobra em uma oposição externa entre mercadoria e dinheiro e a oposição entre as figuras toma um nível mais concreto a cada nível da apresentação de Marx.

É importante lembrar que Marx investiga o capitalismo desde suas determinações mais gerais até a esfera da concorrência entre os capitais, expondo e reexpondo as categorias e seus nexos e mediações. O livro não é um estudo de caso nem pretende deitar o olhar sobre o capitalismo tal qual o experienciamos em determinado momento histórico: é como se o capitalismo fosse, aqui, tratado como um “tipo ideal”. A ideia é mostrar que mesmo no funcionamento “normal” deste sistema ele se baseia na produção e extração de mais-valor por uma classe e que portanto o lucro é fruto de tempo de trabalho não pago. O lucro, ou o mais-valor é a diferença entre o valor ao final do processo produtivo e aquele adiantado na compra de força de trabalho e meios de produção. Assim, mesmo que os salários sejam pagos num nível adequado ao valor da força de trabalho, mesmo que o capitalista seja um sujeito “bom”, ou seja, afastando o mal funcionamento ou problemas de ordem moral, mesmo assim o capitalismo se assenta na exploração do trabalho alheio.

O ponto central do livro é mostrar que sob a perspectiva de que o trabalho é quem gera valor (Teoria do Valor-trabalho), a sociedade, cindida em classes, se arquiteta sob a compra e venda da força de trabalho como uma mercadoria qualquer. A dinâmica das relações entre os individuais acaba levando à coisificação das relações sociais e “humanização” das relações entre as coisas, o tal par conceitual de reificação/fetichismo. Os homens são apêndices das coisas e suas relações são mediadas pelas coisas na mesma medida em que as relações sociais se dão entre mercadorias: relação social de coisas.

A ampla geração de riqueza do lado daqueles que detêm os meios de produção caminha, pari passu, à produção de pobreza no polo dos trabalhadores. A luta por maiores lucros acaba levando a maior exploração da força de trabalho e redução de custos (mecanização), reduzindo a base de valorização (menos trabalhadores, como o trabalho é quem gera valor) e à tendência declinante da taxa de lucro, contrabalançada por tendências no sentido oposto. Como existe um exército industrial de reserva (contingente de trabalhadores desempregados) existe pressão baixista nos salários e o frequente medo do desemprego, disciplinando os trabalhadores a “aceitar de bom grado” as regras do jogo.

O capitalismo não é cronicamente viável nem cronicamente inviável, ou seja, ele não realiza o pleno desenvolvimento humano e nem cai de maduro, respectivamente. Assim, a luta entre as classes dá dinamicidade ao processo histórico. É função dos homens assumir seu papel histórico e realizar as determinações da classe a que pertencem, seja desenvolver as forças produtivas (capitalistas) ou a luta pela superação do capitalismo (trabalhadores).

Marx não esgota, nem de longe, as discussões sobre o atual momento histórico. Contudo, é condição necessária para aqueles que querem apreender os nexos íntimos entre as estruturas sob as quais os homens atuam, como meros representantes destas figuras. Entender o mundo atual passa, necessariamente, por entender o que Marx aponta.
É impossível pensar o mundo sob a égide do capital e do trabalho alienado sem passar por Marx. Bem como é impossível achar que todas as respostas estão contidas na obra do barbudo, ou que as respostas que lá estão são definitivas e corretas: marxismo é teoria crítica, não [deveria ser] apologética!

Seu maior mérito: Marx acertou no atacado e a história vem confirmando, crise após crise, o espírito geral da obra marxiana!

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Confronto de Paradigmas – FEA USP 2013 (Vídeos) + áudio da 2ª edição

Confronto de Paradigmas Galera, para quem não sabe, alunos de Economia da FEA USP organizaram um debate sobre Escolas do Pensamento Econômico. Os alunos da Graduação em Economia da FEA USP defenderam 4 linhas distintas: marxismo, austríacos, keynesianismo e neoclássicos. Esperamos incentivar outros centros a fazerem debates e, quem sabe, num futuro próximo que possamos fazer intercâmbios entre as faculdades e debates maiores. Façam críticas e sugestões também! E ah, eu fui o responsável pela defesa do paradigma marxista, portanto, esse do vídeo sou eu!

—- NOVIDADE—-

Áudio da 2ª edição: http://www.4shared.com/mp3/Z41tL8B8ce/Confronto_de_Paradigmas_20_-_5.html

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