Resenha “Understanding Capital” Duncan Foley

Uma indicação de livro para os economistas heterodoxos e para os marxistas é o “Understanding Capital – Marx’s economic theory” (2009) do Duncan Foley (The New School for Social Research).

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Ele comece abordando o método em Marx e as questões iniciais como valor, mercadoria e dinheiro. Depois de propor o conceito de valor do dinheiro que permite a tradução direta do tempo de trabalho em unidades monetárias Foley expõe os principais conceitos e debates no campo econômico marxista.

O ponto alto do livro é a apresentação do modelo chamado de Circuito do Capital, baseado no Livro II de “O Capital”, em que Foley apresenta a reprodução ampliada com base em seus elementos centrais: a composição do capital, a taxa de mais-valor, a taxa de capitalização do mais-valor e os atrasos (lags) de produção, de vendas e financeiro (monetário) são mensuráveis a partir das contas das empresas capitalistas. Assim Foley expõe a reprodução simples e a acumulação de capital de modo formalizado, através da solução exponencial para a reprodução ampliada. Essa modelagem serve como alternativa aos modelos mainstream e keynesianos e está exposta de também no livro “Money, Accumulation and Crisis” (1986) e no paper “Realization and Accumulation in a Marxian Model of the Circuit of Capital” (1982).
Foley também deriva a demanda agregada dos esquemas de reprodução e discute as medidas necessárias para a reprodução suave do esquema marxista.

Uma questão interessante apresentada por Foley é a discussão sobre o problema da transformação. Foley mostra como a equalização da taxa de lucro é compatível com a teoria do valor-trabalho através dos preços de produção. Ele sintetiza o debate entre três polos, sumarizados abaixo:

  1. Críticos da teoria do valor-trabalho
    Resolução do problema da transformação = manter o salário real constante (conexão com o salário como valor da força de trabalho)
    Problema: impossibilita ver os lucros transformados como redistribuição do mais-valor —> jogam fora a teoria do valor-trabalho e começam com os preços de produção. Dois representantes dessa posição são Samuelson (1971) e Robinson (1960).
  2. Defensores da teoria do valor-trabalho. Resolução do problema da transformação = mantêm salário real e aceitam que como os preços são governados pela equalização da taxa de lucro são distorcidos em relação ao valor —> taxa de lucro só é positiva se o mais-valor calculado em termos de valor for positivo [Teorema marxista fundamental – Morishima]
  3. Duménil (1980), Foley (1982) e Lipietz (1982). Assumem que valor da força de trabalho = salário nominal*valor do dinheiro —> w* = mw. Assim, m = Valor do dinheiro = xh = y$ -> $ = (x/y)h —> w* = (x/y)h*w .

Foley  diz “O valor adicionado representa exatamente o tempo total de trabalho social e o valor excedente corresponde exatamente ao tempo de trabalho não remunerado”. Assim pode-se usar a teoria do valor trabalho para dados empíricos.

À frente ele apresenta a discussão sobre a lei da queda tendencial da taxa de lucro e a crítica de Okishio. Ali ele aponta – seguindo Okishio – que sob um salário real fixo a taxa de lucro aumenta quando os capitalistas adotam novas técnicas. O ponto central é que Marx não fixa o salário real, ao invés disso, segundo Foley, o Marx toma como dado é o valor da força de trabalho (w*) no sentido do tempo de trabalho social recebido em troca pela unidade do tempo de trabalho. Para ajudar nas definições,

w* = mw

m = Valor do dinheiro = xh = y$ -> m = (xh/y$)
Valor do dinheiro = quanto tempo de trabalho a unidade monetária representa = m

Seu inverso, que aqui não será usado, mas é uma definição importante,
Expressão monetária do valor = quantas unidades monetárias uma hora consegue criar
1h = (y/x)$

Assim,
[Valor da força de trabalho = valor do dinheiro*salário nominal]
w* = (x/y)h*w

Portanto, Marx não mantém o salário real (w/p) fixo dada a mudança nas técnicas e somente uma leitura dogmática de certas passagens de Marx poderia entregar esse resultado, qual seja, a explicação do salário real como um nível de vida historicamente e moralmente determinado.

Assim, Foley diz que para o padrão de desenvolvimento capitalista Okishio não é muito relevante, pois

“The pattern of this development in terms of the basic determinants of capital accu-mulation can be summarized as follows: (1) a rising productivity of labor; (2) a rising rate of surplus value; (3) a rising real wage; (4) a falling ratio of production wages to total capital outlays; and (5) a falling rate of profit. Marx tried to explain this pattern on the basis of the technical progressiveness of capitalism as a mode of production” (Foley, 2009, p. 139)

Finalmente, Foley apresenta as diversas teorias da crise marxistas (desproporção intersetorial, subconsumo e LQTTL) à luz da crítica de Marx à Lei de Say.

A última seção é dedicada ao socialismo. Ele mostra que Marx era um admirador do avanço tecnológico capitalista, como muito bem documentado no Manifesto Comunista (1848). Por isso, o socialismo não só supera os aspectos negativos do capitalismo como incorpora os avanços dessa forma de sociedade. Uma síntese geral do ponto pode ser vista nas seguintes passagens:

“Marx envisions a socialism that adopts these two central, positive elements of capitalism. Socialist people will presumably also be matter-of-fact materialists. They will consciously accept human responsibility for the construction of the human world, scorning the refuge of theological excuses for human failure. Equally im­portant, they will share with capitalists the power to mobilize social energy on a large scale and also to dispose of a massive social surplus product. Thus Marx’s socialism has nothing nostal­gic about it; he is not interested in a return to small-scale produc­tion or in the abandonment of advanced technology, but in the aggressive and instrumental use of scale and technique in pursuit of social ends.”

(…)

“For Marx the issue of socialism is primarily a question not of a desirable reform designed to bring social reality into closer corre­spondence with some moral ideal but of a painful necessity im­posed on people by the very success of capitalist development. To realize the possibilities of social production opened up by capitalism, the private basis of control over social surplus will have to be transcended.”

(…)

“He saw socialism as an epochal, historical phenomenon, a pervasive trans­formation of the relations between people and their subjective understanding of their situation. This transformation touches the most fundamental aspects of the organization of production and people’s assumptions about the conditions of their existence. It requires ultimately the replacement of the spontaneous, decen­tralized, market-regulated system of commodity production by a conscious, socially oriented governance of production.”

(…)

“This notion of socialism as incorporating and transcending cap­italist institutions extends to the problem of property. For Marx socialism means, not the abolition of property as an institution controlling people’s access to what they have produced, but the transformation of certain classes of property into social property, governed on an explicitly social basis. Marx viewed capitalist property as the end point of a long process of historical evolution itself. In his view this evolutionary process would continue and lead to the development of social forms of property.”

(…)

“These telegraphic formulations have three important moments. First, production in such a community is organized and directed socially. The authority that governs production and the disposi­tion of social labor is immediately and explicitly social. Its legiti­mation comes from its representing the community as a whole. Second, the motivation of individuals for entering into the social labor process is quite different from that of wage-laborers. Whereas the wage-laborer sells her labor-power with the aim of personal survival or advance in the competitive struggle, the socialist worker gives her labor as a part of the grand mosaic of social labor and works to ensure the survival and development of the society as a whole. This change in the social psychology of work is one of the most radical and profound of Marx’s ideas. Finally, the word conscious plays a very important role in this passage. For Marx, socialist labor will be based on a massive ad­vance in human understanding. Each member of a community of freely associated producers understands in some appropriate sense the whole system, its history, its goals, and the member’s own place in that pattern. Thus an important aspect of socialism for Marx is to dispel the confusion and distortion of commodity fe­tishism. The historical advance of humanity is, for him, the de­velopment of the individual’s consciousness.”

Portanto, esse pequeno texto indica alguns dos temas abordados por Foley. Nem de longe os temas e discussões se esgotam nestas pequenas passagens.

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Nosso 11 de setembro: homenagem aos 150 anos de O Capital

Esse post é muito especial. Ele é o número 100 do blog e comemora os 150 anos de lançamento de O Capital de Karl Marx.

 

Nosso 11 de setembro: homenagem aos 150 anos de O Capital

        O dia 11 de setembro ficou marcado na história recente pelos fatídicos anos de 1973 e 2001. Nessas datas duas tragédias marcaram o mundo, sendo o golpe de Estado de A. Pinochet contra Salvador Allende, democraticamente eleito no Chile ceifando trinta mil vidas durante uma ditadura militar e o atentado contra as torres gêmeas do World Trade Center, nos EUA, que custou cerca de três mil vidas.

        Todavia, o 11 de setembro tem outra memória importante, pois há exatos cento e cinquenta anos (11 de setembro de 1867) mil cópias do Livro I de O Capital, de Karl Marx e Friedrich Engels, foram postas à venda em Hamburgo. primeira_edicao_de_o_capitalA partir deste dia os trabalhadores de todo o mundo tiveram acesso uma teoria social que se constitui, além de ferramenta de análise concreta da realidade, também como uma arma de classe. A comemoração da data nos incita a refletir sobre a dimensão da crítica marxiana e dos potenciais abertos por ela. Não à toa o marxismo é considerado por alguns analistas como um novo continente do saber, um modo diferente de se fazer ciência.

        O grande mérito de Marx e Engels foi apresentar ao mundo não apenas uma análise de seu tempo, mas fundar uma matriz teórica muito particular, válida enquanto o capitalismo existir. É importante frisar, de partida, que Marx não analisou o capitalismo concorrencial de sua época e, portanto, mudanças no modo de produção capitalistas demandaria novos esforços teóricos para atualizar a obra. O ponto central é que no texto foram captados os elementos essenciais que definem o capitalismo enquanto tal, como um modo de produção particular. Assim, questões atuais se encontram desenvolvimento a partir e por dentro do texto, pois se na sua generalidade o capitalismo “ainda é aquele”, com a mesma natureza íntima. O que torna o marxismo tão particular e que lhe confere estatuto de obra frutiferamente inacabada são objeto de nossa exposição e reflexão aqui.

        É bem sabido que somente  o Livro I teve sua forma final antes de Marx morrer, mas nem por isto a leitura dos três livros é desencorajada, muito pelo contrário: os três livros se constituem como um todo harmônico, pois enquanto no Livro I o capital é produzido e as relações sociais capitalistas reproduzidas, no Livro II são apresentadas as determinações da circulação do capital social, cabendo ao Livro III fechar a obra discutindo a distribuição do mais-valor pela disputa dos capitais particulares sob concorrência. A obra se fundamenta a partir de uma crítica imanente à Economia Política, buscando desvelar o conteúdo por detrás das categorias econômicas, reflexo teórico de uma realidade social invertida. A inversão, fruto da posição do mundo das coisas como orientador do movimento social, subordina os homens e coloca o capital como sujeito cego e automático que impõe sua lógica imanente como lógica do sistema. Por isso que, cotidianamente, se ouve que o mercado está bem ou mal-humorado, como se ele fosse um sujeito. Inversamente, homens e mulheres se subordinam aos desígnios do sistema, vendendo sua força de trabalho como mercadoria. A inversão sujeito-predicado faz com que o homem, sujeito social, se torne predicado de seu próprio predicado, o capital. Porém, para poder realizar sua natureza o capital precisa do trabalho assalariado, pois este, como fonte do valor possibilita que o trabalho morto se vivifique vampirescamente enquanto suga trabalho vivo. É esta a contradição fundante da nossa sociedade, a oposição capital-trabalho.

        Poderia ser objeto de dúvida se essa teorização não nasce de mera ideação dos autores, como que querendo justificar cientificamente uma posição política trazem a luta de classes para o centro da arena teórica. Pois bem, o marxismo ortodoxo (e ortodoxia se refere a método, não a resultados, à la Lukács) teoriza sobre o mundo que emerge após o feudalismo rompendo todos os laços sociais que prendiam os homens entre si ou à terra e põe o trabalho como categoria organizadora e ontologicamente fundante da vida social: não são mais as relações de poder que fundamentam a divisão social, mas a posição social que o sujeito ocupa na reprodução sistêmica que determina sua vida. Os homens pensam como pensam, pois ocupam um certo locus na reprodução social do mundo material. O método marxiano, portanto, além de se basear em uma ontologia do ser social fundada no trabalho, elabora uma exposição crítica da Economia Política de um ponto de vista materialista, o que implica que Marx colhe do real suas determinações, as articula no nível mais abstrato em categorias e de posse desse arsenal categorial volta à realidade para organizar o todo caótico que é o real de forma cientificamente inteligível. É fundamental perceber que não se deriva uma teoria a partir da cabeça do pesquisador, mas, inversamente é o objeto de estudo que impõe sua lógica, cabendo ao teórico reproduzi-la idealmente. Por isso Marx expõe, ao longo dos três livros da obra, o capital em seus próprios termos em graus crescentes de concretude, determinando-o progressivamente durante sua exposição dialética. Ele vai do abstrato ao concreto enriquecendo o capital de suas determinações progressivas e também expondo um traço constitutivo do sistema, o estatuto contraditório do capital, sua autonegação, a crise. Assim, para o marxismo a crise é endógena ao sistema, fruto do próprio movimento de acumulação.

        Fundamentalmente, por conta de destrinchar o todo social a partir da lógica que preside o real, o marxismo precisa acolher a contradição. Pois o capital, valor que se valoriza, se relaciona de forma conflituosa com o trabalho e essa contradição, que põe o capital como sujeito, opera uma inversão na realidade. Enquanto o plano fenomênico do sistema mostra e indica algumas relações, a simples aparência também escamoteia, esconde e mistifica a realidade. É justamente por acolher a contradição que o pensador marxista pode ultrapassar a aparência do sistema e descobrir sua essência, desvendando por trás do capital como forma está o trabalho como substância.

        Esse é espírito geral da obra, que além de congregar todas as considerações acima, também revela que o capitalismo é um modo de produção historicamente determinado, portanto, assim como começou, também há de ter seu termo histórico. A ruptura dessa naturalização do sistema traz possibilidades políticas emancipatórias e indica caminhos para uma práxis revolucionária. E a obra de Marx abre essas possibilidades pois municia o trabalho lhe mostrando a lógica que preside a sociedade, fazendo não uma crítica do capitalismo do ponto de vista do trabalho, mas uma crítica do trabalho no capitalismo.

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        Com Marx descobrimos que o capital é uma relação social de exploração. A chave analítica da exploração não é moral, mas sim uma relação desigual entre desiguais: enquanto uns são postos como capitalistas porque detêm os meios de produção, aos demais resta a venda de sua única mercadoria, sua força de trabalho – mas que aos olhos do investigador pouco atento se mostra de forma invertida como uma relação de iguais, como meros possuidores de mercadorias. Como quem produz o faz sob os desígnios do capital e sob o ritmo da máquina, o trabalho, que funda o ser social, se mostra como escravidão assalariada, embrutecimento, esvaziamento e perda de sentido para quem labuta. E aquela aparência harmônica do mercado (esfera da circulação) é suportada por uma profunda cisão social na produção: a divisão entre classes.

        Na ânsia por lucro, o motivo indutor da produção capitalista, o capital corre para cortar custos e se instaura a tendência crônica da mudança tecnológica poupadora de trabalho. Como o trabalho é quem gera valor, com essa tendência tecnológica se evidencia a lei mais importante do modo de produção capitalista, a lei da queda tendencial da taxa de lucro: na busca por lucratividade os capitais individuais geram um resultado agregado que reduz a taxa média de lucro. A explosão financeira se segue como fuga para a frente, como tentativa de recompor a lucratividade do capital a partir de lucros fictícios. No outro lado, o capital abre um franco programa político em busca de mais-valor absoluto e relativo, recompondo a barbárie social via aumento da taxa de exploração, ponto fundamental para a retomada da taxa de lucro. A luta social está presente na sociedade dividida em classes

        Assim, enquanto houver capitalismo a obra de Marx estará aberta a todas novas determinações do real. Marxismo, insisto, não é resultado, mas método. Não é dogma, não é teorema, mas sim a reprodução ideal do movimento do real. Enquanto houver um fio condutor revolucionário na obra de Marx, enquanto houver coisificação do homem, enquanto houver luta de classes o marxismo funcionará como arma daqueles que lutam por um mundo melhor.

 

Resenha de “Os limites do Capital” (David Harvey)

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Os Limites do Capital – David Harvey. Publicado em 2013 pela Boitempo Editorial, originalmente publicado em 1982. Tem, na tradução brasileira, 592 páginas.

 

Apesar de achar que ele pouco adiciona ao debate marxista atualmente, em seu tempo (1982) ele cumpriu o papel de (re)colocar o tema das finanças no centro do debate econômico marxista. Harvey se debruçou, quando poucos o faziam, sobre a seção V do Livro III de O Capital de Marx.

Em um breve relato, adianto que ele é bom, mas pouco avança pra quem fez uma leitura pormenorizara e atenta do Marx. Ele usa o termo dialética, mas não parece derivar as categorias da própria tensão interna dos conceitos. A tensão posta na relação capital (a subordinação formal e real do trabalho ao capital) comparece, mas é mais evidente nos processo geográficos de exportação da crise e alargamento das fronteiras da acumulação do que na derivação mesma do arsenal categorial marxiano. Me parece faltar filosofia e sobrar geografia.

A concepção dele sobre as categorias valor, valor de uso e valor de troca também é profundamente equivocada, pois ele acha que uma mercadoria tem, além de valor de uso, o valor de troca e valor como coisas independentes – concepção oposta ao próprio Marx, que trata a mercadoria como uma forma social que congrega valor de uso e valor, o último se expressa “na troca”, portanto, como valor de troca (forma de manifestação do valor).

Sobre o dinheiro Harvey omite algumas coisas. O dinheiro tem suas determinações (para o Marx):
i) medida dos valores (e padrão dos preços);
ii) meio de circulação;
iii) tesouro e meio de pagamento

Harvey trata do dinheiro como meio de circulação que facilita as trocas, mas ao apresentar o conceito de dinheiro ele não fala explicitamente de suas determinações: é claro que a mercadoria dinheiro só funciona como equivalente geral se cumprir tais funções, mas a derivação categorial/lógica do dinheiro é uma das grandes questões que faz Marx destoar dos economias vulgares.

Harvey prossegue e mostra como as crises têm três “recortes” em sua concepção:

1. LQTTL e a derivação da queda dos lucros como intrínseca à própria acumulação;
2. problemas financeiros e creditícios na dinâmica da acumulação;
3. a geografia da crise enquanto exportação de seus desdobramentos (inflação, desemprego, falta de demanda efetiva, etc.).

O ponto é que ele, por não apresentar dialeticamente a crise, não expõe a distinção entre a essência e a aparência da crise, ou seja não deriva a lógica da crise enquanto queda tendencial da taxa de lucro opondo-a a seus desdobramentos aparentes: subconsumo, desproporção intersetorial ou problemas financeiros. Sobre isso, As formas aparentes das crises em Marx.
Por isso que ele adota uma perspectiva subconsumista – que beira ao keynesianismo mais simplório e ao luxemburguismo – para expor a crise mediante a necessidade imperiosa de buscar em uma “dialética externa” a resolução da crise, fruto da “dialética interna” do capitalismo. Assim, na explicação da crise se perde o estatuto de fenômeno endógeno que ela tem para o marxismo, pois sua solução se dá, muitas vezes, por fatores exógenos. Por diversos momentos ele mostra como a resolução da crise se dá pela desvalorização, seja a destruição do capital pela lógica interimperialista da guerra ou a desvalorização enquanto inflação (desvalorização do dinheiro), desvalorização das mercadorias, desvalorização do capital fictício ou exportação geográfica da desvalorização.
Na parte da geografia da crise Harvey é claro em mostrar que a acumulação primitiva não é apenas aquela que gesta o capitalismo, mas a subordinação do mundo aos imperativos da acumulação cumpre a função de reescalonar a dinâmica da acumulação de capital constantemente.

David Harvey apresenta o papel do espaço na teoria marxiana, além de avançar em alguns conceitos interessantes, como por exemplo a ideia de um “tempo de circulação socialmente necessário”, como aquele tempo médio de circulação do capital – em analogia ao “tempo de trabalho socialmente necessário”.

Como qualidade o texto de Harvey expõe a distribuição como uma luta inter e intra classes: seja na disputa entre lucros e salários ou na repartição dos lucros, tanto o Estado com seu ordenamento jurídico (legislação tributária, disciplinamento sobre as finanças, etc.) quanto com seu aparato repressivo (luta de classes aberta e franca) cumpre um papel importante no alinhave entre as frações de classe e o manejo de uma política fiscal e monetária de acordo com a correlação de forças vigente.

O livro é cheio de qualidades e tem que ser entendido como um esforço de entendimento e articulação do Marx. Como economista eu acho que ele peca na exposição de alguns conceitos, mas serve, até hoje, de porta de entrada e aprofundamento em um tipo de marxismo mais atento ao Marx d’O Capital e menos a leituras heterodoxas.

Que a minha resenha sirva para aguçar a curiosidade e lançar mais dúvidas do que certezas.

Se tenho uma recomendação final: leiam e estudem!

Texto republicado pela Boitempo aqui.

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Marx no século XXI

Este texto é, ao mesmo tempo uma aventura, um desafio, uma viagem a contrapelo da história. Mas é absolutamente fundamental.

Aparência e essência

O intuito é desmistificar a confusão que existe na cabeça dos que se dizem marxistas quanto ao que Marx fez e falou; e faria se vivo fosse. É necessário começar assumindo que não sou vocalizador de verdades ocultas de Marx que só eu conheço, não sou onisciente e tampouco tenho monopólio da verdadeira interpretação acerca do autor. O que exponho aqui é um exercício de história contrafactual calcado no impossível. Proponho que pensemos o seguinte: Marx foi quem foi, fez o que fez, contudo, continuou vivo até os dias de hoje, ativo do ponto de vista de produção intelectual: o que aconteceria? Assim, eu encarno abaixo um sujeito que [supostamente] entendeu Marx e é capaz de expor quais seriam os seus caminhos e críticas na atualidade (a primeira parte é parcialmente verdadeira, a segunda, visivelmente falsa).

O conceito marxiano de verdade é o mesmo que o da verdade platônica, do desvelamento. A verdade é a correspondência, no nível prático, dos resultados intelectivos e teóricos na medida em que a teoria é a reconstituição da processualidade do concreto, síntese de múltiplas determinações. Livrando-se do fetiche e das interversões dos objetos na esfera da aparência da sociedade Marx expõe a lógica capitalista como aquela calcada na expansão do valor e se serve de um método expositivo que acolhe a contradição – marca fundante de um mundo que tem na sua aparência igualitária (esfera da circulação ou mercado) o escamoteamento de uma profunda divisão social. Nas trocas os agentes aparecem em pé de igualdade como meros possuidores de mercadorias, realidade suportada, todavia, pela cisão radical arquitetada a partir da propriedade privada dos meios de produção na essência (esfera da produção) do modo de produção capitalista. Para expor a forma geral de funcionamento da sociedade dominada pelo sujeito cego e automático – o capital – Marx não só leu os teóricos de seu tempo como participou ativamente da publicação de textos jornalísticos, foi dirigente sindical e lia manuais de máquinas e equipamentos recém lançados para manter-se em dia com a massa crítica de conhecimento produzido em todos os âmbitos. Para trabalhar alguns resultados qualitativos ele se valeu de modelos matemáticos (como os esquemas de reprodução do Livro II) ainda que não de forma clara e suficiente, como por exemplo na explanação do equilíbrio sob Reprodução Ampliada do ponto de vista formal (ele nunca foi capaz de encontrar a equação ). Bem como foi assíduo leitor dos quadros estatísticos e dos dados disponíveis. Quem leu O Capital lembrará das inúmeras estatísticas apresentadas por lá.

Supondo que ele cá estivesse ainda hoje, com toda certeza ele seria um profundo conhecedor de cálculo diferencial e integral, conheceria os teoremas estatísticos e econométricos e não deixaria, jamais, de ter acesso a dados e pesquisas da “fronteira”, insumos de seus trabalhos intelectuais – e talvez achasse facilmente o equilíbrio da reprodução ampliada, poderia reelaborar a temática do problema da transformação dos valores em preços para mostrar que ele nasce da má interpretação de seus leitores e reinvestigar a dinâmica da taxa de lucro com dados e algum modelo formalmente robusto e testável.

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Método e escopo: a formalização necessária

É sabido que a matemática, para Marx, servia como trato pré-teórico do argumento. Ele utilizava este campo do saber na derivação de seus resultados no momento do estudo do tema, como instrumento e não fim. O que fazia com que ela não necessariamente precisasse constar no seu método de exposição. Contudo, dados e matemática são dois pontos centrais no que quero expor aqui: constata-se facilmente que os marxistas atualmente:

  1. não sabem matemática,
  2. têm medo de matemática,
  3. acreditam que ela é mero veículo ideológico, divisor intelectual do saber.

Ora, no mundo em que temos acesso a microdados, informações agregadas e diversas clivagens espaciais, temporais e categorias infindáveis de dados Marx iria se encantar com as possibilidades! É possível estudar absolutamente tudo do ponto de vista dos dados, pois existe massa factual organizada e disponível, além poder computacional para tanto. O apego aos dados não é coisa da minha cabeça, afinal, qualquer um que tenha alguma teoria em mãos quer ter o prazer de confirmá-la via estudo empírico: os dados devem corroborar a sua teoria e não, como fazem alguns (muitos!) ao tentar “deitar a realidade” em seu esquema explicativo em caso de resultados negativos. Se o seu modelo não explica o mundo, pior para o seu trabalho teórico, infelizmente… Modelagem é importante, mas a primazia é do real! A teoria espelha (se bem-feita) a lógica do desenvolvimento concreto, pois não são as ideias que pautam o concreto de forma apriorística como querem os idealistas (se a fé removesse montanhas não precisaríamos de trator) e sim sua própria dinâmica concreta que se impõe sobre nós. Neste ponto é bom lembrar do estatuto do falseacionismo metodológico popperiano, ferramental metodológico dominante na ciência atualmente: qualquer teoria é igualmente confirmável, sendo, portanto, o papel da ciência falsear teorias impróprias. A esta lógica falseadora atribuo, por um lado, um verniz Pós-moderno em que a verdade se torna fluida e não unitária, tornando possível múltiplas verdades ou, de outro, uma vertente neokantiana mais radical em que as respostas são sempre parciais no sentido de que a verdade é inalcançável, impossibilitando o homem de conhecer a coisa em si, reservando o contato com o objeto (a coisa como ela se mostra aos sujeitos) abrindo um abismo lógico entre sujeito e objeto do conhecimento.

O marxismo se opõe frontalmente à ideia de que é impossível conhecer a verdade – ela existe, mas precisa ser desvelada pelo estudo cientificamente exato, ou seja, a dialética materialista, o método de elevação do abstrato ao concreto por meio de operações racionais. A verdade não é autoevidente em um primeiro olhar porque está escondida por um mundo invertido em que as coisas comandam os homens, que reconhecem suas relações humanas apenas pela mediação das coisas. Na inversão sujeito-predicado o fetiche escamoteia o real e a reificação e o estranhamento tornam o mundo um lugar estranho aos homens e confortável às coisas.

A pergunta não é “se devemos usar”, mas sim “qual” matemática usar

A teoria enquanto reprodução ideal do movimento do real deve ir aos fundamentos da lógica e do movimento das categorias. É urgente lançar mão de todos os instrumentos existentes para ingressar em camadas cada vez mais profundas do conhecimento. É claro que a matemática enquanto linguagem deve respeitar à correspondência entre forma e conteúdo, deve ser adequada ao objeto, descrevê-lo em sua essencialidade e nunca sobrepô-lo. Existem diversas “matemáticas”, diversas formalizações e aproximações a um mesmo problema (o mesmo vale para métodos estatísticos e econométricos). Pode parecer desnecessário dizer, mas a matemática é instrumento e não deve se sobrepor ao método dialético. Ela é mais um instrumento que o pesquisador lança mão a fim de corroborar sua elaboração teórica.

A matemática eminentemente equilibrista e estática pode ser substituída por sistemas dinâmicos, adaptativos, complexos e com a introdução de diversos níveis e tipos de heterogeneidade e dinamicidade. A modelagem expectacional pode abarcar vários tipos de racionalidades e os diagramas de fases das variáveis nos dão uma explicação do sentido e movimento dos sistemas. Com a substituição do agente representativo pela divisão entre classes, com a troca do sistema price-taking suportado pelo leiloeiro walrasiano por uma regra de mark-up através da formação de uma taxa média de lucro, com a mudança da hiper-racionalidade ensimesmada por cálculos sob conflito social, com a substituição da busca pela harmonia do equilíbrio pelo reconhecimento de que a realidade é governada por uma disputa econômica diferente dos modelos onde a imperfeição é mero desvio da concorrência perfeita (que é o benchmark), com a alteração da função investimento por uma que inclua o lucro como motor da acumulação… Somente assim poderemos avançar em uma formalização que explique o mundo de forma real, em oposição aos modelos que tomam hipóteses heroicas para a partir daí derivar explicações sobre os fenômenos econômicos. Não negamos a importância desses modelos e formas de abordar os problemas – hoje classificados como “ortodoxos” – todavia, defendemos que para explicar a essência dos fenômenos do mundo econômico é necessário adentrar as esferas mais profundas e mecanismos íntimos de funcionamento da realidade social.

O ponto chave é que a modelagem alternativa pode ir aos fundamentos e atravessar a aparência idealizada e harmônica do mercado, pois é ela quem falsamente confere ao todo social suposta harmonia e equilíbrio da parte: a metonímia se dá porque todos podem trocar livremente no mercado se são possuidores de mercadorias, o que supostamente conferiria à esfera da produção um funcionamento também de modo identitário. Se a Ciência Econômica se debruça somente sobre as relações aparentes acaba formalizando a partir da esfera da circulação e toda questão fundante da Economia Política enquanto conflito e disputa se esvai em harmonia, equilíbrio e convergência.

Acredito que se Marx vivo fosse avançaria não só em novas formas, mas também em alguns conteúdos que não estavam presentes em sua discussão n’O Capital. É relativamente claro o papel e proeminência da esfera financeira e suas imbricações e disputas com o lado real da economia, a relação entre agente e sociedade em um mundo neoliberal onde o individualismo é o liame unificador, pois os indivíduos se relacionam somente se tangenciando em relações contratuais – portanto, questões acerca do fetiche, reificação e alienação estariam no cerne de sua discussão. Marx também discutiria a deposição histórica do valor como categoria fantasmática que confere funcionamento às trocas em uma sociedade capitalista. Outra preocupação central seria a discussão sobre mecanismos e funcionamento da crise econômica, sua forma de aparecimento e seus mecanismos internos e, principalmente, seu conceito. Haveria aprofundamento sobre a ciência enquanto força produtiva e sua utilização massiva na produção, com seus impactos sobre o exército industrial de reserva e a relação entre o crescimento populacional e a divisão do trabalho social, que sob o capitalismo implica em desemprego.

Em suma, a Economia Política avançaria abarcando a contradição como marca fundante do mundo posto, utilizaria ferramentas e métodos novos sem cair em ecletismo e produziria tudo isso em uma linguagem para disputar a explicação do mundo, não para ficar fechada em departamentos acadêmicos sem dialogar com as linhas teóricas divergentes. Marx inverteria sua 11ª Tese dizendo ser o momento de interpretar novamente o mundo para somente depois transformá-lo.

Bruno Miller Theodosio

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Econoceitos – Riqueza X Renda

Oi pessoal,

Hoje a coluna é nova assim como a última – Econoceitos: pílulas de economês! Conceitos importantes, explicados de forma mastigada.

Começamos estabelecendo a diferença entre dois conceitos centrais em Economia: riqueza e renda.

Riqueza é o estoque de bens e serviços à disposição da sociedade, de um indivíduo ou grupo social. Ou seja, a riqueza é o produto social que é apropriado de formas distintas na sociedade. Quando se diz que um sujeito tem “tantos reais” quer dizer que ele é proprietário de um estoque de ativos que vale, em determinado momento, uma quantidade de dinheiro.

Renda, em bom economês, é um fluxo monetário advindo de fatores de produção alocados em um processo produtivo, ou seja: renda é aquilo que é pago pelo que está aplicado à produção. O que se utiliza como fator de produção para produzir algo? Terra, capital e trabalho. As rendas que são pagas pela aplicação destes fatores à produção são, respectivamente: renda da terra/aluguéis, lucro/juros e salário.

Assim, o meu salário é minha renda. A conta que tenho no banco onde coloco meu salário compõe minha riqueza. O sujeito dono de ativos financeiros obtém renda financeira, como por exemplo um fluxo de pagamentos recebido pela propriedade de um ativo qualquer – o sujeito que sobrevive de rendas financeiras (pagamentos pela propriedade jurídica de capital aplicado) é o famoso rentista.

O Brasil é um país marcado pela desigualdade de renda (desigualdade entre salários e lucros (chamada distribuição funcional da renda) e desigualdade entre indivíduos (distribuição pessoal da renda)) e de riqueza, perpetuada via heranças e doações.

Cotidianomics: dinheiro não traz felicidade

Olá a todos!

Hoje eu inicio uma coluna no blog intitulada “Cotidianomics: economia do cotidiano”. A ideia é trazer situações cotidianas para o diálogo com a Teoria Econômica. O nome é uma junção de cotidiano + economics (Ciência Econômica, em inglês). O projeto é publicar textos curtos, de fácil leitura, se possível bem humorados – ou pelo menos fugindo do jargão mais acadêmico, explicando os termos e a lógica econômica.

Nosso primeiro tema é: dinheiro não traz felicidade [manda buscar].

Eu estava na academia hoje e ouvi um rapaz conversando com um colega e ele falou que se o dinheiro não trazia, pelo menos mandava buscar a felicidade. Procurando na internet ainda existem variantes da frase, mas todas são unânimes: o dinheiro, em si, não nos torna necessariamente mais felizes. Ora, se consumimos bens e serviços que nos trazem satisfação, o dinheiro manda buscar e até entrega a felicidade sim. Certo? Depende…

Depende porque em Economia define-se utilidade como aquilo que gera bem-estar (um cálculo psicológico) ao indivíduo. E como é o indivíduo quem melhor sabe o que é bom para si, cada sujeito decide sobre consumir aquilo que lhe traz bem-estar e que pode ser captado pelo que os economistas chamam de utilidade. Ora, o conceito de consumo refere-se a tudo aquilo que aumenta a utilidade (e gera bem-estar). Até aqui, tudo bem: uma cerveja, um carro ou um corte de cabelo são consumo, geram utilidade e aumentam nosso bem-estar. Mas, e aquilo que não é comprado: companhia de um parente querido, uma noite com a mulher amada, uma paisagem que você encontra ao abrir a janela… A princípio para nada disso houve gasto direto em dinheiro, mesmo que estas coisas elevem meu grau de satisfação, ou seja, consumo “sem comprar”; será?

O ponto é: mesmo aquilo que explicitamente não é monetizado, na verdade pode ser contabilizado em unidades monetárias. Gary Becker ganhou o prêmio Nobel de Economia ao discutir a existência de mercados para coisas que não são, per se, bens econômicos: casamento, filhos, etc. O que ele aponta é que a companhia de um filho (seu consumo) gera bem-estar – portanto deve fazer parte da cesta de bens que o sujeito escolhe. Assim, o pai calcula que terá gastos ao ter o filho, mas o “serviço” que ele gera de aumento de bem-estar explicita que o pai decide “consumir” o serviço do filho (entram no cálculo até a aposentadoria e os cuidados futuros do filho para com o pai).

Contudo, a decisão de ter filho (ou do casamento, entre outras) é posterior ao cálculo, “na ponta do lápis”. Quem nunca ouviu dizer sobre que se faz conta para saber se era a hora de casar, se cabe no bolso? Existe um conceito, em bom economês é o “custo de oportunidade”, que quer dizer “tudo aquilo que você abdica dada uma escolha”: enquanto você gasta com hospital, fralda, mamadeira, falta de sono e redução de produtividade no trabalho e filmes do Frozen este dinheiro poderia ter sido aplicado, alocado para consumir outra coisa, afinal os recursos são escassos e precisamos aloca-los racionalmente, por isso que escolhemos e, por isso que ter um filho pode ser encarado como uma decisão de consumo, mesmo sem a “compra” direta do “bem” que é o filho.

Assim, nem tudo é diretamente comprado com dinheiro, mas nenhuma decisão é imune ao cálculo econômico, pois em última instância, “não existe almoço grátis”. É por isso que o dinheiro traz sim felicidade em um mundo que tudo é objeto de compra e venda ou que pelo menos é reduzido à sua dimensão econômica.

 

Apresentação IC/Monografia: As formas aparentes das crises em Marx

[LINK DO TRABALHO: As formas aparentes das crises em Marx]

Menção Honrosa Monografia

Menção Honrosa referente à Monografia concedida pela FEA USP 

Apresentei, hoje cedo, a minha Iniciação Científica/Monografia na FEA USP. Todos os agradecimentos aos envolvidos é muito pouco. Estou muito satisfeito com o resultado final da pesquisa e só posso agradecer. Meu muito obrigado ao: meu orientador Prof. Eleutério Prado, professores que ajudaram desde o começo da minha formação, amigos, família e a USP pela concessão da minha bolsa de pesquisa.

As formas aparentes das crises em Marx é o título da minha Iniciação Científica que se transformou na minha Monografia de conclusão de curso em Economia na FEA USP. A filmagem abaixo, contudo, é a apresentação no 23º SIICUSP.

Seguem abaixo o vídeo e a apresentação de slides utilizada::

Apresentação: Apresentação SIICUSP

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Resumo:

As formas aparentes das crises em Marx

Objetivos
O presente trabalho tem por objetivo expor a teoria da crise de Karl Marx de um ponto de vista dialético. Queremos delinear uma explicação teórica da crise capitalista a partir da obra de Marx expondo a relação entre a forma como a crise aparece (forma aparente) na superfície da sociedade capitalista e a sua essência. A explicação da crise faz-se a partir da exposição da relação-capital e sua lógica, sendo que a contradição da lógica expansiva do valor engendra a crise. Nossa explicação da crise, ao mesmo tempo que segue a exposição marxiana e seus graus de abstração, é também uma crítica ao marxismo positivista (que explica a crise pela esfera da circulação).

Métodos/Procedimentos
O trabalho aqui apresentado é um estudo em História do Pensamento Econômico. Neste sentido, nossa metodologia é a leitura de textos do próprio autor em tela a partir dos originais e a exposição dos resultados a partir da dialética materialista. O método da dialética materialista é aquele que apreende o capital em seus próprios termos e deixa a lógica do objeto se impor ao pesquisador. Assim, a teoria espelha a lógica do objeto e configura-se como a reprodução ideal do movimento do real.

Resultados e conclusões
A leitura das obras marxianas nas quais despontam suas mais acabadas discussões econômicas nos trouxeram como resultado que, de um ponto de vista dialético – aquele que deriva os resultados como efetivação da lógica contraditória do objeto – a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro (LQTTL) é a causa da crise porque resulta das tendências do capital sob concorrência. Ao mesmo tempo, todos as barreias à valorização que contradizem a lógica expansiva do valor foram apresentadas por nós como “desmedida”, a perda da autorreferência do próprio processo capitalista. A desmedida aparece nos três volumes de “O Capital” em distintas acepções, mas todas elas sem expor seu fundamento plenamente determinado, o capital como contradição processual sob concorrência. Assim, enquanto a crise capitalista é uma crise de sobreacumulação causada pela LQTTL, ela se mostra aos agentes como desmedida, sob formas distintas: o fosso entre produção e consumo, a não fluidez das figuras de capital em seus ciclos na circulação, a inexistência de um fundo de reserva para reposição do capital, a desproporção intersetorial, o subconsumo e a autonomização das finanças ante o sistema. É por isso que nosso resultado final é que a crise deve ser exposta dialeticamente a partir figura de capital e que a LQTTL é a causa da crise, enquanto os fenômenos advindos da circulação são suas formas de manifestação.

Apresentação