Sobre Bruno Miller Theodosio

Economista FEA USP Mestrando em Economia IE UFRJ

Resenha “Understanding Capital” Duncan Foley

Uma indicação de livro para os economistas heterodoxos e para os marxistas é o “Understanding Capital – Marx’s economic theory” (2009) do Duncan Foley (The New School for Social Research).

41qakhcebhl-_sx331_bo1204203200_

 

Ele comece abordando o método em Marx e as questões iniciais como valor, mercadoria e dinheiro. Depois de propor o conceito de valor do dinheiro que permite a tradução direta do tempo de trabalho em unidades monetárias Foley expõe os principais conceitos e debates no campo econômico marxista.

O ponto alto do livro é a apresentação do modelo chamado de Circuito do Capital, baseado no Livro II de “O Capital”, em que Foley apresenta a reprodução ampliada com base em seus elementos centrais: a composição do capital, a taxa de mais-valor, a taxa de capitalização do mais-valor e os atrasos (lags) de produção, de vendas e financeiro (monetário) são mensuráveis a partir das contas das empresas capitalistas. Assim Foley expõe a reprodução simples e a acumulação de capital de modo formalizado, através da solução exponencial para a reprodução ampliada. Essa modelagem serve como alternativa aos modelos mainstream e keynesianos e está exposta de também no livro “Money, Accumulation and Crisis” (1986) e no paper “Realization and Accumulation in a Marxian Model of the Circuit of Capital” (1982).
Foley também deriva a demanda agregada dos esquemas de reprodução e discute as medidas necessárias para a reprodução suave do esquema marxista.

Uma questão interessante apresentada por Foley é a discussão sobre o problema da transformação. Foley mostra como a equalização da taxa de lucro é compatível com a teoria do valor-trabalho através dos preços de produção. Ele sintetiza o debate entre três polos, sumarizados abaixo:

  1. Críticos da teoria do valor-trabalho
    Resolução do problema da transformação = manter o salário real constante (conexão com o salário como valor da força de trabalho)
    Problema: impossibilita ver os lucros transformados como redistribuição do mais-valor —> jogam fora a teoria do valor-trabalho e começam com os preços de produção. Dois representantes dessa posição são Samuelson (1971) e Robinson (1960).
  2. Defensores da teoria do valor-trabalho. Resolução do problema da transformação = mantêm salário real e aceitam que como os preços são governados pela equalização da taxa de lucro são distorcidos em relação ao valor —> taxa de lucro só é positiva se o mais-valor calculado em termos de valor for positivo [Teorema marxista fundamental – Morishima]
  3. Duménil (1980), Foley (1982) e Lipietz (1982). Assumem que valor da força de trabalho = salário nominal*valor do dinheiro —> w* = mw. Assim, m = Valor do dinheiro = xh = y$ -> $ = (x/y)h —> w* = (x/y)h*w .

Foley  diz “O valor adicionado representa exatamente o tempo total de trabalho social e o valor excedente corresponde exatamente ao tempo de trabalho não remunerado”. Assim pode-se usar a teoria do valor trabalho para dados empíricos.

À frente ele apresenta a discussão sobre a lei da queda tendencial da taxa de lucro e a crítica de Okishio. Ali ele aponta – seguindo Okishio – que sob um salário real fixo a taxa de lucro aumenta quando os capitalistas adotam novas técnicas. O ponto central é que Marx não fixa o salário real, ao invés disso, segundo Foley, o Marx toma como dado é o valor da força de trabalho (w*) no sentido do tempo de trabalho social recebido em troca pela unidade do tempo de trabalho. Para ajudar nas definições,

w* = mw

m = Valor do dinheiro = xh = y$ -> m = (xh/y$)
Valor do dinheiro = quanto tempo de trabalho a unidade monetária representa = m

Seu inverso, que aqui não será usado, mas é uma definição importante,
Expressão monetária do valor = quantas unidades monetárias uma hora consegue criar
1h = (y/x)$

Assim,
[Valor da força de trabalho = valor do dinheiro*salário nominal]
w* = (x/y)h*w

Portanto, Marx não mantém o salário real (w/p) fixo dada a mudança nas técnicas e somente uma leitura dogmática de certas passagens de Marx poderia entregar esse resultado, qual seja, a explicação do salário real como um nível de vida historicamente e moralmente determinado.

Assim, Foley diz que para o padrão de desenvolvimento capitalista Okishio não é muito relevante, pois

“The pattern of this development in terms of the basic determinants of capital accu-mulation can be summarized as follows: (1) a rising productivity of labor; (2) a rising rate of surplus value; (3) a rising real wage; (4) a falling ratio of production wages to total capital outlays; and (5) a falling rate of profit. Marx tried to explain this pattern on the basis of the technical progressiveness of capitalism as a mode of production” (Foley, 2009, p. 139)

Finalmente, Foley apresenta as diversas teorias da crise marxistas (desproporção intersetorial, subconsumo e LQTTL) à luz da crítica de Marx à Lei de Say.

A última seção é dedicada ao socialismo. Ele mostra que Marx era um admirador do avanço tecnológico capitalista, como muito bem documentado no Manifesto Comunista (1848). Por isso, o socialismo não só supera os aspectos negativos do capitalismo como incorpora os avanços dessa forma de sociedade. Uma síntese geral do ponto pode ser vista nas seguintes passagens:

“Marx envisions a socialism that adopts these two central, positive elements of capitalism. Socialist people will presumably also be matter-of-fact materialists. They will consciously accept human responsibility for the construction of the human world, scorning the refuge of theological excuses for human failure. Equally im­portant, they will share with capitalists the power to mobilize social energy on a large scale and also to dispose of a massive social surplus product. Thus Marx’s socialism has nothing nostal­gic about it; he is not interested in a return to small-scale produc­tion or in the abandonment of advanced technology, but in the aggressive and instrumental use of scale and technique in pursuit of social ends.”

(…)

“For Marx the issue of socialism is primarily a question not of a desirable reform designed to bring social reality into closer corre­spondence with some moral ideal but of a painful necessity im­posed on people by the very success of capitalist development. To realize the possibilities of social production opened up by capitalism, the private basis of control over social surplus will have to be transcended.”

(…)

“He saw socialism as an epochal, historical phenomenon, a pervasive trans­formation of the relations between people and their subjective understanding of their situation. This transformation touches the most fundamental aspects of the organization of production and people’s assumptions about the conditions of their existence. It requires ultimately the replacement of the spontaneous, decen­tralized, market-regulated system of commodity production by a conscious, socially oriented governance of production.”

(…)

“This notion of socialism as incorporating and transcending cap­italist institutions extends to the problem of property. For Marx socialism means, not the abolition of property as an institution controlling people’s access to what they have produced, but the transformation of certain classes of property into social property, governed on an explicitly social basis. Marx viewed capitalist property as the end point of a long process of historical evolution itself. In his view this evolutionary process would continue and lead to the development of social forms of property.”

(…)

“These telegraphic formulations have three important moments. First, production in such a community is organized and directed socially. The authority that governs production and the disposi­tion of social labor is immediately and explicitly social. Its legiti­mation comes from its representing the community as a whole. Second, the motivation of individuals for entering into the social labor process is quite different from that of wage-laborers. Whereas the wage-laborer sells her labor-power with the aim of personal survival or advance in the competitive struggle, the socialist worker gives her labor as a part of the grand mosaic of social labor and works to ensure the survival and development of the society as a whole. This change in the social psychology of work is one of the most radical and profound of Marx’s ideas. Finally, the word conscious plays a very important role in this passage. For Marx, socialist labor will be based on a massive ad­vance in human understanding. Each member of a community of freely associated producers understands in some appropriate sense the whole system, its history, its goals, and the member’s own place in that pattern. Thus an important aspect of socialism for Marx is to dispel the confusion and distortion of commodity fe­tishism. The historical advance of humanity is, for him, the de­velopment of the individual’s consciousness.”

Portanto, esse pequeno texto indica alguns dos temas abordados por Foley. Nem de longe os temas e discussões se esgotam nestas pequenas passagens.

maxresdefault

 

Anúncios

Nosso 11 de setembro: homenagem aos 150 anos de O Capital

Esse post é muito especial. Ele é o número 100 do blog e comemora os 150 anos de lançamento de O Capital de Karl Marx.

 

Nosso 11 de setembro: homenagem aos 150 anos de O Capital

        O dia 11 de setembro ficou marcado na história recente pelos fatídicos anos de 1973 e 2001. Nessas datas duas tragédias marcaram o mundo, sendo o golpe de Estado de A. Pinochet contra Salvador Allende, democraticamente eleito no Chile ceifando trinta mil vidas durante uma ditadura militar e o atentado contra as torres gêmeas do World Trade Center, nos EUA, que custou cerca de três mil vidas.

        Todavia, o 11 de setembro tem outra memória importante, pois há exatos cento e cinquenta anos (11 de setembro de 1867) mil cópias do Livro I de O Capital, de Karl Marx e Friedrich Engels, foram postas à venda em Hamburgo. primeira_edicao_de_o_capitalA partir deste dia os trabalhadores de todo o mundo tiveram acesso uma teoria social que se constitui, além de ferramenta de análise concreta da realidade, também como uma arma de classe. A comemoração da data nos incita a refletir sobre a dimensão da crítica marxiana e dos potenciais abertos por ela. Não à toa o marxismo é considerado por alguns analistas como um novo continente do saber, um modo diferente de se fazer ciência.

        O grande mérito de Marx e Engels foi apresentar ao mundo não apenas uma análise de seu tempo, mas fundar uma matriz teórica muito particular, válida enquanto o capitalismo existir. É importante frisar, de partida, que Marx não analisou o capitalismo concorrencial de sua época e, portanto, mudanças no modo de produção capitalistas demandaria novos esforços teóricos para atualizar a obra. O ponto central é que no texto foram captados os elementos essenciais que definem o capitalismo enquanto tal, como um modo de produção particular. Assim, questões atuais se encontram desenvolvimento a partir e por dentro do texto, pois se na sua generalidade o capitalismo “ainda é aquele”, com a mesma natureza íntima. O que torna o marxismo tão particular e que lhe confere estatuto de obra frutiferamente inacabada são objeto de nossa exposição e reflexão aqui.

        É bem sabido que somente  o Livro I teve sua forma final antes de Marx morrer, mas nem por isto a leitura dos três livros é desencorajada, muito pelo contrário: os três livros se constituem como um todo harmônico, pois enquanto no Livro I o capital é produzido e as relações sociais capitalistas reproduzidas, no Livro II são apresentadas as determinações da circulação do capital social, cabendo ao Livro III fechar a obra discutindo a distribuição do mais-valor pela disputa dos capitais particulares sob concorrência. A obra se fundamenta a partir de uma crítica imanente à Economia Política, buscando desvelar o conteúdo por detrás das categorias econômicas, reflexo teórico de uma realidade social invertida. A inversão, fruto da posição do mundo das coisas como orientador do movimento social, subordina os homens e coloca o capital como sujeito cego e automático que impõe sua lógica imanente como lógica do sistema. Por isso que, cotidianamente, se ouve que o mercado está bem ou mal-humorado, como se ele fosse um sujeito. Inversamente, homens e mulheres se subordinam aos desígnios do sistema, vendendo sua força de trabalho como mercadoria. A inversão sujeito-predicado faz com que o homem, sujeito social, se torne predicado de seu próprio predicado, o capital. Porém, para poder realizar sua natureza o capital precisa do trabalho assalariado, pois este, como fonte do valor possibilita que o trabalho morto se vivifique vampirescamente enquanto suga trabalho vivo. É esta a contradição fundante da nossa sociedade, a oposição capital-trabalho.

        Poderia ser objeto de dúvida se essa teorização não nasce de mera ideação dos autores, como que querendo justificar cientificamente uma posição política trazem a luta de classes para o centro da arena teórica. Pois bem, o marxismo ortodoxo (e ortodoxia se refere a método, não a resultados, à la Lukács) teoriza sobre o mundo que emerge após o feudalismo rompendo todos os laços sociais que prendiam os homens entre si ou à terra e põe o trabalho como categoria organizadora e ontologicamente fundante da vida social: não são mais as relações de poder que fundamentam a divisão social, mas a posição social que o sujeito ocupa na reprodução sistêmica que determina sua vida. Os homens pensam como pensam, pois ocupam um certo locus na reprodução social do mundo material. O método marxiano, portanto, além de se basear em uma ontologia do ser social fundada no trabalho, elabora uma exposição crítica da Economia Política de um ponto de vista materialista, o que implica que Marx colhe do real suas determinações, as articula no nível mais abstrato em categorias e de posse desse arsenal categorial volta à realidade para organizar o todo caótico que é o real de forma cientificamente inteligível. É fundamental perceber que não se deriva uma teoria a partir da cabeça do pesquisador, mas, inversamente é o objeto de estudo que impõe sua lógica, cabendo ao teórico reproduzi-la idealmente. Por isso Marx expõe, ao longo dos três livros da obra, o capital em seus próprios termos em graus crescentes de concretude, determinando-o progressivamente durante sua exposição dialética. Ele vai do abstrato ao concreto enriquecendo o capital de suas determinações progressivas e também expondo um traço constitutivo do sistema, o estatuto contraditório do capital, sua autonegação, a crise. Assim, para o marxismo a crise é endógena ao sistema, fruto do próprio movimento de acumulação.

        Fundamentalmente, por conta de destrinchar o todo social a partir da lógica que preside o real, o marxismo precisa acolher a contradição. Pois o capital, valor que se valoriza, se relaciona de forma conflituosa com o trabalho e essa contradição, que põe o capital como sujeito, opera uma inversão na realidade. Enquanto o plano fenomênico do sistema mostra e indica algumas relações, a simples aparência também escamoteia, esconde e mistifica a realidade. É justamente por acolher a contradição que o pensador marxista pode ultrapassar a aparência do sistema e descobrir sua essência, desvendando por trás do capital como forma está o trabalho como substância.

        Esse é espírito geral da obra, que além de congregar todas as considerações acima, também revela que o capitalismo é um modo de produção historicamente determinado, portanto, assim como começou, também há de ter seu termo histórico. A ruptura dessa naturalização do sistema traz possibilidades políticas emancipatórias e indica caminhos para uma práxis revolucionária. E a obra de Marx abre essas possibilidades pois municia o trabalho lhe mostrando a lógica que preside a sociedade, fazendo não uma crítica do capitalismo do ponto de vista do trabalho, mas uma crítica do trabalho no capitalismo.

1200px-karl_marx_001

        Com Marx descobrimos que o capital é uma relação social de exploração. A chave analítica da exploração não é moral, mas sim uma relação desigual entre desiguais: enquanto uns são postos como capitalistas porque detêm os meios de produção, aos demais resta a venda de sua única mercadoria, sua força de trabalho – mas que aos olhos do investigador pouco atento se mostra de forma invertida como uma relação de iguais, como meros possuidores de mercadorias. Como quem produz o faz sob os desígnios do capital e sob o ritmo da máquina, o trabalho, que funda o ser social, se mostra como escravidão assalariada, embrutecimento, esvaziamento e perda de sentido para quem labuta. E aquela aparência harmônica do mercado (esfera da circulação) é suportada por uma profunda cisão social na produção: a divisão entre classes.

        Na ânsia por lucro, o motivo indutor da produção capitalista, o capital corre para cortar custos e se instaura a tendência crônica da mudança tecnológica poupadora de trabalho. Como o trabalho é quem gera valor, com essa tendência tecnológica se evidencia a lei mais importante do modo de produção capitalista, a lei da queda tendencial da taxa de lucro: na busca por lucratividade os capitais individuais geram um resultado agregado que reduz a taxa média de lucro. A explosão financeira se segue como fuga para a frente, como tentativa de recompor a lucratividade do capital a partir de lucros fictícios. No outro lado, o capital abre um franco programa político em busca de mais-valor absoluto e relativo, recompondo a barbárie social via aumento da taxa de exploração, ponto fundamental para a retomada da taxa de lucro. A luta social está presente na sociedade dividida em classes

        Assim, enquanto houver capitalismo a obra de Marx estará aberta a todas novas determinações do real. Marxismo, insisto, não é resultado, mas método. Não é dogma, não é teorema, mas sim a reprodução ideal do movimento do real. Enquanto houver um fio condutor revolucionário na obra de Marx, enquanto houver coisificação do homem, enquanto houver luta de classes o marxismo funcionará como arma daqueles que lutam por um mundo melhor.

 

Pequeno guia de estudos marxistas

Certa vez eu montei, com alguns amigos, um grupo de estudo sobre a Crítica da Economia Política na FEA USP. O grupo não vingou, eu me formei e parece que a ideia morreu ali, todavia, eu ainda tenho o programa que montei para o início dos estudos no marxismo.

Não é, nem de longe, a melhor ou definitiva forma de estudar Marx, mas reflete um pouco o meu percurso e alguns dos textos centrais para entender Marx em seus próprios termos, tentando fugir de comentadores ou obras auxiliares (existem diversas, desde David Harvey a Michael Heinrich, são sempre bem vindas, mas como apoio e não ponto de partida).

Espero que ajude um pouco a encontrar qual caminho seguir.

Programa Básico de Economia Marxista

 

Capa Livro III - Boitempo

 Capa de livro III de O Capital publicado pela Boitempo Editorial. Créditos da imagem para Cássio Loredano.

 

Uma abordagem marxista da economia brasileira recente

Texto meu que saiu no Brasil Debate (http://brasildebate.com.br/)

Razões que levaram Dilma, após o ensaio desenvolvimentista e tentativa de implementar políticas heterodoxas, a ceder, na reeleição, ao terrorismo econômico do mercado e ao ‘austericídio’.

Fonte: Uma abordagem marxista da economia brasileira recente

 

Existe uma versão estendida do texto: https://fomentando.wordpress.com/2015/09/12/a-economia-brasileira-recente-a-la-dumenil-e-levy-um-ensaio-marxista/

 

Miséria da teoria

Uma coisa que tem me preocupado muito nos tempos recentes é a infantilização do uso da teoria social. Atualmente, jovens se proclamam de uma linhagem teórica ou de uma filiação política sem entenderem nem o básico dessa tradição de pensamento.

Eu me lembro sempre do título do livro de Lebrun sobre Hegel: “paciência do conceito”. A maturação intelectual precisa de tempo; o pensar e a reflexão amadurecem no próprio processo de questionar o mundo e a interação entre sujeito e objeto do conhecimento maturam conjuntamente.

Me parece que o neoliberalismo (que eu defino como um a subordinação de todas as esferas da sociabilidade humana à lógica econômica, de mercado, ou seja, à concorrência) impôs como “lei férrea” o curto-prazismo, inclusive no pensar. As perguntas e respostas emergem de postagens em redes sociais e a formação intelectual se dá a partir da leitura de orelhas de livros ou resumos em sites de venda. E quanto mais o formato midiático for apetecível ao grande público (e portanto a teoria se esvai em lugares comuns), mais ele vende. Ora, como se fosse extremamente prazeroso sentar e ler textos complexos por horas. Isso cansa, é confuso, esbarra nas nossas limitações, etc.

Veja bem: marxismo, escola austríaca, libertarianismo, keynesianismo, desenvolvimentismo são todas tradições muito fecundas e bastante complexas. Nenhuma resposta fácil pode encerrar um conceito complexo; nenhuma conceituação de internet pode achar definições finais.

Nenhum autor pode ser responsabilizado pela pasteurização e esquartejamento a que são submetidos: por falta de rigor teórico-metodológico paradigmas e teorias incomensuráveis entre si são mescladas, por um lado e, por outro, fatiam-se livros e artigos, segmentando partes alíquotas de textos que servem aos seus interesses.

A teoria é reflexiva. O estudo é processo ativo. Parem de transformar a ação de adquirir conhecimento através do estudo em uma atitude passiva: perguntar uma definição de um conceito no facebook é menos producente do que abrir um debate sobre alguma questão. Assim as pessoas perguntam, aceitam a resposta mais bem escrita e vão embora portando tal “conhecimento”.

Estudar cansa, mas é extremamente libertador. Vale tentar; e nem custa nada!

img_1376

Resumo do modelo de crescimento de R. Goodwin

Eu montei um resumo do texto clássico de Richard Goodwin – A Growth Cycle (1967) sobre seu modelo de crescimento inspirado na teoria marxista e que utiliza insights da modelagem advinda da literatura de predador-presa presente na Biologia.

O texto deriva a lógica de predação entre capitalistas (presas) e trabalhadores (predadores) e mostra efeitos profit-squeeze (esmagamento dos lucros) na sua dinâmica. Ao final do arquivo reproduzo o texto original.

Segue o Resumo de Richard Goodwin – A Growth Cycle.

goodwin

 

Resenha de “Os limites do Capital” (David Harvey)

limites.jpg

Os Limites do Capital – David Harvey. Publicado em 2013 pela Boitempo Editorial, originalmente publicado em 1982. Tem, na tradução brasileira, 592 páginas.

 

Apesar de achar que ele pouco adiciona ao debate marxista atualmente, em seu tempo (1982) ele cumpriu o papel de (re)colocar o tema das finanças no centro do debate econômico marxista. Harvey se debruçou, quando poucos o faziam, sobre a seção V do Livro III de O Capital de Marx.

Em um breve relato, adianto que ele é bom, mas pouco avança pra quem fez uma leitura pormenorizara e atenta do Marx. Ele usa o termo dialética, mas não parece derivar as categorias da própria tensão interna dos conceitos. A tensão posta na relação capital (a subordinação formal e real do trabalho ao capital) comparece, mas é mais evidente nos processo geográficos de exportação da crise e alargamento das fronteiras da acumulação do que na derivação mesma do arsenal categorial marxiano. Me parece faltar filosofia e sobrar geografia.

A concepção dele sobre as categorias valor, valor de uso e valor de troca também é profundamente equivocada, pois ele acha que uma mercadoria tem, além de valor de uso, o valor de troca e valor como coisas independentes – concepção oposta ao próprio Marx, que trata a mercadoria como uma forma social que congrega valor de uso e valor, o último se expressa “na troca”, portanto, como valor de troca (forma de manifestação do valor).

Sobre o dinheiro Harvey omite algumas coisas. O dinheiro tem suas determinações (para o Marx):
i) medida dos valores (e padrão dos preços);
ii) meio de circulação;
iii) tesouro e meio de pagamento

Harvey trata do dinheiro como meio de circulação que facilita as trocas, mas ao apresentar o conceito de dinheiro ele não fala explicitamente de suas determinações: é claro que a mercadoria dinheiro só funciona como equivalente geral se cumprir tais funções, mas a derivação categorial/lógica do dinheiro é uma das grandes questões que faz Marx destoar dos economias vulgares.

Harvey prossegue e mostra como as crises têm três “recortes” em sua concepção:

1. LQTTL e a derivação da queda dos lucros como intrínseca à própria acumulação;
2. problemas financeiros e creditícios na dinâmica da acumulação;
3. a geografia da crise enquanto exportação de seus desdobramentos (inflação, desemprego, falta de demanda efetiva, etc.).

O ponto é que ele, por não apresentar dialeticamente a crise, não expõe a distinção entre a essência e a aparência da crise, ou seja não deriva a lógica da crise enquanto queda tendencial da taxa de lucro opondo-a a seus desdobramentos aparentes: subconsumo, desproporção intersetorial ou problemas financeiros. Sobre isso, As formas aparentes das crises em Marx.
Por isso que ele adota uma perspectiva subconsumista – que beira ao keynesianismo mais simplório e ao luxemburguismo – para expor a crise mediante a necessidade imperiosa de buscar em uma “dialética externa” a resolução da crise, fruto da “dialética interna” do capitalismo. Assim, na explicação da crise se perde o estatuto de fenômeno endógeno que ela tem para o marxismo, pois sua solução se dá, muitas vezes, por fatores exógenos. Por diversos momentos ele mostra como a resolução da crise se dá pela desvalorização, seja a destruição do capital pela lógica interimperialista da guerra ou a desvalorização enquanto inflação (desvalorização do dinheiro), desvalorização das mercadorias, desvalorização do capital fictício ou exportação geográfica da desvalorização.
Na parte da geografia da crise Harvey é claro em mostrar que a acumulação primitiva não é apenas aquela que gesta o capitalismo, mas a subordinação do mundo aos imperativos da acumulação cumpre a função de reescalonar a dinâmica da acumulação de capital constantemente.

David Harvey apresenta o papel do espaço na teoria marxiana, além de avançar em alguns conceitos interessantes, como por exemplo a ideia de um “tempo de circulação socialmente necessário”, como aquele tempo médio de circulação do capital – em analogia ao “tempo de trabalho socialmente necessário”.

Como qualidade o texto de Harvey expõe a distribuição como uma luta inter e intra classes: seja na disputa entre lucros e salários ou na repartição dos lucros, tanto o Estado com seu ordenamento jurídico (legislação tributária, disciplinamento sobre as finanças, etc.) quanto com seu aparato repressivo (luta de classes aberta e franca) cumpre um papel importante no alinhave entre as frações de classe e o manejo de uma política fiscal e monetária de acordo com a correlação de forças vigente.

O livro é cheio de qualidades e tem que ser entendido como um esforço de entendimento e articulação do Marx. Como economista eu acho que ele peca na exposição de alguns conceitos, mas serve, até hoje, de porta de entrada e aprofundamento em um tipo de marxismo mais atento ao Marx d’O Capital e menos a leituras heterodoxas.

Que a minha resenha sirva para aguçar a curiosidade e lançar mais dúvidas do que certezas.

Se tenho uma recomendação final: leiam e estudem!

Texto republicado pela Boitempo aqui.

hqdefault