É preciso ter coragem!

Interpretamos corretamente os autores ou fizemos deles fantoches para que falassem o que queríamos ouvir?

Interpretamos corretamente os autores ou fizemos deles fantoches para que falassem o que queríamos ouvir?

Publico aqui uma nota curta na qual tento delinear o que de fato é a crítica ao capitalismo do Marx, bem como o que seria uma sociedade comunista (de um ponto de vista de um “tipo ideal” weberiano). À luz dessa classificação preliminar cotejo até que ponto a URSS ou outras experiências históricas poderiam assumir tal nome: sociedade comunista. A nota se chama É preciso ter coragem! e pode ser lida clicando no título dela.

Sobre a ideia de trabalho alienado, estranhamento, coisificação, fetichismo, fica uma reflexão em forma de vídeo. É um curta chamado “El Empleo

Ciência e modelagem: apontamentos sobre metodologia em Economia

Não identidade entre essência e aparência, uma relação dialética e ideológica de manutenção do status quo

O artigo discute, em linhas bem gerais questões metodológicas em Economia, sob um ponto de vista crítico do paradigma da Ciência moderna. Além de expor uma necessidade do debate entre essência e aparência apontamos para limites e potencialidades da formalização em Economia.

Segue o artigo Ciência e modelagem: apontamentos sobre metodologia em Economia

O espírito geral de “O Capital” de Karl Marx

Muita gente sabe que eu gosto de ler e acaba me perguntando sobre meus livros favoritos, pedindo indicação.

Pois bem, “O Capital – Crítica da Economia Política” é o meu livro de cabeceira. Talvez porque eu seja (quase) economista. Mas, acima de tudo ele é a chave pro entendimento do mundo atual. Atualmente estou lendo a edição da Boitempo e acredito que alguns dos problemas de tradução foram melhorados em relação à edição d’Os Economistas.

 

978-85-7559-320-2cover

cover1Na obra, Marx delineia as leis gerais de movimento da economia capitalista. O objeto dele era desvendar as leis de produção e reprodução material da sociedade sob o modo de produção capitalista, marcado pela sociabilidade moderna, aonde o capital, sujeito “cego e automático” é quem dá o tom da lógica de reprodutiva do sistema: a expansão e o constante movimento são marca da figura de capital, “valor que se valoriza”, trabalho morto que se vivifica vampirescamente enquanto suga trabalho vivo.Como crítica interna (aquela que aceita os pressupostos e os leva ao limite do desenvolvimento) à Economia Política ele descobre que as formas sociais sob o capitalismo são contraditórias e, portanto, o pesquisador deve desenvolvê-las – e não recusar a contradição, como erro, tal qual a lógica formal indica. A apresentação categorial se vale, pois, das formas que as figuras contraditórias assumem no metabolismo social. A contradição fundamental nasce na oposição interna à própria forma-mercadoria entre valor uso e valor e se desdobra em uma oposição externa entre mercadoria e dinheiro e a oposição entre as figuras toma um nível mais concreto a cada nível da apresentação de Marx.

É importante lembrar que Marx investiga o capitalismo desde suas determinações mais gerais até a esfera da concorrência entre os capitais, expondo e reexpondo as categorias e seus nexos e mediações. O livro não é um estudo de caso nem pretende deitar o olhar sobre o capitalismo tal qual o experienciamos em determinado momento histórico: é como se o capitalismo fosse, aqui, tratado como um “tipo ideal”. A ideia é mostrar que mesmo no funcionamento “normal” deste sistema ele se baseia na produção e extração de mais-valor por uma classe e que portanto o lucro é fruto de tempo de trabalho não pago. O lucro, ou o mais-valor é a diferença entre o valor ao final do processo produtivo e aquele adiantado na compra de força de trabalho e meios de produção. Assim, mesmo que os salários sejam pagos num nível adequado ao valor da força de trabalho, mesmo que o capitalista seja um sujeito “bom”, ou seja, afastando o mal funcionamento ou problemas de ordem moral, mesmo assim o capitalismo se assenta na exploração do trabalho alheio.

O ponto central do livro é mostrar que sob a perspectiva de que o trabalho é quem gera valor (Teoria do Valor-trabalho), a sociedade, cindida em classes, se arquiteta sob a compra e venda da força de trabalho como uma mercadoria qualquer. A dinâmica das relações entre os individuais acaba levando à coisificação das relações sociais e “humanização” das relações entre as coisas, o tal par conceitual de reificação/fetichismo. Os homens são apêndices das coisas e suas relações são mediadas pelas coisas na mesma medida em que as relações sociais se dão entre mercadorias: relação social de coisas.

A ampla geração de riqueza do lado daqueles que detêm os meios de produção caminha, pari passu, à produção de pobreza no polo dos trabalhadores. A luta por maiores lucros acaba levando a maior exploração da força de trabalho e redução de custos (mecanização), reduzindo a base de valorização (menos trabalhadores, como o trabalho é quem gera valor) e à tendência declinante da taxa de lucro, contrabalançada por tendências no sentido oposto. Como existe um exército industrial de reserva (contingente de trabalhadores desempregados) existe pressão baixista nos salários e o frequente medo do desemprego, disciplinando os trabalhadores a “aceitar de bom grado” as regras do jogo.

O capitalismo não é cronicamente viável nem cronicamente inviável, ou seja, ele não realiza o pleno desenvolvimento humano e nem cai de maduro, respectivamente. Assim, a luta entre as classes dá dinamicidade ao processo histórico. É função dos homens assumir seu papel histórico e realizar as determinações da classe a que pertencem, seja desenvolver as forças produtivas (capitalistas) ou a luta pela superação do capitalismo (trabalhadores).

Marx não esgota, nem de longe, as discussões sobre o atual momento histórico. Contudo, é condição necessária para aqueles que querem apreender os nexos íntimos entre as estruturas sob as quais os homens atuam, como meros representantes destas figuras. Entender o mundo atual passa, necessariamente, por entender o que Marx aponta.
É impossível pensar o mundo sob a égide do capital e do trabalho alienado sem passar por Marx. Bem como é impossível achar que todas as respostas estão contidas na obra do barbudo, ou que as respostas que lá estão são definitivas e corretas: marxismo é teoria crítica, não [deveria ser] apologética!

Seu maior mérito: Marx acertou no atacado e a história vem confirmando, crise após crise, o espírito geral da obra marxiana!

IMG_0009.JPG