Pequeno guia de estudos marxistas

Certa vez eu montei, com alguns amigos, um grupo de estudo sobre a Crítica da Economia Política na FEA USP. O grupo não vingou, eu me formei e parece que a ideia morreu ali, todavia, eu ainda tenho o programa que montei para o início dos estudos no marxismo.

Não é, nem de longe, a melhor ou definitiva forma de estudar Marx, mas reflete um pouco o meu percurso e alguns dos textos centrais para entender Marx em seus próprios termos, tentando fugir de comentadores ou obras auxiliares (existem diversas, desde David Harvey a Michael Heinrich, são sempre bem vindas, mas como apoio e não ponto de partida).

Espero que ajude um pouco a encontrar qual caminho seguir.

Programa Básico de Economia Marxista

 

Capa Livro III - Boitempo

 Capa de livro III de O Capital publicado pela Boitempo Editorial. Créditos da imagem para Cássio Loredano.

 

Miséria da teoria

Uma coisa que tem me preocupado muito nos tempos recentes é a infantilização do uso da teoria social. Atualmente, jovens se proclamam de uma linhagem teórica ou de uma filiação política sem entenderem nem o básico dessa tradição de pensamento.

Eu me lembro sempre do título do livro de Lebrun sobre Hegel: “paciência do conceito”. A maturação intelectual precisa de tempo; o pensar e a reflexão amadurecem no próprio processo de questionar o mundo e a interação entre sujeito e objeto do conhecimento maturam conjuntamente.

Me parece que o neoliberalismo (que eu defino como um a subordinação de todas as esferas da sociabilidade humana à lógica econômica, de mercado, ou seja, à concorrência) impôs como “lei férrea” o curto-prazismo, inclusive no pensar. As perguntas e respostas emergem de postagens em redes sociais e a formação intelectual se dá a partir da leitura de orelhas de livros ou resumos em sites de venda. E quanto mais o formato midiático for apetecível ao grande público (e portanto a teoria se esvai em lugares comuns), mais ele vende. Ora, como se fosse extremamente prazeroso sentar e ler textos complexos por horas. Isso cansa, é confuso, esbarra nas nossas limitações, etc.

Veja bem: marxismo, escola austríaca, libertarianismo, keynesianismo, desenvolvimentismo são todas tradições muito fecundas e bastante complexas. Nenhuma resposta fácil pode encerrar um conceito complexo; nenhuma conceituação de internet pode achar definições finais.

Nenhum autor pode ser responsabilizado pela pasteurização e esquartejamento a que são submetidos: por falta de rigor teórico-metodológico paradigmas e teorias incomensuráveis entre si são mescladas, por um lado e, por outro, fatiam-se livros e artigos, segmentando partes alíquotas de textos que servem aos seus interesses.

A teoria é reflexiva. O estudo é processo ativo. Parem de transformar a ação de adquirir conhecimento através do estudo em uma atitude passiva: perguntar uma definição de um conceito no facebook é menos producente do que abrir um debate sobre alguma questão. Assim as pessoas perguntam, aceitam a resposta mais bem escrita e vão embora portando tal “conhecimento”.

Estudar cansa, mas é extremamente libertador. Vale tentar; e nem custa nada!

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