Resenha de “Os limites do Capital” (David Harvey)

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Os Limites do Capital – David Harvey. Publicado em 2013 pela Boitempo Editorial, originalmente publicado em 1982. Tem, na tradução brasileira, 592 páginas.

 

Apesar de achar que ele pouco adiciona ao debate marxista atualmente, em seu tempo (1982) ele cumpriu o papel de (re)colocar o tema das finanças no centro do debate econômico marxista. Harvey se debruçou, quando poucos o faziam, sobre a seção V do Livro III de O Capital de Marx.

Em um breve relato, adianto que ele é bom, mas pouco avança pra quem fez uma leitura pormenorizara e atenta do Marx. Ele usa o termo dialética, mas não parece derivar as categorias da própria tensão interna dos conceitos. A tensão posta na relação capital (a subordinação formal e real do trabalho ao capital) comparece, mas é mais evidente nos processo geográficos de exportação da crise e alargamento das fronteiras da acumulação do que na derivação mesma do arsenal categorial marxiano. Me parece faltar filosofia e sobrar geografia.

A concepção dele sobre as categorias valor, valor de uso e valor de troca também é profundamente equivocada, pois ele acha que uma mercadoria tem, além de valor de uso, o valor de troca e valor como coisas independentes – concepção oposta ao próprio Marx, que trata a mercadoria como uma forma social que congrega valor de uso e valor, o último se expressa “na troca”, portanto, como valor de troca (forma de manifestação do valor).

Sobre o dinheiro Harvey omite algumas coisas. O dinheiro tem suas determinações (para o Marx):
i) medida dos valores (e padrão dos preços);
ii) meio de circulação;
iii) tesouro e meio de pagamento

Harvey trata do dinheiro como meio de circulação que facilita as trocas, mas ao apresentar o conceito de dinheiro ele não fala explicitamente de suas determinações: é claro que a mercadoria dinheiro só funciona como equivalente geral se cumprir tais funções, mas a derivação categorial/lógica do dinheiro é uma das grandes questões que faz Marx destoar dos economias vulgares.

Harvey prossegue e mostra como as crises têm três “recortes” em sua concepção:

1. LQTTL e a derivação da queda dos lucros como intrínseca à própria acumulação;
2. problemas financeiros e creditícios na dinâmica da acumulação;
3. a geografia da crise enquanto exportação de seus desdobramentos (inflação, desemprego, falta de demanda efetiva, etc.).

O ponto é que ele, por não apresentar dialeticamente a crise, não expõe a distinção entre a essência e a aparência da crise, ou seja não deriva a lógica da crise enquanto queda tendencial da taxa de lucro opondo-a a seus desdobramentos aparentes: subconsumo, desproporção intersetorial ou problemas financeiros. Sobre isso, As formas aparentes das crises em Marx.
Por isso que ele adota uma perspectiva subconsumista – que beira ao keynesianismo mais simplório e ao luxemburguismo – para expor a crise mediante a necessidade imperiosa de buscar em uma “dialética externa” a resolução da crise, fruto da “dialética interna” do capitalismo. Assim, na explicação da crise se perde o estatuto de fenômeno endógeno que ela tem para o marxismo, pois sua solução se dá, muitas vezes, por fatores exógenos. Por diversos momentos ele mostra como a resolução da crise se dá pela desvalorização, seja a destruição do capital pela lógica interimperialista da guerra ou a desvalorização enquanto inflação (desvalorização do dinheiro), desvalorização das mercadorias, desvalorização do capital fictício ou exportação geográfica da desvalorização.
Na parte da geografia da crise Harvey é claro em mostrar que a acumulação primitiva não é apenas aquela que gesta o capitalismo, mas a subordinação do mundo aos imperativos da acumulação cumpre a função de reescalonar a dinâmica da acumulação de capital constantemente.

David Harvey apresenta o papel do espaço na teoria marxiana, além de avançar em alguns conceitos interessantes, como por exemplo a ideia de um “tempo de circulação socialmente necessário”, como aquele tempo médio de circulação do capital – em analogia ao “tempo de trabalho socialmente necessário”.

Como qualidade o texto de Harvey expõe a distribuição como uma luta inter e intra classes: seja na disputa entre lucros e salários ou na repartição dos lucros, tanto o Estado com seu ordenamento jurídico (legislação tributária, disciplinamento sobre as finanças, etc.) quanto com seu aparato repressivo (luta de classes aberta e franca) cumpre um papel importante no alinhave entre as frações de classe e o manejo de uma política fiscal e monetária de acordo com a correlação de forças vigente.

O livro é cheio de qualidades e tem que ser entendido como um esforço de entendimento e articulação do Marx. Como economista eu acho que ele peca na exposição de alguns conceitos, mas serve, até hoje, de porta de entrada e aprofundamento em um tipo de marxismo mais atento ao Marx d’O Capital e menos a leituras heterodoxas.

Que a minha resenha sirva para aguçar a curiosidade e lançar mais dúvidas do que certezas.

Se tenho uma recomendação final: leiam e estudem!

Texto republicado pela Boitempo aqui.

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Debate sobre a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro (LQTTL) em Marx

Lei da queda tendencial da taxa de lucro

Sintetizei alguns artigos que debate o tema Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro (LQTTL) em Marx em um PDF, intitulado Debate sobre a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro em Marx

Os textos no PDF que montei são:

Debate sobre a Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro em Marx
Montado por Bruno Miller Theodosio

1. Crisis Theory And The Falling Rate Of Profit DAVID HARVEY
2. Harvey Versus Marx On Capitalism’s Crises Part 1: Getting Marx Wrong ANDREW KLIMAN
3. Harvey Versus Marx On Capitalism’s Crises Part 2: Getting Marx Wrong ANDREW KLIMAN
4. Capital’s Nature — A Response To Andrew Kliman DAVID HARVEY
5. Harvey Versus Marx On Capitalism’s Crises, Part 3: A Rejoinder ANDREW KLIMAN
6. Monomania and crisis theory – a reply to David Harvey MICHAEL ROBERTS
7. Crisis Theory, the Law of the Tendency of the Profit Rate to Fall, and Marx’s Studies in the 1870s MICHAEL HEINRICH
8. The Unmaking of Marx’s Capital Heinrich’s Attempt to Eliminate Marx’s Crisis Theory ANDREW KLIMAN, ALAN FREEMAN, NICK POTTS, ALEXEY GUSEV, AND BRENDAN COONEY

Indico também um artigo do Prof. Eleutério Prado intitulado Lei de Marx: pura lógica? lei empírica? e que é fundamental para entender o estatuto da “lei” em Marx.

Um vídeo sobre o tema, que está postado na página do Prof. Harvey