Porque voto em Ciro Gomes

Porque voto em Ciro Gomes.

O Brasil está em uma situação caótica e não há espaço para aventureiros ou salvadores da pátria. Há crises em diversas dimensões: política, econômica, moral.

O Ciro tem duas qualidades que não deveriam ser exaltadas como diferenciais, pois deveriam funcionar como meros pressupostos para que alguém se candidatasse: ele é honesto e tem projeto. Todo candidato deveria ser honesto, pois esta é uma qualidade humana que perpassa a vida pública; projeto é o mínimo que se espera de um candidato. Porém, no jogo político atual a honestidade é uma premissa para o povo esperar que algo diferente seja feito (afinal as pessoas acham que somente alguém “diferente” tem capacidade de mudar). Em anos de atuação pública ele só respondeu a processos por brigar com figuras reconhecidamente corruptas, mas nunca por práticas de corrupção. O projeto é o que faz com que concordemos ou não com determinados candidatos, mas, nestas eleições, poucos candidatos têm projetos: alguns têm ideias, outros têm falta delas e para um deles sobra somente o discurso vazio e sem programa. Promessas genéricas e vazias não se transformarão em desenvolvimento.

Por anos Ciro transitou por diversos partidos sempre mantendo a ideia de que há necessidade de se pensar um projeto nacional de desenvolvimento. O projeto de Ciro é o mais consistente para o Brasil atual pois faz a melhor leitura da realidade: é preciso retomar a lucratividade das empresas para incentivar o investimento e, portanto, o emprego e a renda, mas não à custa do trabalhador – isso dependerá fortemente da mobilização popular. Para isso ele entende que a indústria ainda é um motor do desenvolvimento porque é um setor dinâmico com diversas ligações para a frente e para trás. Há dois preços chave fora de lugar: câmbio e juros. O câmbio valorizado e os juros altos desindustrializaram o Brasil e transferiram recursos para a valorização do capital na esfera fictícia, aumentando os ganhos associados às finanças (rentismo). Será preciso um câmbio desvalorizado e juros baixos para que a indústria nacional floresça, obviamente matizados por uma política industrial responsável.

Mas o investimento privado só vem com expectativa de demanda e para isso as pessoas precisam de recursos para consumir, por conta disto o programa de refinanciar as dívidas da população injeta demanda na veia da economia.

Não é possível, porém, ter um país que o governo esteja amarrado e impedido de agir. Assim, a revogação da PEC do Teto (EC-95) é pressuposto do projeto defendido pelo Ciro. A responsabilidade fiscal preconizada pelo Ciro não implica em austeridade. É preciso haver espaço para investimentos públicos nas áreas sociais e para conseguir cuidar da população que deles necessita.

Um setor que puxou o crescimento nos últimos anos foi o agronegócio. A vice, Katia Abreu, figura do agronegócio representa que parte potencialmente conservadora do empresariado brasileiro compra o projeto nacional de desenvolvimento. Ciro sinaliza que é possível transferir ganhos de produtividade do campo para a indústria.

Tenho receios quanto a certo fiscalismo por parte do governo dele, mesmo que se justifique enquanto tática para enfrentamento aos juros altos. Essa tática é um grau de liberdade que o programa assume: as elites brasileiras aceitam experimentos nos juros e até no câmbio, mas jamais no fiscal (lembrem-se de que o golpe começou com as “pedaladas fiscais”). A manutenção de superávits primários para pagamento dos juros da dívida é parte do que dinamiza a lucratividade do rentismo.

A figura de Ciro é outra característica interessante no pleito atual. Há um forte sentimento de antipetismo no eleitorado brasileiro, mas também alta rejeição ao primeiro colocado. Ciro, do PDT, representa um projeto alternativo que se ergue sobre a unidade e não a ruptura do país. Ele pode pacificar os ânimos e convergir interesses para um governo que nos coloque novamente nos rumos do crescimento e da democracia. Além disso, sua figura pessoal forte é importante. Percebemos que, no Brasil recente, o bom-mocismo só levou a conchavos e alianças espúrias. É preciso tomar partido e sinalizar o projeto que se tem em mente. Ele fez isso.

Por fim, Ciro apresenta capacidade de governar o país, pois não é altamente rejeitado e isso sinaliza que há espaço para avançar em projetos em que haja base social. Sua ideia de reestabelecer a devida dinâmica institucional é central. O país está afundado na briga entre os poderes, na desmoralização do homem público e é preciso que consigamos avançar nos desafios que retomem a normalidade democrática ao país.

Ciro não é o candidato ideal, mas é o que melhor se apresenta para as necessidades do Brasil de hoje. Seu projeto difere marginalmente dos projetos do Haddad (PT) e do Boulos (PSOL). Mas a sua figura e partido abrem as portas para que possamos imaginar que é possível o Brasil voltar aos trilhos do desenvolvimento.

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