O dólar e as eleições no Brasil

O dólar recentemente atingiu patamares que assustaram as pessoas. É capaz de que ele continue se mexendo e ainda mais. Além da crise turca e da guerra comercial dos EUA, as eleições brasileiras devem impor mais volatilidade ainda à moeda americana.

De fato, o dólar e a bolsa são bem voláteis e vão se mexer muito nas eleições, seja com o Bolsonaro ou como Ciro, com o Lula, etc.

O dólar varia muito por conta de medo dos investidores e eu trabalho com a ideia de que parte da crise é a ruptura de um acordo tácito que começou no governo Lula entre as elites financeiras e os “de baixo”: houve ganhos na parcela dos salários na renda, formalização, geração de empregos, mas os bancos lucraram muito com altos spreads, taxa de juros elevada e o Brasil foi uma ótima plataforma de valorização do capital “vadio”, que vem, passa a noite, ganha juros e vai embora (em contraposição ao investimento que gera capacidade produtiva de fato, de mais longo prazo). Por isso que a Leda Paulani (2008) caracteriza o Brasil de FHC e Lula como uma plataforma de valorização financeira internacional.

Esse acordo foi rompido com as políticas da Dilma I, de enfrentar os bancos e desvalorizar o câmbio. Se achava, àquela altura, que o mercado externo dinamizaria a economia brasileira e através de um câmbio fraco, o real mais barato nos tornaria mais competitivos lá fora, facilitando a exportação. Junto com isso, reduziu-se a taxa de juros utilizando os bancos públicos e houve um conjunto de medidas de desonerações, acreditando que o investimento privado ocuparia o lugar do público. Deu errado. E continuará dando enquanto isso for tentado (e o Ciro tem exatamente essa proposta). A Laura Carvalho disse, recentemente, que o salário real brasileiro deveria chegar aos níveis de Bangladesh para que fôssemos competitivos a ponto de disputar mercado lá fora e isso puxar o crescimento. O salário real cairia pois a desvalorização do câmbio gera inflação e, assim, cai o poder de compra (salário real).

Ninguém investe sem expectativa de demanda e isso se reflete em uma uma taxa de lucro: a taxa de lucro brasileira declinou de 2010 até 2015 de forma acelerada. Tem muitos preços na economia brasileira errados: câmbio e juros são dois deles. Mas, de fato, achar que a industrialização é a melhor forma de inserção na economia mundial pode ser arriscado, pois a reestruturação da produção mundial faz com que tenhamos que competir com Índia, China, Bangladesh, Vietnã, etc. E o custo dessa galera a gente não consegue igualar sem causar um caos social. É preciso entender as especificidades brasileiras e investir em um tipo de indústria que integre as tecnologias e o progresso que fortaleçam a estrutura produtiva brasileira, levando à mudança estrutural da economia brasileira. O Brasil precisa superar o vício histórico da especialização na produção de commodities e importação de bens com alto valor agregado, ou seja, é preciso repensar a nossa inserção externa subordinada.

A tarefa brasileira passa por retomar a lucratividade através do investimento público, reaquecendo a economia e gerando demanda para reativar o investimento privado, o emprego e renda. Para isso é preciso combater a austeridade, a PEC dos gastos, a política monetária de juros altos que favorecem os detentores de títulos da dívida, enfim, governar o Brasil de forma inclusiva é enfrentar privilégios históricos nem sempre fáceis de lidar.

O câmbio fraco também tem a ver com problemas de restrição externa, ou seja, a necessidade de termos dólares para pagarmos as importações. O Brasil do Lula superou isso, mas a equipe do Haddad e do Ciro acham que existe um “excedente” de divisas que poderia ser utilizado para financiar gastos públicos, mas é um erro, pois um país que tem moeda soberana (temos o real) não tem limites ao endividamento e confunde-se o problema de um alto estoque (dívida) com o seu fluxo de pagamentos (juros). O problema não é ter dívida, mas sim um fluxo de pagamentos crescentes em função dos juros escorchantes.

Enfim, com Ciro o dólar sobe porque o Bresser e outros economistas que o acompanham e instruem acreditam no câmbio de equilíbrio, que seria um patamar que tornaria a nossa industria competitiva, portanto, desvalorizado. No capitalismo a indústria de fato é o polo mais dinâmico da economia, mas dada a nossa estrutura econômica e social eu não sei se seria essa a melhor estratégia para o momento.

A verdade é que o juros e a bolsa explodirão com qualquer um que não seja o Alckmin, Marina, Amoedo. E eu acho que estar do lado de cá é estar do lado certo da questão, pois é estar ao lado do desenvolvimento com inclusão, redução das desigualdades e enfrentamento, mínimo que seja, a um estado de coisas que nos estranha e aliena enquanto sujeitos. O outro lado é reforçar a especulação do capital fictício, a manutenção da austeridade, dos juros altos, da reforça trabalhista e de uma agenda oposta aos interesses do povo.

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