Resenha “Understanding Capital” Duncan Foley

Uma indicação de livro para os economistas heterodoxos e para os marxistas é o “Understanding Capital – Marx’s economic theory” (2009) do Duncan Foley (The New School for Social Research).

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Ele comece abordando o método em Marx e as questões iniciais como valor, mercadoria e dinheiro. Depois de propor o conceito de valor do dinheiro que permite a tradução direta do tempo de trabalho em unidades monetárias Foley expõe os principais conceitos e debates no campo econômico marxista.

O ponto alto do livro é a apresentação do modelo chamado de Circuito do Capital, baseado no Livro II de “O Capital”, em que Foley apresenta a reprodução ampliada com base em seus elementos centrais: a composição do capital, a taxa de mais-valor, a taxa de capitalização do mais-valor e os atrasos (lags) de produção, de vendas e financeiro (monetário) são mensuráveis a partir das contas das empresas capitalistas. Assim Foley expõe a reprodução simples e a acumulação de capital de modo formalizado, através da solução exponencial para a reprodução ampliada. Essa modelagem serve como alternativa aos modelos mainstream e keynesianos e está exposta de também no livro “Money, Accumulation and Crisis” (1986) e no paper “Realization and Accumulation in a Marxian Model of the Circuit of Capital” (1982).
Foley também deriva a demanda agregada dos esquemas de reprodução e discute as medidas necessárias para a reprodução suave do esquema marxista.

Uma questão interessante apresentada por Foley é a discussão sobre o problema da transformação. Foley mostra como a equalização da taxa de lucro é compatível com a teoria do valor-trabalho através dos preços de produção. Ele sintetiza o debate entre três polos, sumarizados abaixo:

  1. Críticos da teoria do valor-trabalho
    Resolução do problema da transformação = manter o salário real constante (conexão com o salário como valor da força de trabalho)
    Problema: impossibilita ver os lucros transformados como redistribuição do mais-valor —> jogam fora a teoria do valor-trabalho e começam com os preços de produção. Dois representantes dessa posição são Samuelson (1971) e Robinson (1960).
  2. Defensores da teoria do valor-trabalho. Resolução do problema da transformação = mantêm salário real e aceitam que como os preços são governados pela equalização da taxa de lucro são distorcidos em relação ao valor —> taxa de lucro só é positiva se o mais-valor calculado em termos de valor for positivo [Teorema marxista fundamental – Morishima]
  3. Duménil (1980), Foley (1982) e Lipietz (1982). Assumem que valor da força de trabalho = salário nominal*valor do dinheiro —> w* = mw. Assim, m = Valor do dinheiro = xh = y$ -> $ = (x/y)h —> w* = (x/y)h*w .

Foley  diz “O valor adicionado representa exatamente o tempo total de trabalho social e o valor excedente corresponde exatamente ao tempo de trabalho não remunerado”. Assim pode-se usar a teoria do valor trabalho para dados empíricos.

À frente ele apresenta a discussão sobre a lei da queda tendencial da taxa de lucro e a crítica de Okishio. Ali ele aponta – seguindo Okishio – que sob um salário real fixo a taxa de lucro aumenta quando os capitalistas adotam novas técnicas. O ponto central é que Marx não fixa o salário real, ao invés disso, segundo Foley, o Marx toma como dado é o valor da força de trabalho (w*) no sentido do tempo de trabalho social recebido em troca pela unidade do tempo de trabalho. Para ajudar nas definições,

w* = mw

m = Valor do dinheiro = xh = y$ -> m = (xh/y$)
Valor do dinheiro = quanto tempo de trabalho a unidade monetária representa = m

Seu inverso, que aqui não será usado, mas é uma definição importante,
Expressão monetária do valor = quantas unidades monetárias uma hora consegue criar
1h = (y/x)$

Assim,
[Valor da força de trabalho = valor do dinheiro*salário nominal]
w* = (x/y)h*w

Portanto, Marx não mantém o salário real (w/p) fixo dada a mudança nas técnicas e somente uma leitura dogmática de certas passagens de Marx poderia entregar esse resultado, qual seja, a explicação do salário real como um nível de vida historicamente e moralmente determinado.

Assim, Foley diz que para o padrão de desenvolvimento capitalista Okishio não é muito relevante, pois

“The pattern of this development in terms of the basic determinants of capital accu-mulation can be summarized as follows: (1) a rising productivity of labor; (2) a rising rate of surplus value; (3) a rising real wage; (4) a falling ratio of production wages to total capital outlays; and (5) a falling rate of profit. Marx tried to explain this pattern on the basis of the technical progressiveness of capitalism as a mode of production” (Foley, 2009, p. 139)

Finalmente, Foley apresenta as diversas teorias da crise marxistas (desproporção intersetorial, subconsumo e LQTTL) à luz da crítica de Marx à Lei de Say.

A última seção é dedicada ao socialismo. Ele mostra que Marx era um admirador do avanço tecnológico capitalista, como muito bem documentado no Manifesto Comunista (1848). Por isso, o socialismo não só supera os aspectos negativos do capitalismo como incorpora os avanços dessa forma de sociedade. Uma síntese geral do ponto pode ser vista nas seguintes passagens:

“Marx envisions a socialism that adopts these two central, positive elements of capitalism. Socialist people will presumably also be matter-of-fact materialists. They will consciously accept human responsibility for the construction of the human world, scorning the refuge of theological excuses for human failure. Equally im­portant, they will share with capitalists the power to mobilize social energy on a large scale and also to dispose of a massive social surplus product. Thus Marx’s socialism has nothing nostal­gic about it; he is not interested in a return to small-scale produc­tion or in the abandonment of advanced technology, but in the aggressive and instrumental use of scale and technique in pursuit of social ends.”

(…)

“For Marx the issue of socialism is primarily a question not of a desirable reform designed to bring social reality into closer corre­spondence with some moral ideal but of a painful necessity im­posed on people by the very success of capitalist development. To realize the possibilities of social production opened up by capitalism, the private basis of control over social surplus will have to be transcended.”

(…)

“He saw socialism as an epochal, historical phenomenon, a pervasive trans­formation of the relations between people and their subjective understanding of their situation. This transformation touches the most fundamental aspects of the organization of production and people’s assumptions about the conditions of their existence. It requires ultimately the replacement of the spontaneous, decen­tralized, market-regulated system of commodity production by a conscious, socially oriented governance of production.”

(…)

“This notion of socialism as incorporating and transcending cap­italist institutions extends to the problem of property. For Marx socialism means, not the abolition of property as an institution controlling people’s access to what they have produced, but the transformation of certain classes of property into social property, governed on an explicitly social basis. Marx viewed capitalist property as the end point of a long process of historical evolution itself. In his view this evolutionary process would continue and lead to the development of social forms of property.”

(…)

“These telegraphic formulations have three important moments. First, production in such a community is organized and directed socially. The authority that governs production and the disposi­tion of social labor is immediately and explicitly social. Its legiti­mation comes from its representing the community as a whole. Second, the motivation of individuals for entering into the social labor process is quite different from that of wage-laborers. Whereas the wage-laborer sells her labor-power with the aim of personal survival or advance in the competitive struggle, the socialist worker gives her labor as a part of the grand mosaic of social labor and works to ensure the survival and development of the society as a whole. This change in the social psychology of work is one of the most radical and profound of Marx’s ideas. Finally, the word conscious plays a very important role in this passage. For Marx, socialist labor will be based on a massive ad­vance in human understanding. Each member of a community of freely associated producers understands in some appropriate sense the whole system, its history, its goals, and the member’s own place in that pattern. Thus an important aspect of socialism for Marx is to dispel the confusion and distortion of commodity fe­tishism. The historical advance of humanity is, for him, the de­velopment of the individual’s consciousness.”

Portanto, esse pequeno texto indica alguns dos temas abordados por Foley. Nem de longe os temas e discussões se esgotam nestas pequenas passagens.

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2 respostas em “Resenha “Understanding Capital” Duncan Foley

  1. Muito bom, obrigado pelo dica, Bruno!

    Interessante que algumas das formulações do Foley sobre a visão do Marx que você indicou me lembram as do Paul Cockshott, cujo “Towards a New Socialism” estou lendo agora – inclusive essa questão do “problema da transformação” como um “não-problema”, e o cálculo direto das horas de trabalho diretamente e indiretamente aplicadas na produção de uma mercadoria como a base para o cálculo do valor em dinheiro expresso no preço, com o mais-valor como trabalho diretamente não pago. Depois o Cockshott vai usar isso como base no seu algoritmo de cálculo e balanceamento de um plano de produção para toda a sociedade. Eu ainda sou quase leigo sobre os detalhes d’O Capital – que ainda não li (mas pretendo superar esse erro em breve) – mas ver mais algum autor apontando como a visão de Marx sendo algo próximo do que o Cockshott indica sobre esses pontos me faz considerar q aparentemente as bases nas quais ele se sustenta são sólidas. Você conhece o trabalho dele?

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