Nosso 11 de setembro: homenagem aos 150 anos de O Capital

Esse post é muito especial. Ele é o número 100 do blog e comemora os 150 anos de lançamento de O Capital de Karl Marx.

Nosso 11 de setembro: homenagem aos 150 anos de O Capital

        O dia 11 de setembro ficou marcado na história recente pelos fatídicos anos de 1973 e 2001. Nessas datas duas tragédias marcaram o mundo, sendo o golpe de Estado de A. Pinochet contra Salvador Allende, democraticamente eleito no Chile ceifando trinta mil vidas durante uma ditadura militar e o atentado contra as torres gêmeas do World Trade Center, nos EUA, que custou cerca de três mil vidas.

        Todavia, o 11 de setembro tem outra memória importante, pois há exatos cento e cinquenta anos (11 de setembro de 1867) mil cópias do Livro I de O Capital, de Karl Marx e Friedrich Engels, foram postas à venda em Hamburgo. primeira_edicao_de_o_capitalA partir deste dia os trabalhadores de todo o mundo tiveram acesso uma teoria social que se constitui, além de ferramenta de análise concreta da realidade, também como uma arma de classe. A comemoração da data nos incita a refletir sobre a dimensão da crítica marxiana e dos potenciais abertos por ela. Não à toa o marxismo é considerado por alguns analistas como um novo continente do saber, um modo diferente de se fazer ciência.

        O grande mérito de Marx e Engels foi apresentar ao mundo não apenas uma análise de seu tempo, mas fundar uma matriz teórica muito particular, válida enquanto o capitalismo existir. É importante frisar, de partida, que Marx não analisou o capitalismo concorrencial de sua época e, portanto, mudanças no modo de produção capitalistas demandariam novos esforços teóricos para atualizar a obra. O ponto central é que no texto foram captados os elementos essenciais que definem o capitalismo enquanto tal, como um modo de produção particular. Assim, questões atuais se encontram desenvolvimento a partir e por dentro do texto, pois se na sua generalidade o capitalismo “ainda é aquele”, com a mesma natureza íntima. O que torna o marxismo tão particular e que lhe confere estatuto de obra frutiferamente inacabada são objeto de nossa exposição e reflexão aqui.

        É bem sabido que somente  o Livro I teve sua forma final antes de Marx morrer, mas nem por isto a leitura dos três livros é desencorajada, muito pelo contrário: os três livros se constituem como um todo harmônico, pois enquanto no Livro I o capital é produzido e as relações sociais capitalistas reproduzidas, no Livro II são apresentadas as determinações da circulação do capital social, cabendo ao Livro III fechar a obra discutindo a distribuição do mais-valor pela disputa dos capitais particulares sob concorrência. A obra se fundamenta a partir de uma crítica imanente à Economia Política, buscando desvelar o conteúdo por detrás das categorias econômicas, reflexo teórico de uma realidade social invertida. A inversão, fruto da posição do mundo das coisas como orientador do movimento social, subordina os homens e coloca o capital como sujeito cego e automático que impõe sua lógica imanente como lógica do sistema. Por isso que, cotidianamente, se ouve que o mercado está bem ou mal-humorado, como se ele fosse um sujeito. Inversamente, homens e mulheres se subordinam aos desígnios do sistema, vendendo sua força de trabalho como mercadoria. A inversão sujeito-predicado faz com que o homem, sujeito social, se torne predicado de seu próprio predicado, o capital. Porém, para poder realizar sua natureza o capital precisa do trabalho assalariado, pois este, como fonte do valor possibilita que o trabalho morto se vivifique vampirescamente enquanto suga trabalho vivo. É esta a contradição fundante da nossa sociedade, a oposição capital-trabalho.

        Poderia ser objeto de dúvida se essa teorização não nasce de mera ideação dos autores, como que querendo justificar cientificamente uma posição política trazem a luta de classes para o centro da arena teórica. Pois bem, o marxismo ortodoxo (e ortodoxia se refere a método, não a resultados, à la Lukács) teoriza sobre o mundo que emerge após o feudalismo rompendo todos os laços sociais que prendiam os homens entre si ou à terra e põe o trabalho como categoria organizadora e ontologicamente fundante da vida social: não são mais as relações de poder que fundamentam a divisão social, mas a posição social que o sujeito ocupa na reprodução sistêmica que determina sua vida. Os homens pensam como pensam, pois ocupam um certo locus na reprodução social do mundo material. O método marxiano, portanto, além de se basear em uma ontologia do ser social fundada no trabalho, elabora uma exposição crítica da Economia Política de um ponto de vista materialista, o que implica que Marx colhe do real suas determinações, as articula no nível mais abstrato em categorias e de posse desse arsenal categorial volta à realidade para organizar o todo caótico que é o real de forma cientificamente inteligível. É fundamental perceber que não se deriva uma teoria a partir da cabeça do pesquisador, mas, inversamente é o objeto de estudo que impõe sua lógica, cabendo ao teórico reproduzi-la idealmente. Por isso Marx expõe, ao longo dos três livros da obra, o capital em seus próprios termos em graus crescentes de concretude, determinando-o progressivamente durante sua exposição dialética. Ele vai do abstrato ao concreto enriquecendo o capital de suas determinações progressivas e também expondo um traço constitutivo do sistema, o estatuto contraditório do capital, sua autonegação, a crise. Assim, para o marxismo a crise é endógena ao sistema, fruto do próprio movimento de acumulação.

        Fundamentalmente, por conta de destrinchar o todo social a partir da lógica que preside o real, o marxismo precisa acolher a contradição. Pois o capital, valor que se valoriza, se relaciona de forma conflituosa com o trabalho e essa contradição, que põe o capital como sujeito, opera uma inversão na realidade. Enquanto o plano fenomênico do sistema mostra e indica algumas relações, a simples aparência também escamoteia, esconde e mistifica a realidade. É justamente por acolher a contradição que o pensador marxista pode ultrapassar a aparência do sistema e descobrir sua essência, desvendando por trás do capital como forma está o trabalho como substância.

        Esse é espírito geral da obra, que além de congregar todas as considerações acima, também revela que o capitalismo é um modo de produção historicamente determinado, portanto, assim como começou, também há de ter seu termo histórico. A ruptura dessa naturalização do sistema traz possibilidades políticas emancipatórias e indica caminhos para uma práxis revolucionária. E a obra de Marx abre essas possibilidades pois municia o trabalho lhe mostrando a lógica que preside a sociedade, fazendo não uma crítica do capitalismo do ponto de vista do trabalho, mas uma crítica do trabalho no capitalismo.

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        Com Marx descobrimos que o capital é uma relação social de exploração. A chave analítica da exploração não é moral, mas sim uma relação desigual entre desiguais: enquanto uns são postos como capitalistas porque detêm os meios de produção, aos demais resta a venda de sua única mercadoria, sua força de trabalho – mas que aos olhos do investigador pouco atento se mostra de forma invertida como uma relação de iguais, como meros possuidores de mercadorias. Como quem produz o faz sob os desígnios do capital e sob o ritmo da máquina, o trabalho, que funda o ser social, se mostra como escravidão assalariada, embrutecimento, esvaziamento e perda de sentido para quem labuta. E aquela aparência harmônica do mercado (esfera da circulação) é suportada por uma profunda cisão social na produção: a divisão entre classes.

        Na ânsia por lucro, o motivo indutor da produção capitalista, o capital corre para cortar custos e se instaura a tendência crônica da mudança tecnológica poupadora de trabalho. Como o trabalho é quem gera valor, com essa tendência tecnológica se evidencia a lei mais importante do modo de produção capitalista, a lei da queda tendencial da taxa de lucro: na busca por lucratividade os capitais individuais geram um resultado agregado que reduz a taxa média de lucro. A explosão financeira se segue como fuga para a frente, como tentativa de recompor a lucratividade do capital a partir de lucros fictícios. No outro lado, o capital abre um franco programa político em busca de mais-valor absoluto e relativo, recompondo a barbárie social via aumento da taxa de exploração, ponto fundamental para a retomada da taxa de lucro. A luta social está presente na sociedade dividida em classes

        Assim, enquanto houver capitalismo a obra de Marx estará aberta a todas novas determinações do real. Marxismo, insisto, não é resultado, mas método. Não é dogma, não é teorema, mas sim a reprodução ideal do movimento do real. Enquanto houver um fio condutor revolucionário na obra de Marx, enquanto houver coisificação do homem, enquanto houver luta de classes o marxismo funcionará como arma daqueles que lutam por um mundo melhor.

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