Cotidianomics: dinheiro não traz felicidade

Olá a todos!

Hoje eu inicio uma coluna no blog intitulada “Cotidianomics: economia do cotidiano”. A ideia é trazer situações cotidianas para o diálogo com a Teoria Econômica. O nome é uma junção de cotidiano + economics (Ciência Econômica, em inglês). O projeto é publicar textos curtos, de fácil leitura, se possível bem humorados – ou pelo menos fugindo do jargão mais acadêmico, explicando os termos e a lógica econômica.

Nosso primeiro tema é: dinheiro não traz felicidade [manda buscar].

Eu estava na academia hoje e ouvi um rapaz conversando com um colega e ele falou que se o dinheiro não trazia, pelo menos mandava buscar a felicidade. Procurando na internet ainda existem variantes da frase, mas todas são unânimes: o dinheiro, em si, não nos torna necessariamente mais felizes. Ora, se consumimos bens e serviços que nos trazem satisfação, o dinheiro manda buscar e até entrega a felicidade sim. Certo? Depende…

Depende porque em Economia define-se utilidade como aquilo que gera bem-estar (um cálculo psicológico) ao indivíduo. E como é o indivíduo quem melhor sabe o que é bom para si, cada sujeito decide sobre consumir aquilo que lhe traz bem-estar e que pode ser captado pelo que os economistas chamam de utilidade. Ora, o conceito de consumo refere-se a tudo aquilo que aumenta a utilidade (e gera bem-estar). Até aqui, tudo bem: uma cerveja, um carro ou um corte de cabelo são consumo, geram utilidade e aumentam nosso bem-estar. Mas, e aquilo que não é comprado: companhia de um parente querido, uma noite com a mulher amada, uma paisagem que você encontra ao abrir a janela… A princípio para nada disso houve gasto direto em dinheiro, mesmo que estas coisas elevem meu grau de satisfação, ou seja, consumo “sem comprar”; será?

O ponto é: mesmo aquilo que explicitamente não é monetizado, na verdade pode ser contabilizado em unidades monetárias. Gary Becker ganhou o prêmio Nobel de Economia ao discutir a existência de mercados para coisas que não são, per se, bens econômicos: casamento, filhos, etc. O que ele aponta é que a companhia de um filho (seu consumo) gera bem-estar – portanto deve fazer parte da cesta de bens que o sujeito escolhe. Assim, o pai calcula que terá gastos ao ter o filho, mas o “serviço” que ele gera de aumento de bem-estar explicita que o pai decide “consumir” o serviço do filho (entram no cálculo até a aposentadoria e os cuidados futuros do filho para com o pai).

Contudo, a decisão de ter filho (ou do casamento, entre outras) é posterior ao cálculo, “na ponta do lápis”. Quem nunca ouviu dizer sobre que se faz conta para saber se era a hora de casar, se cabe no bolso? Existe um conceito, em bom economês é o “custo de oportunidade”, que quer dizer “tudo aquilo que você abdica dada uma escolha”: enquanto você gasta com hospital, fralda, mamadeira, falta de sono e redução de produtividade no trabalho e filmes do Frozen este dinheiro poderia ter sido aplicado, alocado para consumir outra coisa, afinal os recursos são escassos e precisamos aloca-los racionalmente, por isso que escolhemos e, por isso que ter um filho pode ser encarado como uma decisão de consumo, mesmo sem a “compra” direta do “bem” que é o filho.

Assim, nem tudo é diretamente comprado com dinheiro, mas nenhuma decisão é imune ao cálculo econômico, pois em última instância, “não existe almoço grátis”. É por isso que o dinheiro traz sim felicidade em um mundo que tudo é objeto de compra e venda ou que pelo menos é reduzido à sua dimensão econômica.

 

Uma resposta em “Cotidianomics: dinheiro não traz felicidade

  1. Sem desdém, desdesdenhosamente mesmo falando, reitero, muito dinheiro traz infelicidade. A propósito, recomendo a leitura de “Socialismo para Milionários”, de Bernard Shaw.

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