Corrupsão

Em tempos de manifestações e passeatas contra a corrupção…

Corrupsão

O que deve ter chamado a sua atenção e deve ter feito com que você abrisse esse artigo foi o título dele, não? Pois é, com o abuso da licença poética eu cunhei um termo que exprime bem as opiniões dos nossos tempos: acredita-se que a corrupção tenha nome e sobrenome, atribuindo-se aos sujeitos a volição pelo ato. A metonímia consiste em tomar o todo pela parte, ou seja, o ato em si de corrupção pelo sujeito corruptor.

Nesse sentido, acusamos os sujeitos pela corrupção como se fosse mera opção deles enveredar pelo caminho escuso. Como existem os honestos e os corruptos, colocamo-nos contrários aos contraventores. Na esteira desse pensamento binário emerge a lógica de protestos contra a corrupção, recheados de #basta #chegadecorrupção e outras palavras de ordem da era do engajamento digital, junto aos panelaços nas janelas e o sentimento cívico que só guarda semelhança a uma final de Copa do Mundo. O que ninguém se pergunta é: existe alguém que seja a favor da corrupção para que façamos protestos contra ela? Ou seja, faz sentido lógico essa pauta? Eu estou seguro de que não faz! Seja o indivíduo da extrema-esquerda, revolucionário, crítico do capitalismo ou o sujeito liberal e pró-mercado, ambos – sim, ambos! – são contra a perpetuação da corrupção.

Cabe-nos, portanto, perguntar: de onde surge a corrupção? Se ela não é mera expressão da vontade dos sujeitos e todos, sem exceção, se dizem contrários a ela, por que então ela existe? Para isso, precisarei fazer uma digressão. Eu juro que fará sentido ao final (assim espero).

No sistema social em que vivemos a lógica econômica é a racionalidade maximizadora dos agentes: cada um lutando pela busca da maximização do seu autointeresse opta por esta ou aquela escolha porque é a que preenche o seu bem-estar. Na medida em que todos fazem isso egoisticamente, o que emerge socialmente o faz como resultado agregado, o dito mercado. Nas palavras de Smith: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse.” (Adam Smith, A Riqueza das Nações, Livro 1 p. 74 (versão pdf)). O que acontece, contudo, é que a forma de acesso a todos os bens e serviços nessa sociedade se dá mediante a compra e venda porque tudo se transformou em mercadoria: se compra saúde, moradia, educação, lazer, sexo, amor, amizade, honra, camisetas, carros, computadores, pessoas, etc. Para o agente do mercado, o produtor e o consumidor, a lógica que se impõe é a da concorrência – por maiores lucros aos produtores e maior satisfação aos consumidores. Assim, vale a pena tirar vantagens de situações específicas, como por exemplo, abaixar os salários ou desenvolver tecnologia para competir com o seu concorrente e abocanhar a fatia dele do mercado; do lado da demanda, achar uma oportunidade aonde a mercadoria está com um preço baixo ou fazer um negócio sem nota fiscal para abaixar o custo… Portanto, no mercado a esperteza é parte do jogo; nem sempre, ou pelo menos não necessariamente por má índole. Contudo, como a lógica do mercado inunda a vida social das pessoas porque tudo é acessado via mercado, a lógica econômica também se espraia pelas outras esferas da sociedade. É aqui que reside nosso problema!

A lógica econômica ao inundar a sociedade reproduz em todas as esferas da vida a sua dinâmica. A forma por excelência das operações de compra e venda é o contrato. Para uma mercadoria barata (garrafa de água, por exemplo), ninguém pergunta se o sujeito que vende é o proprietário dela. Já para um carro ou um imóvel ninguém compra sem um contrato de compra e venda, pois afinal se o vendedor não for o proprietário, o verdadeiro dono pode requisitar a propriedade do bem.

Assim a vida caminha, por exemplo, o casamento é um contrato aonde ambas as partes cedem o uso recíproco de suas capacidades sexuais, segundo Kant na Metafísica dos Costumes. Para você ingressar em qualquer rede social ou abrir uma conta em algum banco, há a necessidade de ler as letras miúdas dos contratos. Seja na compra dos bens, seja nas relações humanas, o contrato e, portanto, a lógica econômica, dão o sentido à vida. Quando morre o parente mais velho e dono do dinheiro famílias inteiras se desfazem na luta por maior parcela das riquezas acumuladas. Em muitos namoros o namorado “só liga se a namorada ligar”, quase que nunca relação de competição entre ambos para ver quem cede primeiro.

Se a vida econômica é governada pela lógica da disputa (concorrência) e pela tentativa de obter vantagens e se a lógica econômica se espraia pela vida social, pronto, fechamos nossa equação: a dinâmica da vida é marcada pela concorrência e esperteza entre os agentes porque reproduzimos essa concorrência em todas as esferas de vida. É aqui que eu afirmo: a corrupção enquanto “tirar vantagem” faz parte do sistema. Ele sobrevive e funciona muito bem sem ela, mas não vê problemas em lidar com sua ocorrência.

Portanto, não faz sentido atribuir aos sujeitos a culpa irrestrita sobre a corrupção. Fazer política é, necessariamente sujar as mãos! Não porque queiramos ou achemos que seja necessário, mas o sistema estabelecido conta com uma certa correlação de forças estabelecida e não existe possibilidade alguma de entrar no jogo sem efetivamente jogá-lo. É claro que uma outra sociedade em que essa lógica seja extirpada é possível; é justamente por esse tipo de mundo que eu e outros lutamos. Porém, nos moldes da sociedade posta não faz sentido nenhum esse discurso de fundo moral sobre a corrupção, ela é imanente à lógica de funcionamento do mundo!

É claro que no atual estado de coisas o sujeito tem responsabilidade por atuar de forma corrupta, é óbvio, mas a ocorrência dela não é mera escolha pessoal que reflete interesses políticos ou pessoais.

É preciso entender que a corrupção é um fato social no estilo durkheimiano: uma estrutura que existe independente dos indivíduos e que opera de forma coercitiva sobre seus atos. Assim, a corrpusão, tal qual definida no começo não existe. Tanto ela faz parte do nosso dia a dia que, conte comigo quantas vezes você parou na vaga de deficiente só um segundinho, furou uma fila, viu uma oportunidade que não era para você se valer dela e conseguiu, puxou o tapete de alguém ou pelo menos não fez esforços para que outro não sofresse alguma perda… É, meus caros, a corrupção é parte da nossa vida e isso não deve gerar um discurso conformista. Ao contrário, deve ultrapassar a ilusão moralista de que o corrupto é o outros e ir à raiz do problema: o próprio homem em sua vida social.

Lave bem antes de usar

3 respostas em “Corrupsão

  1. Duas discordâncias meu querido.
    1. O capitalismo não “sobrevive e funciona muito bem sem ela (corrupção, tirar vantagens). A raiz do capitalismo começa na apropriação da vantagem mais essencial ao sistema: a mais-valia.

    2. Participar do jogo político não necessariamente precisa sujar as mãos. Isso deixamos para o oportunismo das forças que não tem como fim a supressão deste sistema. Para os partidos que têm esse projeto, o jogo político institucional, eleitoreiro, “democrático”, é realizado na base da denúncia política e da pressão popular. Claro que tem a prática política onde taticamente se faz alianças, acordos momentâneos, mas que não se coloca a necessidade de atos corruptos ou de tirar vantagens.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s