Desenvolvimento e seus custos sociais

Delfim Netto e o desenvolvimento

Delfim Netto e o desenvolvimento. Biblioteca da FEA USP

Os economistas tucanos estão batendo na tese de que desvalorizar o câmbio gera impacto inflacionário. A ideia é que a cesta de consumo do brasileiro é fortemente composta por produtos tradables. Por alguns modelos kaleckianos existe a possibilidade de desvalorizar o câmbio sem impacto inflacionário e, portanto, de arrocho salarial, mas pra isso seria necessário reduzir os mark-ups das empresas. Acredito que seja inviável isso hoje. A equação que descreve esse comportamento é discutida em BLECKER, R. (2002) “Distribution, demand and growth in neo-Kaleckian macro-models”, em M. Setterfield (ed.) The Economics of Demand-led Growth, Edward Elgar. [cap. 8].

Contudo, é crível que a desvalorização real recaia sobre os lucros das empresas e não sobre os trabalhadores? Acredito que não: correlação de forças e baixos níveis de investimento dos empresários me parecem impeditivos para isso. Portanto, olhando a realidade brasileira, para uma estratégia de desenvolvimento que acredite na desvalorização cambial – e portanto no aumento do nível de atividade puxado também pelas exportações líquidas, além do consumo – eu acho inevitável que a desvalorização cambial gere, no curto prazo, arrocho salarial via inflação.

Não tem almoço grátis, não é mesmo? Temos de pagar o ônus de, desde o Plano Real, termos, sistematicamente, um câmbio apreciado. Uma estratégia parcimoniosa, que misture pequena desvalorização dentro de uma banda (para evitar as históricas maxidesvalorizações) e que parte do movimento fique no mercado, via câmbio flutuante, pode ser positiva.

Como todo economista é treinado a pensar em ponderar os custos e benefícios, essa conta é necessária aqui. No caso dos economistas aecistas, eles acham que é necessário conter a taxa de crescimento dos salários acima da taxa de crescimento da produtividade pois esta é a fonte da inflação. Qualificando, alguns diz que que não fazê-lo, ou seja, continuar o que temos hoje tem um custo, qual seja, pressão inflacionária. Assim, fazer o ajuste tem, para eles, também suas duas dimensões:o benefício seria reestruturar os fundamentos da economia no tocante ao mercado de trabalho (isso viria junto a uma possível flexibilização das leis trabalhistas para redução do Custo Brasil) e controle da inflação; o custo é ajustar a relação entre produtividade e salários e se daria via contingenciamento de demanda com uma política monetária contracionista (aumento de juros) – a ideia é que como aumentar a produtividade demora, no curto prazo é necessário conter a demanda enquanto se aumenta, paulatinamente, a produtividade, por exemplo, com acúmulo de capital humano. Com esse diagnóstico, conter a demanda vem via tornar o crédito mais caro, forçando uma pressão altista nos custos do empresário. Para poder manter suas margens de lucro o empresário precisa fazer cortes de custos e o corte provável é nos custos variáveis, a saber, no fator trabalho. Como não se pode abaixar salário mínimo porque é inconstitucional, salvo acordo coletivo, a saída é gerar desemprego; se o ajuste não se vem via variável de preço, vem via variável de quantidade.

No curto prazo, custo/benefício = desemprego/controle inflacionário

Já eu me incluo nos desenvolvimentistas e acredito que o custo de uma desvalorização é sim o arrocho no curto prazo, pela estrutura da economia brasileira. Como apontado, se não podemos cortar nos mark-ups, a relação para desvalorização se dá via aumento de preços e, portanto, pressão inflacionária, arrocho salarial. Já o benefício é a retomada dos superávits comerciais transformando as exportações líquidas em fator dinâmico para o crescimento de longo prazo, possível reindustrialização brasileira, aumento de demanda por trabalho retomada do crescimento.

No curto prazo, custo/benefício = inflação no curto prazo/aumento das exportações

Portanto, é inevitável que, qualquer que seja o caminho, tenhamos ajuste no mercado de trabalho, seja via desemprego, seja via arrocho salarial. A diferença é que um projeto é um trade-off entre presente e futuro, o outro, é uma conta a ser paga hoje, com ônus no futuro (aprofundamento da desindustrialização, correlação de forças mais forte pro lado do rentismo).

Ademais, qualquer uma das propostas vem, necessariamente, colada com uma política fiscal responsável. Ela pode (e deve) ser ativa, mas com o impacto inflacionário advindo da proposta social-desenvolvimentista (PT) ou com a ideia de pouca leniência na proposta financista (PSDB) ela vai precisar ajudar no ajuste.

No futuro, mantendo-se essas políticas, parece ser claro que a proposta financista nos leva à subordinação aos mercados e ao rentismo, mesmo que consiga promover a retomada dos fundamentos no mercado de trabalho. Já a proposta social-desenvolvimentista pode sofrer de perda de credibilidade aos olhos do mercado por excesso de intervencionismo na economia, mas aponta a uma retomada da indústria e portanto do setor dinâmico da economia nacional.

O próximo ano é complicado, qualquer que seja o cenário. Inevitavelmente o ajuste virá, a diferença é: existe perspectiva de melhora no futuro? Eu acho que o modelo social-desenvolvimentista aponta para uma possibilidade de reestruturação da economia brasileira, já a outra proposta, nos leva diretamente à subordinação ao rentismo e ao poder das finanças.

A diferença da proposta social-desenvolvimentista é que ela insere o Brasil nas cadeias internacioanais de valor internacional e faz de nós um player com maior parcela de mercado, ao fim, propõe outro padrão de acumulação para a economia brasileira. Já a proposta financista nos condena ao aprofundamento da dependência periférica, marca central das economias subdesenvolvidas.

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