Fragmentos da insubordinação social ante o capital…

Viver um momento de ampla mobilização e ter distanciamento crítico pra analisar esse momento são coisas quase paradoxais. Esses dias venho participando, vivendo, escrevendo, gritando, parando avenida, enfim, vivendo… Fragmentos que talvez um dia possam ser alinhavados. Fragmentos meus, fragmentos de mais um entre tantos!

E o medo do discurso “cansei!”,” indignados” e do fetiche do movimentismo? Essa apropriação pequeno-burguesa deve ser combatida na raiz! Não à inversão entre meios e fins no movimento político! Não aceitem a cooptação pela mídia e pela classe média como se a corrupção fosse o mote da insurgência, como se a exacerbação do espirito nacionalista guiasse os anseios do povo! É tudo que a direta precisa pra se fortalecer no seio do ressurgimento da massas nas ruas!

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Trechos selecionados por mim do texto do Zizek nos Occupy que valem pra hoje. Em breve escrevo algo de próprio punho.

“Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. 

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado”

Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou

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Não era contra a corrupção, não era dia de camiseta branca e nem de bandeira do Brasil. Não era dia de pedir para abaixar bandeira de partido, não era dia de reclamar da inflação e ninguém ali debate a PEC 10, 20 ou 37. Não era dia de reclamar de vandalismo e nem dia de pedir impeachment da Dilma. Não era dia de nada disso que a mídia tá tentando vender.

Mas, acima de tudo: não foi ontem que o povo acordou; ontem foi o dia que você, estúpido, que acha o ano todo que política é chato e odeia discuti-la quis ir pra rua fazer festa no meio da luta dos outros. Daqui alguns dias quando a moda do protestos abaixar e a Globo voltar a falar mal do movimento você chamará aqueles que ontem estiveram ombro a ombro contigo de vândalos. 

Em breve (depois da minha prova de quarta) escrevo um texto alinhavando muito do que tá na minha cabeça sobre isso tudo. Felicidade é ver o povo tomando o espaço que é seu, as ruas; tristeza ver a apropriação privada por parte de alguns setores do movimento. Sobre a possibilidade de agentes infiltrados e manipulação das situações, pensem um pouco, depois de atingir 30kg ninguém mais pode ser ingênuo.

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PENSEM!!!

Um conjunto de pessoas ontem que quebrou a ALERJ eram (de acordo com informes que recebi do RJ) anarquistas fortões, o que é bem inusitado. 

Hoje em SP os caras que começaram a depredar a Prefeitura usavam equipamento quase profissional contra gás e grande parte do movimento se coloca de forma contrária tentando contê-los – curioso, não há PM por lá no momento. 

Fica a dúvida: seriam mesmo manifestantes? Todos nós sabemos que a PM e as forças armadas infiltraram agentes de inteligência nas manifestações pelo Brasil, será que esses caras não são infiltrados para ação?

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Caralho, essa “ideologia da não-ideologia” contra os partidos tá me irritando duma forma descomunal! Eu sou ex-militante do PCB, mas porra, os camaradas do PSOL e do PSTU, por mais que eu possa ter discordâncias fundantes com eles, compõem os atos desde seu início e debatem os temas da mobilidade urbana há muito tempo, aliás, não fossem eles tomando tiro na quinta feira na Paulista, você não poderia estar na rua hoje, babaca! Então pensa um pouco! Essa verborragia antipartidária tem uma similitude enorme com o AI-2, de 1965! Se esse discurso contra os partidos te representa, saiba que ela também representa os golpistas e ditadores!

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Que o Passe Livre São Paulo + partidos + setores organizados à esquerda sentem, se unam e conversem na tentativa de organizar uma frente ampla que retorne o atos à esquerda ou daremos de bandeja esse movimento político à direita. Ultrapassemos nossas divergências, disputas e eventuais discordâncias para pelo menos não sermos engolidos. O movimento que se delineia é o esvaziamento da política sobre mobilidade urbana e transporte público pela classe média com suas pautas amorfas, que criando um vácuo político abrem espaço para que a extrema-direta ocupe esse vácuo. Ou assumimos o papel de vanguarda nesse movimento ou presenciaremos a guinada conservadora no bojo do ressurgimento e da retomada das ruas pelo povo! Esperou-se anos para ver o povo nas ruas, assumindo que a cidade era sua para desaguar nisso? VEJA, FIESP, Jabor, W. Waack, entre outros “nos apoiando” ? Um movimento que não tem resistência é porque não incomoda. E se não incomoda é porque não transforma!
Baixou, mas os atos são organizados pelo movimento PASSE LIVRE. Baixou, mas vão ter que onerar algo pra reduzir na tarifa – e pode ter certeza de não vai ser o lucro do empresário que vai reduzir. Baixou, mas a população está insatisfeita, nas ruas e é nossa obrigação disputar a hegemonia do movimento. Baixou, mas o capitalismo não cai de podre. À luta!
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Tentando entender melhor o que tá acontecendo e vendo várias manifestações, parece que outro sujeito social botou sua cara na rua. 

O movimento começou com um grupo de pessoas minimamente politizadas pedindo a redução da tarifa, descambou pra um esvaziamento de classe média com pautas e bandeiras amorfas e agora a parcela mais oprimida e explorada, que vive à margem, quiçá nas franjas da ordem do capital apareceu. Estou com uma dificuldade em conseguir entender se é de fato a parcela precarizada da sociedade ainda dentro dos limites da ordem do capital ou seja, o trabalhador precarizado ou se são os marginalizados pela ordem, o lumpemproletariado. 

O que vejo é um movimento de sujeitos entrando em lojas e pegando as mercadorias. Não vou usar a palavra saque nem roubo porque eu entendo que é gente pegando de volta seus sonhos sequestrados. É uma parte da população que parece ter sido roubada de sua autonomia, ter sido assaltada de suas possibilidades, por não ter dinheiro, uma parcela da população que nem população é. São crianças pegando brinquedos, mulheres pegando panelas. São pessoas que andaram descalças por não terem calçado, são os vilipendiados, são os invisíveis pra sociedade. Estes, sem orientação política, pegam o que é seu por direito, mas não de direito. Usam a expropriação da propriedade alheia para afirmar a sua, usam o que têm, as mãos, para expressar a indignação. 

Meus caros, quando essa parcela da população (que nada tem) vai às ruas é para o tudo ou nada porque a semente da revolta mora na periferia do sistema; e nela, o filho chora e a mãe não vê.

Uma resposta em “Fragmentos da insubordinação social ante o capital…

  1. Preciso, por motivos óbvios, expor a minha grande admiração pelos seus textos e seu blog, o qual conheci há muito pouco tempo e cuja riqueza de conteúdo me deixou maravilhado. Fico extremamente feliz por saber que um estudante de economia, assim como eu( sendo você muito mais experiente e inteligente, é claro), consegue analisar as coisas de uma forma simples e objetiva, compreendendo os fatos e ideias com o mínimo de interferência das suas convicções pessoais. Obrigado por ser um pessoa crítica e concisa, é algo raro de se ver em nosso meio, e isso diz muito para um calouro como eu 🙂

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