Tristeza e impotência

Me sinto triste. O sentimento é de impotência, é de ver minha cidade sitiada, é ver as ruas fechadas e o tal “direito de ir e vir” proibido. As pessoas eram impedidas de entrar na Paulista hoje. A impotência é também porque não fui a nenhum ato, não participei, não estive presente.

É claro que há um componente de histeria/catarse/orgasmo coletivo, um sentimento de pertencimento ao movimento quando se está presente, quem já foi a uma passeata, ato ou manifestação sabe do que falo. Mas não é disso que eu falo agora, não é isso que me deixa triste. É um sentimento de esvaziamento, é um sentimento de ter que chegar ao fundo do poço e ter que usar o fundo pra se levantar e se reerguer. A única vez que me senti mal dessa forma foi quando cheguei à USP e lá estava cavalaria, choque, PM, diversas unidades pra desocupar a Reitoria, era um sentimento de olhar, discordar e nada poder fazer. Ou seja, a ideia de tirar toda autonomia do indivíduo, quebrar sua liberdade e romper a possibilidade de que ele decida sobre as situações é quem deixa a gente assim. A situação que nos deixa assim é o “estado de exceção” e como diz Walter Benjamin: “ A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade”.

A questão é tentar entender o que significa essa negação da cidade ao cidadão, da privação do direito de manifestação e mais ainda, do acirramento da repressão sem motivo. Hoje a repressão não foi porque houve “baderna”; foi simplesmente o: não, vocês não vão chegar à Paulista!

Nitidamente os protestos perderam o tom da simples recusa dos R$ 3,20 em prol dos R$ 3,00 e agora tomam dimensões absurdas, as pessoas sabem que serão reprimidas e vão à rua para romper com essa violência que nós vivemos. A sociedade brasileira é violenta, seja na desigualdade social, seja nos preconceitos, seja na concentração de renda, seja no trânsito, em todos os âmbitos da vida social a lógica da concorrência e da violência tomam conta e fazem com que vivamos num mundo onde o outro é inimigo. O que ninguém percebeu é que o povo oprimido começou a enxergar alguns de seus inimigos, ainda no nível aparencial, mas vemos nuanças de que não é mais o preço da passagem e sim a ideia de que o que temos de combater é a crise social de um mundo em que as pessoas são privadas de seus direitos. Como diziam nos movimentos de desocupação como o do Pinheirinho, por exemplo: “Se morar é um direito, ocupar é um dever “. Eu mudaria um pouco e diria que em tempos de repressão, se protestar é um direito, resistir é um dever! Ou isso ou daremos de bandeja o poder soberano do povo ao Estado opressor!

Ao invés de ornamentar a postagem com uma foto, acessem para maiores informações: http://feridosnoprotestosp.tumblr.com/

Um comentário meu hoje de manhã após passado o impacto emocional:

Espero que isso tenha sensibilizado o povo.

Quando os estudantes da USP pedem a saída da PM do campus, é porque esse é o modo de atuação dela dentro da nossa Universidade. Quando o morador da periferia se revolta, é porque esse é o modo de atuação da polícia nos bairros onde as câmeras dos manifestantes não chegam, com uma diferença: as balas não são de borracha.

Essa é a PM. Não foi excesso ontem, foi simplesmente o que ocorre nas periferias todo dia. É a forma como ela nos [estudantes] trata em toda manifestação. Não foi excesso, foi a PM mostrando o que ela é treinada para fazer. Repito: não houve excesso, houve normalidade. A PM é e sempre será, nesses moldes, um instrumento na mão Estado para calar as vozes dissonantes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s