Nota rápida sobre manifestações em São Paulo contra o aumento da tarifa do transporte público

           Caríssimo, fiz uma nota rápida e sem muita atenção porque estou cheio de coisas para fazer. Acho que vale a pena ser lido.

           Gosto de política e estou, há algum tempo, acompanhando os movimentos do MPL e algumas coisas me chamaram atenção e quero compartilhar com vocês.

           Hoje são os jovens de 15~17 anos que vão às ruas protestar contra o aumento de R$ 0,20. Já tratei aqui no face da realidade de algumas pessoas que tiveram de trocar a refeição pela passagem devido este ínfimo aumento para quem tem dinheiro ou exorbitante aumento para quem não o tem – ou seja, tem gente que de fato é afetada e tem de deixar de comer porque o aumento impede o sujeito de fazer as duas coisas. Contudo, não é sobre isso que pretendo tratar. No dia de hoje recebo duas notícias de um camarada sobre o tal “Dia do Basta”, numa delas se diz o seguinte:

           “No terceiro dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, os baderneiros que o promovem ultrapassaram, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia aja com maior rigor do que vem fazendo ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. (…)Atacada com paus e pedras sempre que tentava conter a fúria dos baderneiros, a PM reagiu com gás lacrimogêneo e balas de borracha. (…)A PM agiu com moderação, ao contrário do que disseram os manifestantes, que a acusaram de truculência para justificar os seus atos de vandalismo. (…) Embora fragmentado, o movimento mantém sua força, porque cada grupo tem seus líderes, e eles já demonstraram sua capacidade de organização e mobilização. Sabem todos muito bem o que estão fazendo. (…)A reação do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Fernando Haddad – este apesar de algumas reticências – à fúria e ao comportamento irresponsável dos manifestantes indica que, finalmente, eles se dispõem a endurecer o jogo. A atitude excessivamente moderada do governador já cansava a população. Não importa se ele estava convencido de que a moderação era a atitude mais adequada, ou se, por cálculo político, evitou parecer truculento. O fato é que a população quer o fim da baderna – e isso depende do rigor das autoridades.”[1]

           Noutro texto chamado “PM de SP diz que manifestantes não ficarão mais “à vontade” pela cidade”:

           “A Polícia Militar de São Paulo afirmou que não vai mais deixar manifestantes “à vontade pela cidade” durante novos protestos contra o aumento de tarifas do transporte público. (…) Com o resultado dos últimos protestos, ele diz ter notado que “na verdade os manifestantes querem implantar o caos e a desordem na cidade, eles não estão defendendo a redução da tarifa”. Por este motivo, segundo o oficial, não haverá mais tolerância como antes”.[2]

           Aliado às manifestações públicas tanto do governador (PSDB) quanto do prefeito (PT) sobre o acirramento das manifestações, peço que atentemos ao dia de hoje, ele é ponto de inflexão ao movimento. No primeiro ato havia mais ou menos 2 mil pessoas, dobrou no segundo pra 5 mil e dobrou para 10 mil no terceiro. Não há um índice que explique a correlação, mas no dia em que foram 10 mil pessoas às ruas havia mais ou menos há  12.655 confirmados no facebook[3]. No de hoje, no momento em que escrevo, há 23.317 confirmados. Não acho que esses números indiquem muita coisa (até porque um dos atos anteriores havia tido mais de 20 mil confirmações) nem sequer uma tendência, mas dado que o movimento veio se engrossando a tendência seria que ao menos se mantivesse o número.

            Eles dizem que aumentarão a repressão, aliás, ontem alguns manifestantes foram presos na volta ao trabalho por terem sido reconhecidos do dia anterior – pelo menos é o boato que rola. Cuidado aos que forem aos protestos. Lembrem-se da segurança, a ABIN e a própria PM infiltrou[4] agentes (e não é de hoje) nas manifestações; eles sabem quem é quem!

           Quanto ao movimento em si… Bem, eu o apoio criticamente. Acho importante a redução da passagem, mas se queremos de fato romper a exploração econômica das empresas sobre o povo temos de lutar pela estatização completa do sistema. Hoje dá parater Educação, Segurança Pública, Saúde entre outros provimentos de diversos bens públicos. Não temos transporte porque não interessa ao governo gastar com isso. Se se fizessem os cálculos ouvi – não tenho base para confirmação – que algo em torno de R$ 6 bilhões é o que custaria ao Estado para que o transporte fosse gratuito e de qualidade. Ele só custa caro porque no mercado privado as empresas têm de operar com lucro, não adianta. Se elas não operam com lucro elas saem do mercado. Não é nem uma questão de que o empresário é malvado, é da lógica do sistema! Ademais, falta organização política. Para ser claro, falta um (ou alguns) Partido dirigindo o movimento! Partido no sentido de um organismo de classe. Espontaneísmo nunca levou o movimento político a lugar algum. Sobre o trabalhador, Lênin sempre apontou que o proletariado deixado à sua sorte é reformista. A vanguarda política deve fazer o papel de dirigir o movimento, dirigir não é tolher liberdade e sim dar uniformidade e liderança, decisão aos manifestantes. Até a polícia, sem conhecimento político profundo averiguou isso quando diz: como negociar com o movimento se não há lideranças? O problema é que essa é uma luta específica, sobre a tarifa do transporte, mas eu acho que ela só obterá a vitória se for ligada, correlacionada, incorporada numa luta maior, que é uma luta política de questionamento do atual estado de coisas da sociedade, dando nome aos bois: o MPL só conseguirá uma vitória real se articular sua luta com uma luta anticapitalista – qualquer tipo de luta descontextualizada serve, no limite, ao diversionismo! E isso se faz abertamente e com consciência, dialogando com a população.

           Portanto, para uma vitória real o movimento, a meu ver, precisa de quatro coisas:

           i) aumento e acirramento das manifestações,

           ii) radicalidade na propositura (lembrar que ser radical é ir à raiz do problema, ou seja, não importa o quanto de lucro a empresa está tendo, importa que o provimento de um bem público não deve funcionar na lógica da propriedade privada)

           iii) organização política e liderança (não dá para esperar que 3 sujeitos saiam do meio da manifestação para decidir na hora do ato se vão para a rua X ou a Y)

           iv) articulação das pautas específicas a uma pauta geral – uma luta anticapitalista

           Assim, atentem à segurança, não exponham a imagem e sigam todas as condutas de segurança que são divulgadas nos eventos e não baixem a guarda, os cães de guarda do Estado estarão sedentos por sangue hoje. Todo cuidado é pouco, toda radicalidade é necessária.

           Por fim, uma crítica de forma superficial sobre a depredação do patrimônio público: as pessoas se assustam com o fogo na Paulista, mas sabem o que queimava? LIXO. As pessoas se assustam com os manifestantes parando o trânsito, mas quando não o param as pessoas atropelam. As pessoas se assustam com a depredação dos bancos, ora, estes são patrimônio privado e não público (isso não justifica que sejam quebrados, mas destrói a falácia da quebra do patrimônio público). E é aquilo, com o aumento de R$ 0,20 o metrô demorará poucos minutos a recuperar os danos. Dano mesmo é a população deixar de comer para viajar, é a mulher ser bulinada/encoxada no ônibus; dano mesmo é fazer a população sofrer para que as empresas ganhem lucros cada vez maiores.

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