Com um objeto eu consigo contar a história da humanidade

Antes de ler, pegue uma caneta, por favor. De verdade, leia o texto com uma caneta ao lado do computador, segure uma enquanto lê, de toda forma, olhe para ela antes de ler e me responda:

Uma caneta é só uma caneta?

– O que é uma caneta? Em uma primeira aproximação ela parece tão somente um objeto cilíndrico, talvez transparente e possui tampa. Provavelmente é de plástico com alguns componentes metálicos e talvez tenha borracha em algum pedaço dela.

– E como ela chegou aí? Existe toda uma intrincada relação econômica entre quem produziu essa caneta e quem extraiu o petróleo para depois fazer o plástico, aqueles que trabalharam para extrair borracha e nós, que não fizemos nada disso e usaremos a caneta. Nessas ações cotidianas que a gente chama de trabalho há toda uma sociabilidade entre quem trabalha e outros que são donos das empresas, entre aqueles que alocam parte de suas 24 horas diárias para receber salário e outros que por terem a propriedade obtêm lucros. Mas, além disso, quais mecanismos fizeram com que a caneta produzida na China chegasse ao Brasil, mais ainda, que estivesse aí do seu lado? Há além de uma relação intrincada na produção outras relações de circulação de mercadorias, de transporte, armazenamento. Com isso há estradas, portos ou aeroportos, gasolina e carros, um conjunto de condições que faz com que essa caneta esteja aí.

– Pra que serve essa caneta? O sujeito que a produziu não é o dono dela, é lógico, afinal não foi você quem a produziu. Aliás, você, que não a produziu sabe para que ela serve e como ela funciona. Caneta serve para comunicação, tem todo um debate de fundo sobre como a comunicação é importante, a escrita, toda uma esfera cultural por detrás disso… Vocês já entenderam meu ponto. […] Ou seja, com um objeto eu consigo contar a história da humanidade.

– Não acredita? Essa caneta guarda semelhança com as penas que eram usadas antigamente, afinal, ambas usavam tinta para grafar coisas. A produção delas, dado que são feitas atualmente deve ter uma relação de trabalho assalariado para produzir. Diferentemente de outros momentos em que talvez se produzisse para o uso próprio ela é produzida para ser vendida, existe, portanto, mercado. Não há também trabalho compulsório, nem escravo nem servil em uma linha de produção de canetas (pode até haver, mas nem de longe é a forma clássica do trabalho em nossos tempos). Voltando à caneta! Mas eu logo vejo que essa caneta não é igual a uma caneta Montblanc. Nem deve ser igual a outro objeto que escreva, afinal existem outras ferramentas: lápis, lapiseira. Ambos escrevem. Ela é uma caneta, mas não é uma caneta qualquer, é uma caneta específica; que, no entanto, guarda denominadores comuns a outras canetas e mesmo sem eu ver a sua caneta eu consigo entender o que é sua caneta. Ela é cilíndrica, de plástico, serve para escrever, possui tinta, deve ter tampa. Existem diversas abstrações que posso fazer para que eu chegue a um conceito abstrato do que é ser uma caneta. Se for investigá-la saberei como ela foi produzida, onde; saberei como ela chegou até você e terei domínio sobre diversas questões ligadas a ela (produção, circulação, consumo, circuito cultural em que ela se insere…)

O que eu faço é ultrapassar a IMEDIATICIDADE da caneta e descobrir, a partir de uma faculdade racional chamada abstração aquelas coisas que a definem enquanto tal, que são as determinações mais gerais do “ser caneta”. Encontradas as determinações mais gerais eu conecto essas características a outras que também encontrei e busco as MEDIAÇÕES entre essas determinações todas. Saio do dado imediato e busco pelo mediado, para apreender melhor esse dado imediato. Quando volto a ela, a caneta é, agora, uma caneta diferente. Antes eu olhava e só via uma caneta, uma simples caneta.

Agora quando eu olho para ela consigo apreender dimensões outrora inapreensíveis, pelo menos naquele primeiro momento. Eu olho para a caneta, que é um dado empírico, um fato (concreto), abstraio do dado fático e acho as determinações mais gerais do objeto (abstrato). Saio do concreto e vou para o abstrato, com isso acho as determinações e suas mediações, conheço meu objeto. Por fim, preciso voltar à caneta de partida, trago esse abstrato para o concreto de novo e essa caneta se me põe como concreto enquanto “concreto pensado”, ou seja, síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso. Ela é agora uma caneta saturada por um conjunto de determinações que a definem enquanto “uma caneta” e, mais, enquanto “essa caneta” específica que vejo. Quando faço isso eu consigo entender a caneta dentro daquele raciocínio todo que fiz. Consigo entendê-la, por fim, dentro de todo um circuito econômico, cultural, político, social que tem nessa simples caneta. Portanto, com uma simples caneta eu te conto a história da humanidade e posso fazê-lo com qualquer objeto.

Para quem leu e achou que tudo isso pareceu relativamente familiar, usei o método de Marx, o método de elevar o abstrato ao concreto expresso nos Grundrisse, na seção chamada Método da Economia Política.

Interessante: Friedman se vale de um raciocínio similar aqui

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