Boate ou corredor de motos: a mesma lógica

Depois da histeria coletiva frente ao acontecido na boate Kiss (Santa Maria) a vida volta ao normal e continuaremos a ver os velhos problemas com caras novas. Não quero criticar quem se indignou, você tem toda razão e eu também fiquei extasiado.

Meu ponto é simples: quantos jovens não são mortos nas periferias das grandes cidades, quantos trabalhadores não são feitos de escravos nos rincões do Brasil e quantas vidas não são perdidas pelos motoqueiros que voam nos corredores de carros nas nossas metrópoles? E por que são mortos/morrem? O que está por trás disso? Aqui, por simplificação de raciocínio olharemos somente o motoqueiro e o dono da balada.

O evento repercutiu de maneira mais avolumada pelo fato de se tratarem de jovens em um momento de diversão e pela mortandade coletiva num mesmo instante de tempo. De toda forma, as perversidades e as loucuras/esquizofrenias do mundo moderno, além do autoritarismo e da criminalização da pobreza em tal momento atual também fazem suas vítimas. No fundo o que fez com que os jovens morressem é o mesmo que mata o tal motoqueiro.

Ou seja, aquilo que tira a vida no atual estado de coisas é a busca desenfreada por lucro pautada por um modo de vida determinado. É o capitalismo que faz com que o motoqueiro tenha pouco tempo para fazer sua entrega ou com que o segurança tranque pessoas na balada pois que senão é ele quem perde seu emprego caso saiam sem pagar as comandas. O dono da empresa não faz por mal, não é um problema de ordem moral. Não existe capitalista malvado nem bonzinho; existe capitalista sujeito às leis do capitalismo. Existe uma instância da vida social que se sobrepõe aos homens chamada “mercado”. Ele governa e regula nossa vida[1] (ver seção IV do cap.1 de O Capital). Se o sujeito não conseguir fazer o mesmo que seus concorrentes fazem de forma mais rápida e barata ele não sobrevive no mercado. Ou, sendo concreto: se o sujeito falar para o motoqueiro se cuidar ao invés de correr talvez ele entregue menos correspondências que a empresa concorrente e a sua própria irá à falência. É isso que eu quero delinear, o problema não é (pode até ser, mas fundamentalmente não o é) de ordem moral. É uma forma de vida determinada pautada pela concorrência expressa na obtenção de lucros cada vez maiores. O problema, portanto, é como se arquiteta essa sociedade. Não olhamos para as situações a partir de uma paradigma que contemple a totalidade e é isso que estou tentando fazer. O problema específico liga-se a um problema geral – existe algo maior nisso tudo e eu o chamo de modo de produção capitalista (que basicamente diz que existem algumas “regras operatórias” para a reprodução da forma de vida atual, por isso chamo-o de modo determinado de vida).

Se continuarmos pautados por uma sociedade que o dinheiro fale mais alto teremos alvarás liberados e custos reduzidos, afinal, uma porta nova ou uma brigada de incêndio presente poderiam custar mais do que o planejado. Não é uma utopia nenhuma nem, tampouco uma atitude tresloucada tentar mostrar que o particular (boate Kiss) e o geral (modo de produção capitalista) se conversam. Muito menos, que o mercado domina os homens e este problema não é de ordem moral. (Às vezes um dono de uma empresa com 1000 funcionários diz que precisa demitir 400. Ele não está mentindo: caso não os demita terá de fechar as portas e demitir os outros 600 junto àqueles 400. É esse o nível analítico de como não é moral o problema).

Por fim, pensem um pouco como o dono da boate ou o dono da empresa de motoboys e aquela coisa do moral some. Você não quer a morte de ninguém, mas ela é um risco a ser tomado mediante a redução dos custos. É a velha história da concorrência inter-capitais; caso você não faça seu concorrente toma sua fatia do mercado e você é jogado para fora dele.


[1] “O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos. Por meio desse qüiproqüó os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas físicas metafísicas ou sociais. Assim, a impressão luminosa de uma coisa sobre o nervo ótico não se apresenta como uma excitação subjetiva do próprio nervo, mas como forma objetiva de uma coisa fora do olho. Mas, no ato de ver, a luz se projeta realmente a partir de uma coisa, o objeto externo, para outra, o olho. É uma relação física entre coisas físicas. Porém, a forma mercadoria e a relação de valor dos produtos de trabalho, na qual ele se representa, não têm que ver absolutamente nada com sua natureza física e com as relações materiais que daí se originam. Não é mais nada que determinada relação social entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Por isso, para encontrar uma analogia, temos de nos deslocar à região nebulosa do mundo da religião. Aqui, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim, no mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como mercadorias, e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias. Esse caráter fetichista do mundo das mercadorias provém, como a análise precedente já demonstrou, do caráter social peculiar do trabalho que produz mercadorias.” (Marx, O Capital vol.1)

Chaplin em Tempos Modernos

2 respostas em “Boate ou corredor de motos: a mesma lógica

  1. Concordo inteiramente com a lógica velho. Mas acho que mais do que apontar um ponto de convergência desses eventos, é válido diminuir um pouco a escala de observação. Os dois fenômenos são típicos de um país com uma elite feudal e extremamente incapaz, que “mercadoriza” sua moral (seja ela qual for) e ignora qualquer tipo de avanço institucionalizado pelo próprio Estado. Não estou aqui pra defender ninguém, muito menos quem possa parecer nesse comentário, mas esses tipos de fenômenos ocorrem de maneira muito menos frequente em países com uma elite “ilustrada”. Não existem capitalista bons nem maus – mas existem os sádicos e burros; que não cumprem nem sequer seu “papel histórico” (entre muitas aspas) – se contentam em ser absolutamente parasitários, conservadores e burros.

    • Gui, primeiramente muito obrigado pelo comentário, é ótimo ver você por aqui!!!

      Primeiro de tudo, sem clichê ou devolução de gentiliza eu concordo integralmente contigo. Acho que eu dei um pontapé fazendo a análise num plano mais abstrato e você, diminuindo o grau de abstração faz o caminho em direção à concretude da realidade brasileira.

      Lembro-me das aulas da Cássia e do Wanderley quando eram recorrentes as críticas à nossa “mequetrefe” e “xexelenta” burguesia nacional. Esta é uma verdade patente aos olhos de quem quiser ver. Com seu comentário você avança no papel histórico delas quando diz sobre seu conservadorismo e burrice, o que concordo. O que é preciso ponderar é que estamos na periferia do sistema e, portanto, a reprodução das ideias fora de seu lugar (Paulo Arantes e Leda falam um pouco disso) dá-se, geralmente, de forma invertida.

      “Deslocadas de seu solo social de origem, uma das reações que tais ideias ensejaram na Alemanha foi a de uma “crítica idealista”, que acabou por inverter o problema, transformando-o de econômico-social em epistemológico. Além disso, olhada a distância e para além dos inegáveis efeitos materiais que produz, a divisão capitalista do trabalho como que põe a nu também suas mazelas, invisíveis, pelo efeito da proximidade em demasia, para aqueles que vivem concretamente sob seus marcos. Segundo Arantes, numa espécie de simulação às avessas, o deslocamento das ideias de seu contexto de origem “ao dissimular revela, como se se as ideias fora de foco ganhassem em nitidez, deixando transparecer sua fragilidade ideológica” (PAULANI, L. Modernidade e Discurso Econômico, pags. 28-29)
      Obs. Há uma nota de rodapé onde a Leda coloca que o raciocínio usado pelo Paulo Arantes é, na verdade do Lukács quando olhava o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo.

      Portanto, em linhas gerais concordo contigo que a nossa burguesia nacional não cumpre seu papel histórico e, portanto, não desenvolve as forças produtivas como no centro do sistema. Nossa burguesia rentista e parasitária vive à custa do capital internacional, vejamos por exemplo o golpe de 64 quando as elites brasileiras preferiram aliar-se ao imperialismo a lutar pela soberania nacional. Ou então a época da desregulamentação e privatização na qual vendemos o patrimônio nacional? Concordo com você, somente precisamos pensar de que modo efetivamente se dá o desenvolvimento das forças produtivas num país (como alguns gostam de chamar) sub-imperialista na franja do capitalismo global?

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