Expressão cultural de classe – funk enquanto crítica e funk enquanto reprodução paradigmática de outra classe

Funk é expressão da cultura da Baixada Santista! Funk é cultura, mas não qualquer funk. Ele começou com um conteúdo crítico e transgressor, como expressão de indignação das comunidades carentes e das favelas, como voz do morro; ele, o funk – assim como o rap – davam voz à indignação, davam identidade ao gueto, davam cara ao preto, pobre, favelado, explorado e oprimido.

Mas o mundo transformou-se, a ética do consumo e a lógica da apropriação embebedaram todas as esferas da vida social, inclusive o funk, a esfera cultural. Antes o funk vendia porque era proibido, porque era transgressor. Agora, em conjunto à lógica consumista os agentes do MC’s operaram uma transformação no ethos do baile, tirando a ideia de que “Palavra de homem vale um tiro, eu tenho muita munição”, como dizia o Barriga e colocaram a ideia de que agora eu posso me imaginar de “megane ou 1100, invadindo os baile, num vai ter pra ninguém”.Esse é o mundo do funk atual. É o mundo em que não mais a crítica contundente ou o escracho frente ao poder posto fazem vez. O que faz vez é tentar transmutar-se em classe dominante, é parecer ser o que não é, é viver uma vida fictícia. E não à toa ele perde o potencial que tinha, o potencial revolucionário, de incitar a revolta. Ele sofre uma crise de identidade, desfaz-se da crítica, para aproximar-se do consumo, da plena realização da sociedade – hoje, afinal, o conceito máximo é o consumo. Por isso a classe dominante acaba se reconhecendo no funk e o explorado, oprimido, quem reconhecia nele expressão de seu mundo perde a referência e tenta viver a vida que não é a sua, a vida do dinheiro que compra tudo – típico valor das classes dominantes.Antes eu ouvia diversos MC’s cantando a revolta, expressando seu mundo. Eram Renatinho e Alemão, Dinho da VP, Danilo e Fabinho, Cláudio e Ratinho, Duda do Marapé, Menor do Chapa, Neguinho do Caxeta e por aí vai.

Como dizia o Barriga:
“Tenebroso e sombrio radicalizando tudo a todo tempo
movimento funk se proibiu,
na letra e revolta revolução a mil,
o funk da baixada explodiu pelo BrasilFalando em apologia,
eu não vejo por esse lado cantamos a realidade do dia-a-dia
da periferia que aos poucos destrói,
os sonhos das crianças e os culpados somos nós
o espelho mais perto, claro é certas drogas o
álcool a malandragem tudo menos escola, em cada dez, cinco
deles só pensam em jogar bola, o descaso disfarçado de amigos da escola.”Hoje ouço que a Megane, a 1100 ou o whisky com red bull importam mais. A revolta ante as condições materiais que privam as pessoas do acesso aos bens fica em segundo plano para que os próprios bens sejam o alvo do querer.

Por fim, é sempre bom lembrar que o funk é uma das poucas músicas que tem uma grande confluência e unidade entre forma e conteúdo. Sua forma rasgada, áspera, da atabaques e batidas com sons de tiro davam amálgama com um conteúdo critico, amoldavam o tom contestador. Fosse no funk de “putaria” em que o sexo cantado tinha tudo a ver com a batida sensual, fosse no proibidão com sons de bala e batida forte que mostravam as mazelas da favela. Pois bem.

Essa é uma visão do funk por alguém que sempre gostou do funk, sempre ouviu o funk tentando entendê-lo. No sentido de o que representa, ele não representa mais grande coisa. Ficam as batidas gostosas que impedem qualquer um de ficar parado.

Por um funk que volte a ser socialmente perigoso!

Uma resposta em “Expressão cultural de classe – funk enquanto crítica e funk enquanto reprodução paradigmática de outra classe

  1. ——————
    ” Por um funk que volte a ser socialmente perigoso!”, Como assim Brunão? Socialmente perigoso? Por quê? Mcs fazendo apologias ao tráfico e a violência explícita. Não, eu não quero isso de volta, Mas entendi o que você quis dizer ( acho). você quer de volta aquele funk mais “construtivo” que fazia críticas ao preconceito e falava de como era difícil a vida nas favelas, aí eu até posso concordar com você. Com certeza, esses funks sim valeriam muito a pena voltar, não tem nem comparação, funk do Mc Serginho – Rap do Silva com Mc Britney. Mas mesmo assim ainda tinham suas versões “proibidas” incitando a guerra entre facções, tráfico, entre outros. Mas eu gosto de funk, gosto do ritmo, mas geralmente não curto as letras.Funk é um ritmo bastante popular no Brasil, principalmente nas favelas do Rio de Janeiro. Embora tenha surgido nos EUA, foi gradualmente se modificando dentro das periferias, misturando com outros estilos como Axé, Forró, Rap, Hip Hop, Freestyle e Miami Bass até se tornar o que temos hoje. Porém, mesmo sendo um estilo muito apreciado por nós jovens da era moderna, o funk se configurou como o lixo da cultura musical brasileira ( Tenho que confessar, não sei se discordo ou concordo). Apesar de me divertir dançando nas chopadas e nas boates, não sei se olhando pelo ponto de vista social ele traz algo positivo.

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