Nova classe média e estrutura de classes no Brasil

Ouvimos cotidianamente, nos jornais, frases como “aumenta a proporção de pessoas na classe C”.

Bem, vamos lá…

Classe X, Y ou Z ou qualquer outra letra do alfabeto é um conceito que precisa ser debatido. É classe por faixa de renda e não classe social! Isto porque classe social não se delimita por faixa de renda. Quer dizer que se eu ganho na loteria e vou recebendo esse valor como uma renda mensal eu mudo automaticamente de classe?

O que determina a CLASSE SOCIAL a que um indivíduo pertence é sua posição na produção material da vida social. Ou seja, o que essa pessoa faz da vida no sentido de reprodução material da vida social, reprodução esta tanto do mundo quanto das relações sociais que arquitetam esse mundo. Trocando em miúdos, se eu vendo minha força de trabalho ou se emprego outras para trabalharem para mim?

Esse debate pode parecer bobeira, mas é o que está por trás das duas últimas gestões do IPEA.

O antigo presidente, Marcio Pochmann lançou um livro há pouco tempo mostrando que o aumento da renda no Brasil foi significativo na base da pirâmide social. Ele mostra que 94% das vagas criadas entre 2004 e 2010 foram de até 1,5 salário mínimo. Ou seja, modificou-se a renda de muitas pessoas, mas observando quem elas são, o que fazem da vida o autor chegou à conclusão de que estas continuam nas mesmas funções de antes: manicure, taxista, atendente de telemarketing… São pessoas que fundamentalmente ocupam o setor de serviços, ou seja, pessoas que vendem sua força de trabalho. Com isso ele mostra que o que houve não foi modificação das classes sociais destas pessoas por aumento de renda, houve sim o alargamento da base da pirâmide, um aprofundamento do proletariado – categoria que diz ser este o sujeito que vende sua força de trabalho.

O atual presidente, Marcelo Neri, em seu último livro organizou a categoria de classe por mudança na faixa de renda. Se eu ganho X, pertenço à classe Y,  se ganho de 5X a 10X pertenço à classe W. Mas ora, aumento renda que não vem de modificação no lugar que a pessoa ocupa na produção material da vida não muda a classe social do indivíduo – como já foi apontado pelo Pochmann em seu livro!

Resumindo: o conceito de classe por faixa da renda não implica em posição específica na produção material da vida social, portanto não implica em determinada classe social. Se queremos de fato ver a modificação na estrutura de classes do Brasil precisamos partir de um conceito que dê conta da categoria de classe, sendo este o de classe social. Para mim é evidente que o fundamental é se perguntar “quem é aquela pessoa na reprodução material deste mundo”, é entender sua posição social e não simplesmente sua renda.
Esse tipo de ginástica intelectual, tal qual a operada pelo Neri complica e aprofunda o problema do reconhecimento, da consciência de classe. Porque se digo que um sujeito operador de telemarketing é da classe B só porque ganha até 10 salários mínimos, como esperar que ele reconheça a exploração de sua força de trabalho? É, por fim, um debate político. Por isso, economistas, não devemos nos furtar de tentar entender a estrutura de classes, a questão da consciência e reconhecimento/relação de pertencimento à classe.

Dados sobre classe por faixa de renda, de duas pesquisas distintas do Neri:

Classe A: Acima de R$9.745,00

Classe B: de R$7.475,00 a R$9.745,00
Classe C: de R$1.734 a R$7.475,00
Classe D: de R$1.085,00 a R$1.734,00
Classe E: de R$0,00 a de R$1.085,00

*Ajustado pela POF
**Atualizado a preços de julho de 2011

Veja mais em http://www.cps.fgv.br/cps/ncm2014/

GRUPOS DE RENDA DA POPULAÇÃO
Classificação da SAE Classificação da CPS/FGV
Grupo
Renda per capita
Renda familiar (pai, mãe e 2 filhos) Grupo
Renda familiar
Extremamente pobre
Até R$ 81 Até R$ 324 E
Até R$ 1.085
Pobre, mas não extremamente pobre
Até R$ 162 Até R$ 648 D
Até R$ 1.734
Vulnerável
Até R$ 291 Até R$ 1.164
Baixa classe média
Até R$ 441 Até R$ 1.764 C
Até R$ 7.475
Média classe média
Até R$ 641 Até R$ 2.564
Alta classe média
Até R$ 1.019 Até R$ 4.076
Baixa classe alta
Até 2.480 Até R$ 9.920 B
Até R$ 9.745
Alta classe alta
Acima de 2.480 Acima de R$ 9.920 A
Acima de R$ 9.745
Fontes: Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e Centro de Políticas Sociais da FGV (estudo ‘De Volta ao País do Futuro’, de Marcelo Néri)

 

 

 

 

Este é o país da tal Nova Classe Média?

 

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