Ressignificando você

Escrevo ainda envolto em teu cheiro,
Enrolado em teus braços,
Embebido do teu amor…
Entrelaçado na tua alma destoo daquela incansável procura da vida mundana
Te perco e te acho em vida porque sei que moras em mim
És parte fundante da energia vital que me anima,
És felicidade e tristeza, amor e ódio, és tudo e és nada!
Se me perguntas por que és nada,
Te digo que nada és porque sem mim tu não existes,
Sem existires, não vivo,
Sem viver, não somos.

(…)

Escrevo de peito cheio por perceber que mesmo num mundo contraditório, que tanto vilipendia o direito à felicidade, num mundo em que a lógica concorrencial e competitiva inunda toda vida social, mesmo nesse mundo, encontrei o que de mim faz parte, o que comigo deve ficar. Encontrei e reencontro, hoje e sempre – cada vez como a derradeira.

Você e eu, nada além de partes dissociadas n’algum momento da existência terrena, mas pertencentes a uma totalidade unívoca; é contigo que encontro a paz para cessar o movimento angustiante da vida despropositada. Aquela roda viva que derrapa nas curvas do destino e traça os maiores (des)caminhos que já conheci.

Quero seguir contigo, companheira, do jeito que nos for favorável. Naveguemos sob os ventos do destino dos povos, porque somente quem sabe aonde quer chegar conhece os ventos favoráveis para tal destino.

Sei que sou teu e que tu és minha. Sei que temo-nos reciprocamente; mas prometa-me ser sempre minha amiga, minha confidente, minha amada, minha amante, minha mulher, minha – resumindo tudo o que quero de ti – minha companheira de jornada!

Sei que o minha ainda é latente em minhas formulações, mas ele aparece, pois, ressignificado. Ele é o mesmo verbo ter, mas agora assume uma acepção distinta da apropriação privada, excludente da anterior; é que percebo a imanência de ti em mim – e vice versa.

Dialogando com o nosso embate “Dialética-Papeando”, esse ter opera uma superação dialética na ideia anterior exprimida pelo verbo ter.

Quando há uma superação dialética da realidade a síntese do processo é a instalação de uma nova realidade social que traz a realidade anterior negada, conservada e elevada em qualidade.

i) Negamos o “ter possuidor” na medida em que não devemos mais nos ter como posse
ii) Conservamos o “ter possuidor” pelo fato da necessidade visceral da presença física e carnal
iii) Elevamos em qualidade o “ter possuidor” porque damos novo sentido à nossa experiência vivente

Compomo-nos não apenas nos tangenciando em contratos de equalização de extremos mediados por convenções sociais. Ou seja, não sou porque sou teu namorado. Sou porque tenho você e assim encontro a plenitude de estar completo… O que diferencia este momento de outros é a inevitabilidade da construção qualitativa de uma relação que vive e morre em nós, por nós, para nós – contrapondo-se à exacerbação da “quantitatividade” de outros momentos.

Componho-me, agora (na verdade, não somente agora, mas sempre; a diferença é que tomei conhecimento somente agora), como sujeito, como ser, por você. Componho-me por você porque percebo que – de novo – univocamente, somos momentos indissociáveis de um único processo de vida, a nossa totalidade está em nós porque a nossa totalidade é exatamente: nós. Na medida em que existo, é porque você me compõe, na medida em que você me compõe, é porque existo composto por ti.

Não sei o que nos separou, mas tal como qualquer relação que é dialeticamente engendrada, a separação ou autonomização do que não deve estar separado conduz a crises. Sendo assim, a minha crise é perder-te dentro de mim mesmo.

Eu te amo …s2 (porque tudo têm um começo, mas nem tudo precisa ter um fim!)

(…)
Ensopado e destruído, de novo me encontro corroído!
De nada adianta andar de cabeça baixa
Esse sentimento, se preso, me deixa destruído
Você me conserta, peça por peça me encaixa
Encalacrado, meu peito quase explode ao te ver
O sorriso brota e teima em ficar
As mãos tremem e anseiam por te ter
A garganta engrossa e insiste embotar
É duro saber que em poucas horas te direi adeus.
O tempo não se incomoda mais em trazer meus pés para o chão
Eu brigo comigo mesmo, mas não,
Não consigo!
Não sei mais não ser teu amante
Fico delirante ante o instante edificante que contigo se perfaz
…e se desfaz ao menor sinal daquele adeus angustiante
Na lembrança, cada bom momento contigo salga os olhos
Com aquele pedaço do mar que se esvai
Quando relembro o quão bom foi, minha alma se distrai
Se despedaça de novo, revisita as noites, as camas, a boca
Revisita cada vão momento sabendo que pode deleitar-se
Porque em breve você volta, encaixa tudo de novo,
e se vai…
Desaparece na neblina e negligencia o meu amor
somente para que eu lembre
Que teu, só teu eu sou.
E então, aquela salgada lágrima de antes,
Diante de ti, serve para lavar meu eu,
Mostrar que, como Prometeu,
Acorrentado ao destino eterno de ter minhas vísceras devoradas,
De novo, é você quem faz minhas experiências vividas
Servirem de imperativo para continuar nessas estradas
Que me levam sempre às tuas inúmeras despedidas…
E que me dão forças para te esperar, minha amada.

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