“Capitalistamente corrupto ou corruptamente capitalista”

       Quando me perguntaram sobre corrupção, decidi escrever e acabou saindo esse texto. Dedilhei um conjunto de ideias, mas algumas coisas estão desconexas… só o posto para não perdê-lo!

       Acho que a primeira maneira é mudar a estrutura social deste país, mas para falar, deixem-me fazer algumas ressalvas…

       Acho bom deixar claro de onde parto, a resposta aqui será a partir de uma perspectiva, qual seja, uma perspectiva revolucionária, de transformação estrutural (radical) da sociedade. Entendo que vivemos num mundo completamente falido, fadado ao fracasso; ele está estruturado em cima de bases insustentáveis, é um gigante com pés de barro: para que uns comam, outros passam fome. E a estrutura que faz com que haja essa dicotomia merece ser nomeada: capitalismo.

       Sim, o mundo capitalista é “o mais avançado até os dias de hoje”, não estou advogando a volta à civilização feudal, nem, tampouco, à República romana ou à Atenas de Péricles. Acho que avançamos e muito, mas falta avançar mais. Ou seja, advogo a superação deste mundo posto, não o retrocesso.

       A crítica central aqui é a de que esperar que esse mundo que mercantiliza toda a vida social, ou seja, comida, roupas, moradia, transporte e ensino são mercadorias; como não fossem bastante, sentimentos, relações humanas e até a vida é atualmente precificada. Pois bem, esperar que esse mundo não precise de uma ordem bastarda estabelecida é pouca capacidade crítica. Ou seja, esse mundo, fracassado, doente, errado, esse mundo torto precisa de uma coisa para sustentá-lo. A propriedade privada (dos meios de produção) é o pressuposto, tanto real, material, quanto ideológico para que esse mundo se “expresse”, (sobre)viva, respire…

       A estrutura político-partidária é o pé do gigante, afinal, é ela que gerencia o sistema de apropriação privado. Temos um conjunto de partidos que nada são além de um bando de siglas vazias de projetos político, partidos fisiologistas que fazem alianças espúrias fazendo qualquer leninista de plantão ficar de cabelos em pé – quando falamos que a tática política admite flexibilidade, ora, cara pálida, flexibilidade é uma coisa, abrir mão de sua verdade é outra bem mais embaixo – tenho, para mim, que não violo minha consciência.

       A planta-baixa desse mundo, a política prática, não que precise, mas se alimenta de algo que a deixa vigorosa: a corrupção. Digo que se alimenta porque a corrupção é não um fim, e sim um meio do qual a política sempre se utilizou e sempre se utilizará para atuar; o problema maior não é ela existir – a corrupção, uma forma fenomênica da mentira (necessária para a harmonia social, fale com qualquer sociólogo sobre a mentira) – e sim [o problema] é ela [a corrupção] sofrer a inversão fetichista entre meios e fins. Quando ela passa de meio e se torna um fim último da política, tal qual o é hoje no Brasil, percebemos que houve a completa subversão de toda forma de atuação da vida pública. Ou seja, o mundo “verdadeiramente humano” foi negado aos homens, está na hora de negarmos essa negação!

       Por isso eu digo: ou subvertemos a lógica desse mundo, o sentido que o faz andar ou teremos de nos subjugar a uma sociedade fracassada e, como gosto de dizer, doente. Falei acima da perspectiva revolucionária, adoto-a em contraposição à reforma dessa sociedade. Reformismo é, a meu ver, dar remédios a um doente, curando-o do atual problema e dando-lhe sobrevida para poder adoecer de algo mais letal num futuro próximo. Ou seja, superamos radicalmente (e radicalmente é o termo que assumo. Radical, do latim é ir à raiz do problema) esse mundo ou precisaremos aceitar que a política seja feita com corrupção, por exemplo. Sendo este apenas um momento no qual a sociedade doente se expressa.

       Não cito os casos corriqueiros de corrupção, como furar fila ou roubar a vaga de idosos porque, de novo, são dialeticamente construídos e construtores dessa sociedade, de um lado, é ela (a sociedade) que molda algumas de nossas características, de outro, construímo-la à nossa imagem e semelhança.

       Como indicativo – dado o cenário apocalíptico da atual conjuntura e forma de organização social do mundo – precisamos mudar o mundo. Aqueles, cujas ideias de mudança batem, colam e têm reverberação no interior mais profundo de cada indivíduo devem se movimentar coletivamente; como dizia Rosa Luxemburgo, “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. A indignação é a semeadeira do mundo novo. O mundo velho é o parteiro do mundo novo – em suas contradições e dificuldades estão as respostas aos problemas engendrados pela própria arquitetônica social atual. Portanto, que da indignação se forme o movimento, porque só dele, só da prática política e da percepção através da atuação coletiva política é que perceberemos quais são as reais correntes que nos prendem. Que tenhamos clareza dos limites históricos do mundo vigente, que consigamos vislumbrar perspectivas reais de superação da atual ordem das coisas, que consigamos ver que, apesar de a utopia se colocar no horizonte e se movimentar ao passo que vamos em sua direção, que apesar de não alcançámo-la, ela nos faz nunca deixar de caminhar…

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