Uma interpretação crítica do debate marxista da transição do feudalismo ao capitalismo e da Revolução Industrial

Em minha aula de História Econômica Geral I, ministrada pelo Professor Doutor Alexandre Saes na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA USP) foi proposto que fizéssemos uma resenha com base em posições acerca da transição do Feudalismo para o Capitalismo. Fiz questão de pegar Dobb e Sweezy para tentar avançar no debate. Além disso, houve uma segunda resenha sobre o debate da Revolução Industrial

O resultado está nos textos abaixo;

OBS: este texto, conjuntamente com outro, sobre a Iª Revolução Industrial deram ensejo para um artigo que traz a ambos os textos anteriores uma superação teórica e uma aproximação diferente ao tema, instrumental teórico mais desenvolvido e maior densidade metodológica.

O artigo se chama Crise e superação – o movimento dialético de emergência do capital e foi apresentado na IV Conferência Internacional de História Econômica & VI Encontro de Pós-Graduação em História Econômica


Uma interpretação crítica do debate marxista da transição

          O presente trabalho tem o intuito de chocar as posições de Maurice Dobb e Paul Sweezy sobre o entendimento da transição entre o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista. Para fazê-lo é preciso notar que há uma dialética entre forma e conteúdo, na qual existe uma relação de complementariedade e autodeterminação reflexiva entre esses dois momentos. Cada conteúdo pressupõe uma forma e cada forma é forma de um conteúdo específico. A saber, o conteúdo Materialismo Histórico é dado, aqui, como correto, porém sua forma de tratamento e aplicação à realidade concreta é que será nosso ponto de crítica.

          Iniciamos dizendo que o Materialismo Histórico é uma metodologia marxista para entender o avanço dos arranjos sociais historicamente datados, ou como alguns preferem a Teoria da História marxista. Esta metodologia é notadamente um modo de entender a complexidade dos determinantes históricos sem reduzi-los a explicações deterministas ou economicistas dado que é parte integrante do método a leitura e entendimento dialético do processo histórico. A principal tipologia que deriva desta metodologia é a dos Modos de Produção – modos determinados de vida que podem ser categorizados por cinco vetores da base econômica: 1) Divisão do trabalho; 2) Desenvolvimento das forças produtivas; 3) Intercâmbio interno e externo 4) Modos de exploração do trabalho; 5) Formas de propriedade. Esses vetores são os que caracterizam cada recorte histórico, porém, para poder trabalhar a transição Marx percebe que as determinações econômicas não esgotam o processo; a transição se dá no campo político e não econômico; completa, assim, seu Materialismo Histórico – determinantes relacionados à forma de produção material da vida – com a teoria da Luta de Classes, ou seja, a relação política entra em cena como determinante última na transição dos modos de produção. Elevadas ao extremo, as contradições imanentes à estrutura da sociedade geram conflitos sociais de luta entre classes antagônicas. Há uma superação dialética da realidade e a síntese do processo é a instalação de uma nova realidade social que traz a realidade anterior negada, conservada e elevada em qualidade.

          Sweezy e Dobb partem da metodologia marxista e, cabe aqui dizer que suas formas de análise não são excludentes; são o que podemos chamar de paralaxe, fenômeno físico sobre o movimento aparente dos objetos mediante o deslocamento do observador. Ambos trabalham com a mesma matéria-prima, a história, mas se colocam em perspectivas distintas. Dobb entende que olhar para as contradições feudais internas encerra o entendimento da transição, enquanto Sweezy percebe que há uma influência externa que deve ser levada em conta. Quando dizemos que não são excludentes é pelo fato de que, dados os vetores do método usado, Dobb se centra mais no 4º vetor para mostrar que a superexploração dos servos os levou a saírem dos feudos, sendo, portanto, o agente transformador. O enfoque de Sweezy está mais nos determinantes 2 e 3, uma leitura de como a infraestrutura se desenvolve tanto internamente quanto no trato com outros países; portanto, a influência de uma sociedade produtora de valores de troca o determinante em última instância da transição.

          O que devemos ressaltar é que, apesar de os vetores econômicos caracterizarem esse modo de vida determinado, e ser a política o campo onde a transição efetivamente ocorre, nenhum dos determinantes é posto, dado, imutável ou construído autonomamente. Há que se fazer o trato dialético deste processo. Há uma relação de construção sempre constante na sociedade – o devir. Quando uma realidade surge, traz, em seu seio, sua negação em potencial – que se apresentará mediante as contradições internas do processo. Portanto, o comércio [como fator desagregador] não nasceu apenas fora do seio do modo de produção feudal, nem seu contato per se desmanchou o feudalismo; esse comércio é engendrado pelo próprio limite de desenvolvimento das forças produtivas feudais.  Mais que isso, comércio é uma realidade do próprio desenvolvimento social do homem. As famosas “robinsonadas” são apenas construções mentais descoladas da realidade concreta, o homem é um ser social e a troca (não só material) é uma necessidade imanente à vida humana.

          Já que o comércio não será o determinante que de fato desagregará o modo de produção feudal, seria, então, a fuga dos servos? Em parte sim, em parte não. Dobb acerta no que, mas erra no como. De fato o servo será o ator social da transição, porém, não apenas  pela fuga decorrente de sua exploração e sim por assumir o papel de agente transformador da sociedade. O modo feudal não pressupunha a liberdade, todas as relações jurídicas, políticas, emanavam de uma arquitetura social nascida em direitos consuetudinários e numa sociedade estratificada. O imobilismo social era uma realidade posta, portanto, o processo de saída dos feudos, bem como as jacqueries são lutas travadas no campo da política. Havia uma tensão e um controle social criados pela classe dominante que determinavam a manutenção da ordem a todo custo – a religião era um desses mecanismos sociais de amenização dos conflitos sociais. Organizar-se e se colocar contra a classe dominante é um ato político, a saída do feudo não é uma fuga e sim um ato político. São atos políticos espontaneístas, mas, são respostas organizadas à realidade objetiva; são atos de emancipação frente às contradições internas engendradas pela estrutura social das classes.

          Por fim, não podemos deixar de pontuar que o processo não acontece nem somente dentro dos limites do modo de produção feudal, nem somente fora dele. Há, novamente, uma relação dialética em que cada parte que se investiga faz parte de um todo. Olhar, pois, contradições internas sem olhar a realidade e influência externa, bem como, olhar a influência externa sem olhar a tensão interna são falhas metodológicas de aplicação do método escolhido.

          Avançamos no entendimento da transição mostrando que, de fato, o servo é ator da transição, mas entendendo o sentido de ação política dado ao processo de revolta, fuga e emancipação dessa classe camponesa.


A Revolução como superação dialética

 

O ponto a ser abordado por este trabalho é a Revolução Industrial. Neste estudo, nos ateremos aos anos entre 1700 e 1870, na Inglaterra. Naquele período, modificações nas formas de produção material da vida conduziram a uma modificação estrutural na sociedade; a mudança na esfera da produção material modificou a estrutura de classes e a própria sociabilidade entre os homens, a lógica produtiva da economia, e a forma da acumulação. Ou seja, são mudanças marcantes que servirão para apontar qual será o sentido do mundo capitalista tal qual conhecemos hoje.

A grande discussão teórico-metodológica posta é entender se as modificações naquela sociedade foram longos e contínuos processos evolutivos ou, revoluções.

A proposta de leitura é a partir do instrumental teórico analítico do Materialismo Histórico e dialético. Para isso, é necessário pontuar que, entender uma pretensa dicotomia entre processo e Revolução é, antes de tudo, descrever a Revolução. Descrever, aqui, será tomado como distinto de definir, que é tarefa da ciência positiva (dita Economia vulgar por Marx). E essa distinção se dá exatamente pelo método utilizado por Marx, como ficará claro na discussão que se segue.

Portanto, a proposta categorial de Revolução merece um tratamento especial. Os autores que, preponderantemente, assumem tal visão são os marxistas. Nos decurso das teorias científicas, como a Economia (vulgar, positiva, não Economia Política), por exemplo, é comum se entender um conceito por sua definição. Na dialética, contudo, não há definições porque não existem coisas para ela [dialética]. Existe, apenas, movimento, a mudança, processos de desenvolvimento; sua substância é o processo de desenvolvimento histórico. Ou seja, operando dentro do método dialético deve-se descrever algo, e não se definir algo. Um exemplo bastante claro é uma árvore. Ela pode parecer ser aquilo que se vê em determinado instante: tronco, folhas, copa, raiz. Mas a árvore não é isso, ela já existe em potencial, desde semente, até seu desenvolvimento, maturidade e morte. O que se vê no momento não é a árvore e sim uma imagem dela no tempo, porque a árvore é todo o processo. A árvore, então, não é definida como algo, num instante de tempo, e sim descrita como todo o desenvolvimento de um processo de existência – por isso, através dialética, não se pode definir e sim descrever o movimento das coisas.

Voltando para a Economia Política, o que podemos encontrar em Marx, portanto, são descrições dos fatos, dos processos e não definições formais. Marx não define valor, dinheiro, capital e etc. São categorias analíticas descritas por meio dos processos de desenvolvimento em que estão inseridas. Quando o autor diz, por exemplo: “Sabe-se que ouro é dinheiro, sendo, portanto, diretamente permutável com todas as mercadorias.” (Marx, K. 1867, p.216) ele, de fato, não assume, como a lógica formal o faria que o ouro seja dinheiro; entende, sim que o ouro assuma a Forma Dinheiro e o faz porque é um pensador dialético. Por “Forma” deve-se entender a forma das relações sociais: “A conduta meramente atomística dos homens em seu processo de produção social e, portanto, a figura reificada de suas próprias condições de produção, que é independente de seu controle e de sua ação consciente individual, se manifestam inicialmente no fato de que seus produtos de trabalho assumem em geral a forma mercadoria.” (Marx, K. 1867, p. 217). Outra passagem que ilustra o argumento é “A Economia Política analisou, de fato, embora incompletamente, valor e grandeza de valor e o conteúdo oculto nessas formas. Mas nunca chegou a perguntar por que esse conteúdo assume aquela forma, por quê, portanto, o trabalho se representa pelo valor e a medida do trabalho, por meio de sua duração, pela grandeza do valor do produto de trabalho. Fórmulas que não deixam lugar a dúvidas de que pertencem a uma formação social em que o processo de produção domina os homens, e ainda não o homem o processo de produção, são consideradas por sua consciência burguesa uma necessidade natural tão evidente quanto o próprio trabalho produtivo. Por isso, ela trata as Formas pré-burguesas do organismo social de produção como os padres da Igreja as religiões pré-cristãs” (Marx, K. 1867, 205, p. 206). E aqui reside a diferença central entre o método de Marx e o da Economia vulgar. Enquanto os economistas vulgares naturalizam as categorias (e com isso perdem a dimensão histórica delas), Marx mostra que todas elas [categorias] são historicamente datadas porque são produto de um modo determinado de vida; que é, também, historicamente datado.

Esse, portanto, é o caminho metodológico apontado pela dialética: descrições dos processos, (a ideia do movimento) e não definições formais – e processos historicamente datados, como mostrado acima. Mas como fazer a descrição? Para poder descrever a Revolução Industrial a partir de Marx é preciso entender como seu método opera.

No processo descritivo marxiano o caminho correto é sempre seguir do real, concreto, para o abstrato. Porque, por este método a volta ao concreto, agora, é uma volta ressignificada.

“A população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço, etc., não é nada. Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples. Chegados a este ponto, teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso, até dar de novo com a população, mas desta vez não com uma representação caótica de um todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas.” (Marx, K. 1859 p.14).

Neste caminho metodológico não se pode perder a noção de totalidade, uma das questões centrais da dialética marxista. Cada parte que se investiga é parte de um todo; porém, a totalidade é mais do que a simples soma das partes que a compõe, a realidade, o concreto, é concreto porque é a síntese de muitas determinações.

“O último método [dialético] é manifestamente o método cientificamente exato. O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também, da intuição e da representação. (…) as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento.” (Marx, K. 1859 p.14)

Para o debate sobre a Revolução Industrial é preciso entender, antes, o que é a categoria Revolução. Porém, a partir do método exposto, devemos partir do concreto para depois chegar ao abstrato; dentro dele não há como se definir Revolução e sim como descrever um processo concreto de desenvolvimento histórico – é aqui o entendimento irá diferir do senso comum, que desloca a ideia de Revolução como uma ruptura abrupta, instantânea e auto referenciada em si mesma. Esse senso comum definiria a Revolução algo como uma “explosão” que surge sem nenhuma condição prévia e modifica toda a sociedade. Através do Materialismo Histórico e dialético, a Revolução tem como pressuposto um processo, mais ainda, ela é um processo constante; este processo, no registro marxista, se expressará no momento limítrofe de rearticulação da sociedade a partir do desenvolvimento das forças produtivas e suas respectivas relações de produção e das contradições imanentes à arquitetônica social existente – levando, com isso, a modificações qualitativas na lógica produtiva que engendram modificações em toda a sociedade. Este, porém, é o ponto de chegada desse estudo. Para construí-lo precisamos entender, primeiramente, o desenvolvimento do concreto.

Valendo-se das leituras de Paul Mantoux e Eric Hobsbawm, ambos marxistas, entender o processo que se chama Revolução Industrial é entender o processo de modificação das formas de produção material da vida. O início de todo entendimento passa, necessariamente, por saber que, após o declínio feudal, houve um momento de transição para o modo de produção capitalista. Dentro do modo de produção feudal, os servos, ao produzirem, tinham a co-posse da terra e eram donos dos meios de produção mais imediatos (ferramentas para trabalho na terra). Porém, o processo histórico de desenvolvimento feudal colocou alguns limites (imanentes ao modo de produção feudal) àquela forma de acumulação devido à ineficiência do feudalismo frente à necessidade crescente de acúmulo de renda por parte da classe dominante. A fonte da qual a classe dominante extraía sua renda, obviamente, advinha da exploração sobre o produtor [servo], mais especificamente sobre o tempo de trabalho excedente da classe servil. Vale lembrar que o baixo nível da técnica não colocava muitas perspectivas de ampliação da produção, portanto, para aumentar sua renda, o senhor forçava o servo a diminuir o tempo de trabalho em sua própria terra – assim, levando-o à sobrecarga de trabalho em quantidades desumanas ou levando-o a diminuir suas necessidades, forçando-o a aceitar níveis de subsistência baixíssimos. Maurice Dobb[1] é quem constrói o argumento que mostra a necessidade de aumento de renda por parte da classe dominante decorrente de alguns fatores, i) Subenfeudação; ii) Crescimento natural das famílias de nobres; iii) Guerras e banditismo; iv) Compra de Bens de Luxo pela nobreza. Os servos, então, após suas revoltas e fugas estabeleceram-se nas cidades e a partir deles começa a se formar a classe burguesa, ainda em nascimento. “Dos servos da Idade Média nasceram os moradores dos primeiros burgos; desta população municipal saíram os primeiros elementos da burguesia. (…) A organização feudal da indústria, em que esta era circunscrita a corporações fechadas, já não satisfazia as necessidades que cresciam com a abertura de novos mercados. A manufatura a substituiu.” (Marx, K. 1848, 41; o grifo é meu). Portanto, o processo de transição entre o modo de produção feudal e o capitalismo é um interregno em que o antigo servo acaba por se tornar um artesão. O servo, apesar de subordinado ao senhor feudal, ainda detinha a posse dos meios de produção. Nas cidades, a produção executada pelos artesãos mantém esse caráter, de posse dos meios de produção, portanto, não há ruptura lógica posta para a classe produtora, o que causaria dificuldades de reconhecimento social do servo em produzir de forma artesanal alguns produtos.

Porém, com o desenvolvimento do mercado interno a produção individual não mais dá conta de todas as necessidades de troca e, o artesanato sai de cena para dar lugar à manufatura. Durante o processo de transição do artesanato para a manufatura, aquele antigo produtor direto, dono dos meios de produção começa a sumir, dando lugar a uma mínima divisão social do trabalho; um artesão (mestre) empregará, na Oficina, outros artesãos (companheiros). O primeiro, agora proprietário dos meios de produção, empregará, em troca de um salário outros produtores. O argumento de consolidação do mercado interno necessita de um pressuposto ainda não explicitado: os cercamentos. A população do campo foi expulsa de suas terras porque estas foram cercadas. Os lotes de terra viraram propriedade privada e inseriram, de vez, a lógica da apropriação privada na sociedade em transição.

Outro ponto importante na lógica da modificação da produção material é que o Estado inglês tinha uma orientação diferente dos demais. Desde os tempos do Absolutismo, uma burguesia ascendente, que já havia “enforcado seus reis” ocupava seu espaço no jogo político e, no limite, sobredeterminava o Estado por seus interesses. Em sua política econômica Mercantilista a Inglaterra teve um papel diferenciado em relação aos outros países. Diferentemente da França colbertista que defendia uma indústria específica (bens de luxo), os ingleses defendiam a ideia de lucro através da manutenção de uma balança comercial favorável. E é aqui se apresenta a necessidade de consolidação do mercado externo, afinal, o mercado interno não é o foco da orientação econômica do Estado, que visava uma balança comercial superavitária, portanto, exportações [consolidação do mercado externo] estavam no seio da política econômica inglesa.

E qual, portanto, era o produto a ser exportado? Algodão. E será ele o personagem principal da Revolução Industrial. O algodão dará o “tom” da transformação revolucionária neste contexto. Em linhas gerais, o processo de produção do algodão se resumia a três momentos específicos: cardar, fiar, tecer. O gargalo aparecia no segundo momento, em fiar o algodão. O processo de cardar era relativamente simples. Entretanto, com as rocas de fiar não se conseguia fazer muitos fusos, havia muito algodão para fiar e, após os fusos prontos, era necessário tecer os tecidos. Ou os fusos acabavam rápido demais, antes de completar um único tecido ou eram insuficientes para o ritmo de trabalho dos tecelões. Ou seja, havia um claro gargalo na fiação. As inovações revolucionárias que aparecerão serão para balancear a fiação e a tecelagem, a saber: o “filatório” (spinning Jenny), de 1760, que permitia o artesão trabalhar com vários fios de uma vez; o tear movido a força hidráulica (water frame), de 1768, que trazia a ideia de fiar com uma combinação de fusos; por fim, a “mula” (spinning mule), em meados de 1780, que era a fusão dos dois anteriores. Ao lado das grandes invenções e inovações no campo da indústria têxtil, surgiu outra grande invenção: a máquina a vapor, de James Watt, em 1763.

É exatamente a combinação da melhoria na produção da indústria têxtil com a possibilidade da interação dela e das máquinas movidas pela energia do vapor que mudará todo o sentido da indústria nos anos subsequentes de desenvolvimento do capitalismo. Este é o ponto, as modificações nas formas de produção material da vida, no caso, do algodão, deram o tom de toda a forma da industrialização que se seguiu. A energia a vapor, primeiramente utilizada na produção de algodão, foi estendida para diversos outros setores produtivos e, no limite, serviu de integração territorial e urbana através das locomotivas a vapor e ferrovias, na segunda fase da Revolução Industrial (1820 – 1850).

Esta segunda fase será caracterizada por uma crescente industrialização mundial em que a concorrência com outros países fez com que a Inglaterra, ao invés de exportar produtos têxteis passasse a exportar bens de capital – máquinas. Ou seja, aquele país que fora o primeiro a modificar sua base produtiva, indiretamente, pela venda de máquinas, dava condições a criação de concorrência externa por parte de outros países. A justificativa para isso é a de que era necessário realizar o capital investido em novas formas de investimento. Durante os anos 1840 e 1860, com a expansão das ferrovias pela Europa, formou-se uma indústria de bens de capital e, exatamente pelo aprofundamento da esfera da produção houve, também, o aprofundamento da cisão da sociedade entre classes – e da organização dos trabalhadores.

Após revisitar a história concreta, faz-se necessário voltar ao abstrato para entender a categoria Revolução. Assim, a ideia de Revolução pode ser descrita através das mudanças vistas no processo de desenvolvimento da produção material, desde o início da manufatura até o momento limítrofe de superação dos limites impostos pelo modelo vigente de produção. É importante dizer que todo processo produtivo é, cedo ou tarde, superado por novas técnicas. A diferença de um processo qualquer com a superação das técnicas da produção de algodão é que este processo levará a uma lógica produtiva nova e engendrará uma nova sociabilidade entre os homens, no limite, uma nova sociedade. O aprofundamento da indústria conduzirá a antiga divisão social entre classes a uma separação radical, criará duas classes antagônicas: Capital e Trabalho.

O processo de superação do gargalo da fiação se deu por um processo dialético de passagem das mudanças quantitativas em qualitativas – o número de fusos, antes reduzido, aumentou pela criação de novas máquinas (modificação quantitativa) e, no limite, o processo de aumento dos fusos articulou a máquina a vapor e a lógica produtiva em larga escala da grande indústria, que se apresenta como modificação qualitativa no caráter da produção – antes feita em uma pequena oficina, passará a ser feita numa fábrica; antes produzindo produtos têxteis, agora produzindo de bens de capital; antes abastecendo um mercado interno, agora exportando para o mercado externo; antes explorando um conjunto reduzido de artesãos, agora explorando o proletariado.

A Revolução, portanto, precisa ser entendida dentro desse processo de superação das formas de produção, ela é, acima de tudo, uma categoria inscrita em um processo. Que processo foi esse? Foi o processo de limitação material da produção do algodão descrito – e não definido – acima.

Quer dizer, a Revolução, enquanto categoria, nada mais é, do que um momento de superação dialética. Em alemão, superação é um verbo [aufheben] que tem o sentido de suspender – que, em alemão, toma três acepções distintas. 1) levantar, sustentar, erguer; 2) anular, abolir, destruir, revogar, cancelar, suspender, superar; 3) conservar, poupar, preservar. O trabalho e seu produto talvez expliquem bem isso: a matéria-prima é “negada”, sua forma natural é destruída, mas ainda se conserva algo que assumirá uma forma modificada, nova, “elevada” em seu valor.

A superação dialética é, pois, a “negação” e consequente “conservação”, seguidas de “elevação“ daquilo a que se está observando. Portanto, a Revolução Industrial foi um processo que operou uma superação dialética, em quatro sentidos:

Do antigo modelo manufatureiro de produção para a nova sociedade industrial,

  1. A antiga esfera da produção: foi negada porque a produção precisava ser aumentada; foi conservada porque manteve uma estrutura de exploração do trabalho alheio; foi elevada porque as antigas oficinas viraram fábricas;
  2. A estrutura de classes: foi negada a antiga estrutura entre mestre e companheiro; foi conservada porque se manteve a estrutura entre opressor e oprimido[2]; foi elevada no sentido de que a contradição é agora entre uma classe que é dona dos meios de produção e outra que nada tem além de sua força de trabalho para vender, burguesia e proletariado, respectivamente;
  • A lógica produtiva: foi negada a produção estritamente para o mercado interno; foi conservada a produção de não-valores de uso para os que produzem; foi elevada porque o sentido de produção é de produção de mercadorias (Forma Mercadoria[3])
  1. Forma de Acumulação: foi negada a forma de acumulação como Acumulação Primitiva; foi conservada a acumulação mediante extração do sobretrabalho; foi elevada porque o sentido da acumulação é, agora, dado pelo mercado; uma efetiva Acumulação Capitalista;

 

Com essa síntese mostramos que a ideia de Revolução não é um estopim, uma faísca nem, muito menos, uma explosão espontânea. É, pelo contrário, um processo de luta entre os polos contraditórios da realidade concreta. No seio de cada realidade nasce, em potencial, sua negação, sua antítese. E, neste processo, de luta entre a produção de algodão e sua negação, a “não produção” (mediante limites técnicos), houve a superação dialética dos limites concretos e consequente rearticulação da sociedade entre classes novas e com uma lógica distinta; que suplantou, de vez, a antiga lógica feudal inaugurando o modo de produção capitalista.

[1] Maurice Dobb in. “A Evolução Do Capitalismo

[2] “A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito.” (Marx, K. 1848 p.40)

[3] “Mas isso só é possível numa sociedade na qual a forma mercadoria é a forma geral do produto de trabalho, por conseguinte também a relação das pessoas umas com as outras enquanto possuidoras de mercadorias é a relação social dominante.” (Marx, K. 1867, p. 187). A mercadoria é a unidade dialética entre valor e valor de uso.

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Uma resposta em “Uma interpretação crítica do debate marxista da transição do feudalismo ao capitalismo e da Revolução Industrial

  1. Juga que o fator fundamental foi ” ação política dado ao processo de revolta, fuga e emancipação dessa classe camponesa.”, não condiz já que tendo em vista a estrutura feudal os servos não deixariam o Feudo sem ter para onde ir, sendo que os que viviam fora do feudo era considerado a escoria social, os servos estavam digamos q privilegiados em relação a essa classe.
    O Desenvolvimento da cidades através do comércio teve mais significativa importância, já que ofertava os servos uma nova perspectiva de vida, a demanda pela força de trabalho e as novas relações sociais que começavam a se desenvolver nos centros urbanos em formação era uma perfeita solução entre a exploração Feudal e até então escoria social dos que eram expulsos do feudo.

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