Dialética do Amor

Bom mesmo não é dormir com ela, é saber que poderá tê-la ao acordar. Plenitude é saber que cada beijo dado será correspondido com três de volta – sem contar os inúmeros abraços.

Mãos de corpos distintos que entrelaçam os dedos para construírem, de duas, uma única história; com um denominador comum, o amor. Aliás, e o amor? Fogo que arde… Não, não. O amor é muito além de um sentimento. Nunca ninguém sabe se o viveu de fato, ninguém o conhece, ele não é definível, ele não é um estado posto – é mais que isso, é um processo.

Ninguém viu “o amor” passando na rua como uma entidade. Ele é algo nosso com nós mesmos – mas que é refletido pelo outro. É um sentimento que surge em mim, reflete em ti e volta pra mim, autoconstruído e moldado pela interação contigo.

Ele é, pois, dialeticamente constituído, tanto pela relação de superação do antigo sentimento de solidão – condição e premissa para o amor – quanto pelo resquício de estados antigos, como a saudade que se manifesta como a ausência da presença do amor, sua antítese. E é dialético porque a existência do amor enquanto tal é a unidade desses momentos (presença e ausência), também pelo fato de na contradição encontrar-se a raiz desse movimento. O amor é contraditório e só pode ser compreendido em toda sua plenitude se essas contradições forem percebidas como fundantes desse processo.

Como diz Henri Lefebvre em “Lógica Formal e Lógica Dialética”, quando fala da sétima regra do método dialético:

Não esquecer que o processo de aprofundamento do conhecimento – que vai do fenômeno à essência e da essência menos profunda a mais profunda – é infinito. Jamais estar satisfeito com o obtido. “Naquilo com que um espírito se satisfaz, mede-se a grandeza de sua perda”(Hegel), Pensamento admirável, ao qual objetaríamos, todavia, que apenas um “espírito” se satisfaz; e que um homem digno desse nome não conhece nem a satisfação nem a vã inquietação e a angustia dos “espíritos”;

O amor, portanto, é uma construção dialética, e aqui, cabe um aviso: essa afirmativa é totalmente infundada, afinal, a dialética é, segundo Marx, o processo de descrição exata do real – ou seja, descrição objetiva, do real e concreto – já o amor, subjetivo e imaterial. Mas, como eu justifico o entendimento dialético do amor, então?

Quem nunca chorou, sentiu aperto no peito e qualquer manifestação (fenômeno) física em consequência desse sentimento (essência)?

Gotas quentes e salgadas escorrendo dos olhos, rasgando o rosto com um sentimento intrinsecamente colocado, de alguma forma, dentro do peito e que embota a garganta, amortece a alma e eriça os pelos.

O processo de manifestação é material, portanto, há espaço para se pensar a construção desse sentimento, saindo da aparência dele e entrando em sua essência, achamos uma tese (o amor), uma antítese (a saudade, o “não amor enquanto há amor” ) e a síntese desse processo é a renovação do ser que, antes vazio e desprovido de sentido, agora ganha norte, rumo, estrada e descobre que há mais do que o que os belos olhos alcançam, ou seja, seu caminhar ganha outro par de mãos para ir em conjunto…

Bruno Miller Theodosio

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