Problemas de Política, não de Polícia!

Aviso aos navegantes: esse texto, nitidamente adota uma perspectiva; aqui, no caso, adoto uma perspectiva de classe!

A imagem da PM reprimindo os movimentos sociais é recorrente. Em 2011 houve a desocupação da Reitoria da USP, a retirada dos doentes na Cracolândia, a desocupação da área do Pinheirinho em São José dos Campos. Em 2012 encontramos a desocupação de uma Moradia Estudantil na USP e, tendencialmente, encontraremos muitos outros problemas vindouros.

Sobre moradia, a questão é simples. Hoje, quem tem dinheiro tem onde morar, quem não tem, subordina-se às formas escusas – ou nem tanto, como veremos – na lógica do mercado, para encontrar moradia. Muitos são obrigados, pelo imperativo da sobrevivência, a ocuparem espaços até então desocupados – o que é, inclusive, recebido muito bem mediante nossa Constituição Federal que regula a propriedade privada extraindo dela uma Função Social.

Porém, em nome da especulação imobiliária contingentes de pessoas vilipendiadas de seus direitos mais básicos são arrancadas de suas moradias, que, ou construíram com o suor de seu trabalho sem apoio governamental (Pinheirinho) ou que ocuparam espaços que comportariam famílias e mais famílias, porém, hoje, encontram-se vazio (caso do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto – MTST).

É latente perceber que, quando o poder econômico se sobrepõe às necessidades daqueles que não têm condições de brigar juridicamente pelas suas áreas resta, apenas resistência física como forma de manutenção de seus direitos. Quando aqueles moradores do Pinheirinho foram amassados por manobras jurídicas restou apenas a organização coletiva como forma de resistência. A forma como foi feita essa resistência, entretanto, é passível de muitas críticas, pois quando a PM chega e se depara com um grupo de pessoas vestidas caricatamente como um exército o ímpeto dos policiais é entender o outro como uma exército inimigo, portanto, uma batalha campal de vida ou morte está potencialmente colocada como lógica de solução do problema. Essa é a lógica militar!

Mesmo sem nenhuma força organizada de resistência o Estado, exercendo seu legítimo Monopólio da Violência, se utiliza das forças coercitivas para “jogar a poeira para o canto oposto da sala” (aos moldes do tratamento aos dependentes químicos/doentes da Cracolândia que foram tratados como criminosos, espalhados pela cidade vagando em busca de nada).

O ponto central é a crítica que é denominador comum, em todos esses casos, do chamado processo de Militarização do Espaço Público, no qual problemas sociais são tratados como problemas de polícia, ou seja, substitui-se a POLÍTICA pela POLÍCIA. Em São Paulo, esse processo é acompanhado por medidas higienistas no centro e pela Gentrificação das áreas comuns dessa cidade.

Por sinal, o Estado de São Paulo tem feito isso muito bem. Na figura do PSDB, todos os últimos casos passíveis de implementação de algum tipo de política pública foram respondidos com a saída mais fácil, performática, espetacular, midiática – um aparato policia exercendo seu poder de manutenção da ordem vigente e do status quo.

Quando surgiu o problema na USP a questão era que os alunos se mostravam indignados com a forma com que a PM estava agindo dentro da Universidade – entrada de policiais em bibliotecas, em Centros Acadêmicos, falta de identificação na ação na FFLCH – e não reivindicando o uso de drogas no campus. Qual a resposta? Numa manhã, 400 homens, helicópteros e um aparato de guerra para retirar 73 estudantes que, legitimamente, ocupavam um prédio público! Veja bem a forma(ocupação de um prédio público) é legítima; não estou aqui fazendo juízo de valor sobre as pautas colocadas pelo Movimento Estudantil após a ocupação nem, tampouco, sobra a forma como foi conduzido o processo nem as medidas tomadas!

Na Cracolândia, quando aqueles flagelos humanos impediam as madames de passearem com seus carros blindados pela Luz e travavam a implementação de um projeto arquitetônico para transformação da área em um bulevar luxuoso qual foi a medida? Polícia queimando os pertences de pessoas que nem mais sabiam que são gente, que deveriam ser tratados por médicos e não expulsas da rua por cassetetes e bombas de gás e internadas em manicômios.

Já no Pinheirinho, bem, um bandido – declarado assim pela Polícia Federal na famosa operação Satiagraha, acusado de lavagem de dinheiro e corrupção – procurado em diversos países, responsável pela quebra da Bolsa do RJ e dono de uma massa falida que não mais devia direitos trabalhistas… Simplesmente as canetadas do governo do Estado de SP, na figura de Sr. Geraldo “Bom Prato” Alckmin e Ivan Sartori, Presidente do TJ-SP (além do Capez, do Prefeito de SJC, da Juíza e outras figuras importantes) perpetraram o ato de condenar 6 mil pessoas à miséria enterrando, junto às casas, a esperança de uma vida. Nem seus pertences puderam ser retirados de lá antes da demolição – detalhe, a primeira coisa a ser demolida foi uma Igreja, ou seja, uma forma simbólica de quebrar os vínculos subjetivos daquelas pessoas envergando a coluna delas e mostrando que aquele locus de convívio social não mais fazia parte da geografia do local.

Para acabar, retomo uma frase de um antigo Presidente deste país, Washington Luís, deposto por Getúlio Vargas que dizia: “Questão social é questão de polícia“.

Não, questão social não é questão de políCia e sim de políTica!

Falta vontade política dos que estão no poder e, falta mais ainda, vontade de a população se apoderar dos problemas dela mesma. No limite, o que temos é um povo que não acredita no poder instituído, mas também duvida da possibilidade das mudanças.  [Copiando Slavoj Žižek “é a Ideologia, estúpido!”]

O povo é um povo pacificado, não pacífico, é um povo amansado, não manso e, por isso, sonho pela emancipação; sonho por ver dias nos quais as ideias voltem a ser perigosas, afinal, não há prática revolucionária sem teoria revolucionária!

Uma resposta em “Problemas de Política, não de Polícia!

  1. Teu post é diferenciado, cara. Esquecemos, por vezes, que a questão é muito mais estrutural do que apenas violência policial. O problema é, sim, de política.

    Mandou bem.

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