Formas de consciência e reconhecimento social

As pessoas costumam usar a internet bêbadas ou elas realmente pensam esse bando de baboseiras? A vida delas, pelo menos a exposta nas redes sociais é um amontoado de amenidades e futilidades recheadas de senso comum. Por que isso?

Meu avô sempre brinca: você que escolhe quem você quer ser no filme que é a sua vida, você pode ser coadjuvante, figurante, ou o artista principal. A título de análise eu pego isso e aprofundo.

Primeiramente, é necessário pontuar que para que as pessoas possam escolher serem as artistas principais de sua vida existem duas condições necessárias: coragem para tomar decisões e responsabilidade para arcar com suas consequências.

Ser, portanto, o ator principal na sua vida pressupõe que as escolhas estejam colocadas como possibilidades – como uma árvore que deriva em seus galhos novos caminhos e cada atitude tomada levará a pessoa a novos nós e entroncamentos distintos.  Se o indivíduo optar por tomar as rédeas de sua vida ela perceberá que não existe sorte ou azar, não existe acaso e nem predestinação (divina ou não); existe apenas o resultado de suas escolhas – é a “esfera das consequências”. Como você se torna o direcionador das escolhas, cada um dos resultados é produto dessas suas atitudes. Isso, no entanto, assusta a grande maioria das pessoas, tomar o controle quer dizer também arcar e se culpar pelo êxito, mas também pelo fracasso e… as pessoas não estão preparadas para se responsabilizarem pelos seus atos.  Não somente não estão preparadas como se sentem perdidas e desamparadas quando vão entender o mundo, afinal, ele tem um duplo nível de reconhecimento social:

O mundo é, ao mesmo tempo, Reconhecível e Irreconhecível. São categorias organizadas por mim sem nenhum grau de elaboração ou filiação teórica.

Irreconhecível porque podemos efetivamente nos libertar dos grilhões da vida imposta, nos alforriar do mundo fictício e nos perceber enquanto agentes transformadores de nossa realidade social. Ele se torna irreconhecível porque na arquitetônica desta sociedade, nós, os homens, não conseguimos mais nos “apoderar” do mundo. Perdemos a capacidade de nos reconhecermos nos produtos de nosso trabalho.  Não somos donos dos meios de reproduzir o mundo, portanto, perdemos o reconhecimento de nossa humanidade posta nos objetos produzidos por nós.

Hegel, autor de grande influência na Alemanha, chamava o processo de produzir algo e “depositar sua humanidade” naquele algo como um processo de alienação; alienação (colocação, transferência) de sua humanidade no objeto. Após a produção da coisa o ser opera a “volta a si”, o homem olhava e se reconhecia no objeto, via que foi ele que fez e voltava engrandecido, satisfeito de si mesmo.

Marx, no entanto, subverte a formulação hegeliana mostrando que pelo motivo dos homens não mais serem donos dos meios de produção eles não se reconhecem por inteiro em suas obras.  É o caso dos relatos dos trabalhadores, por exemplo, da construção civil, que erguem paredes para casas que não vão morar, ou para os trabalhadores que produzem produtos que não vão consumir. Eles não se reconhecem no produto de seu trabalho tanto porque não consomem quanto porque não detêm os meios para produzi-los e, isso, Marx chamou, então, de Alienação.

[ É importante pontuar que esta discussão é permeada pelo produto de nosso labor, ou seja, porque há centralidade do trabalho como mecanismo de organizador da vida social. O motivo é que as formas de produção material da vida são determinantes para a criação das formas de consciência dos homens (relação de construção dialética entre a infraestrutura e a super-estrutura). A partir de como se encaixa a forma de se produzir e reproduzir o mundo é que os homens interferem dialeticamente na realidade objetiva; transformados e transformadores, é a partir dessa forma concreta (produção e reprodução da vida) que se dá toda estrutura no plano ideológico dos homens – é desse conjunto de relações objetivas que derivam as relações subjetivas ou a esfera da consciência (política, religião, ideologia etc).

Talvez num último anseio de facilitar a vida do leitor, é a partir da divisão da sociedade entre detentores dos meios de produção X possuidores de apenas sua força viva de trabalho que se estrutura a sociedade. No limite, as formas de consciência derivam (ou deveriam derivar) dessa dicotomia porque é ela que arma toda a sociedade, é ela que encaixa os homens em polos materialmente antagônicos engendrando, assim, formas de consciência distintas (famosa contradição fundante Capital/Trabalho). Por fim, quem quiser se aprofundar nesse tema leia “A Ideologia Alemã” de Marx e Engels onde eles discutem o conceito de Ideologia (defasagem entre as realizações dos homens e a visão que esses têm de suas realizações, ou em uma tradução simples “falsa consciência”) e fundam um novo continente do saber, o Materialismo Histórico e dialético ou o método da dialética materialista].

E é por este distanciamento que os homens têm de suas obras que eles se sentem estranhados, estrangeiros no mundo em que vivem como se falassem uma língua diferente da língua do mundo.  {como não se conhecem nas coisas que produzem, eles vão ao mercado e compram a fim de se reconhecer nas coisas que consomem – e assim deriva-se a formulação teórica de Marx acerca do consumismo que não entrará nesse artigo, mas permeia esse debate}.

Portanto, estamos fadados a não nos reconhecermos nesse mundo? Obviamente que não.

Essa análise foi num nível aprofundado de consciência da realidade (seria interessante elaborar a relação Essência/Aparência e mostrar como o que aparece, nessa sociedade, aparece invertido? Não sei, mas fica pra um próximo texto). Se formos olhar a superfície da sociedade, perceberemos que existem muitos mecanismos de reconhecimento social muito bem amarrados. É aqui que derivamos a formulação Reconhecível de mundo.

Existem segmentos onde essa amarração se dá muito bem por um conjunto de convenções sociais: Religião, trabalho, modelo de vida familiar, matrimonial, monogâmica, auto justificação do trabalho como um fim em si mesmo e etc. É seguro para as pessoas fazerem escolhas sem pensarem a respeito das bases fundantes da vida social; essas ideias sobre como o mundo é já foram formuladas e são enfiadas goela abaixo do conjunto da sociedade. E, no limite, esse bando de amarrações acaba trazendo certo nível de segurança para as pessoas porque são partes dadas, postas da sociedade. São partes em que elas minimamente se reconhecem e suprem a carência daquele momento estrangeiro que existe no interior do metabolismo social. Sem esse mínimo ponto de contato não haveria forma de dar coesão à sociedade, ele é, portanto, importante, mas insuficiente. Os homens não podem deixar de transformar os dogmas sociais postos, mesmo que isso os leve a uma conjuntura de crise de identidade profunda, afinal, modificar inclusive a superficialidade é colocar em xeque todos os mínimos mecanismos de reconhecimento social que existem.

Há outros tantos locais da superfície da sociedade trazem essas amarrações, no entanto, esses supracitados são alguns interessantes porque são aqueles que trazem segurança nas escolhas. E é aqui que eu contraponho a realidade Irreconhecível com a Reconhecível, ou insegura e segura. (essência e aparência)

Será mesmo?

Para terminar… essa própria parte reconhecível do mundo têm de ser questionada. E quando esta empreitada é executada percebe-se que ela não é lá tão reconhecível e segura, afinal, deus é uma criação humana, não explicável e totalmente necessária de fé; centralidade e auto justificação do trabalho arquitetam uma ética própria deste modo de produção capitalista porque o trabalho, que é um meio para se viver se auto justifica e por isso aparece como central na vida dos homens porque passa a ser um fim em si mesmo, aos moldes do que Weber coloca em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” quando ele trata da Ética do Trabalho.

Com isso, quero mostrar que a realidade, na superfície (ou seja, no plano fenomênico), parece trazer segurança, mas no fundo, mostra-se contraditória porque aparece invertida aos olhos dos homens. O interior da sociedade, mais ainda, afinal é totalmente intrincado e estranho aos homens.

Como esperar que as pessoas, que pensam e agem sob uma lógica formal, clássica, consigam atuar se afirmando e fazendo escolhas nesse mundo? A grande maioria das pessoas sabe (será mesmo?) que a realidade é contraditória, mas ao invés dos pensadores dialéticos que não esquecem as contradições e sim as chocam, superam-nas, as pessoas preferem, quando colocadas com a contradição, assumir a impossibilidade de algo ser isso E aquilo, ao mesmo tempo. Nosso mundo ainda é governado pela lógica do OU, onde a contradição não encontra espaço e quando posta, tem de ser deixada de lado e esquecida – impossibilitando compreende-la para transformá-la.

Bruno Miller Theodosio

2 respostas em “Formas de consciência e reconhecimento social

  1. Posto que a sociedade é dividida entre os detentores dos meios de produção x os detentores da força de trabalho, e é dicotômica, fazendo com que tenhamos – em cado extremo – um tipo de consciência, não seria o mundo reconhecível e/ou irreconhecível também dicotômicos? Ou ambos – sociedade dividida e formas de reconhecimento social de mundo – são unidades contraditórias, dialeticamente explicáveis em si?

    Noutras palavras: a incerteza do mundo irreconhecível é reconhecida na pseudo-segurança do mundo reconhecível.

    Vejamos: pessoas, possivelmente, bêbadas postando sobre a Luiza que está (estava) no Canadá, que – talvez ou não – vivam na condição de classe trabalhadora ou de classe opressora, portam o mesmo tipo de reconhecimento do mundo, uma vez que: suas consciências foram metamorfoseadas historicamente e estruturalmente. A burguesia alienou toda forma de vida social. Percebe-se aí, que é necessária a união da realidade com o pensamento crítico, teórico, para a sistematização da origem da opressão. Precisamos opor os contrários para compreender o verdadeiro movimento da realidade.
    Mas, aquele que não teve essa experiência CONCRETA não pode alcançar a plenitude do pensamento crítico à sociedade antagônica. Entende?
    É preciso estar sensível às formas de reprodução da vida social, seja no amor, arte, poesia, etc. para sentir o poder da opressão da vida material deturpada influir na vida espiritual.
    Há esse viés, do conhecimento; e há o viés estritamente materialista, que é a autodestruição da exploração pela própria exploração. Um trabalhador não quer revolução por ideologia. Ele a busca porque dela precisa para viver, cantar, amar…
    O que quero dizer é que: a premissa é a subversão da vida material para que a espiritual se eleve.
    Enquanto a sociedade estiver, forjadamente, dividida entre exploradores e explorados, não haverá liberdade, emancipação…
    É como quando Marx, em Sobre a Questão Judaica, nos diz que os alemães foram pretensiosos em buscarem sua emancipação política. E porquê?
    Porque a liberdade não é possível, material e concretamente, enquanto as contradições não se unificarem (transformarem-se unidade). Não há como existir liberdade se não for em sua forma unívoca. Superando assim, as contradições do pensamento dialético,

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