Balanços e Perspectivas

Texto resposta a um texto do Stedile, liderança do MST.

Balanços e Perspectivas

Concordo com o Stedile.

A atual fase do Capitalismo mundial é o controle da Oferta e da Demanda de trabalho pelo Capital com arrocho salarial de um lado e abertura de linhas de crédito do outro além da Financeirização de todas as esferas da produção.

O desenvolvimento do Capitalismo nos mostra os limites colocados historicamente à acumulação feita sempre a taxas compostas; limites estes que precisam ser transformados em barreiras, sendo, portanto, transponíveis. Foi assim desde a Acumulação Primitiva, passando pela industrialização pesada, Imperialismo do século XIX, depois pela fase de desindustrialização dos países centrais e industrialização dos periféricos (Leste Asiático), pela alta acumulação de capital fictício levando a processos inflacionários em que dinheiro demais perseguia bens de menos e, por isso, o incentivo às privatizações – para que o dinheiro pudesse, efetivamente, se alocar no quantum de bens reais. Sempre que uma fase encontra um limite, ela precisa de algum tipo de manipulação da realidade para tornar este ponto limítrofe em apenas mais uma lombada do grande processo de reinvenção capitalista – e sejamos sinceros, que poder criativo; somente nós, jovens, já presenciamos o CO-laborador (que não co-labora, ele labora mas o lucro fica para o patrão) e o profissional autônomo que supostamente é seu próprio patrão!

O Capital fictício e a Financeirização são, de longe, as coisas que mais precisamos entender mais nos dias de hoje, sabe por quê? Porque cada uma das novas crises no Capitalismo aparece como uma série de contradições engendradas na última saída tomada para a última crise. Portanto, precisamos entender o Neoliberalismo (a última saída para uma crise econômica) – Reagan, Thatcher, Pinochet e as desregulamentações incentivadas pelo Consenso de Washington foram os paradigmas dos anos 90.

Agora meu ponto de contato com o Stedile: Perspectiva de Classe!

De nada adianta uma baita análise das contradições e do movimento político atual se não for se assumir uma perspectiva de classe. Essa perspectiva leva-nos a perceber que a realidade é contraditória e, exatamente por isso precisamos compreendê-la para conseguir superá-la. Caso nos colocássemos numa perspectiva hegemônica as coisas fariam sentido e apenas nos restaria tentar aperfeiçoar uma engrenagem que já vem girando há tempos! Somente a perspectiva de classe pode nos mostrar que os desprovidos dos meios de produção são aqueles colocados pela História no colo da tensão imanente ao Capitalismo, sendo, portanto, sua função a superação dessa realidade.

E o Brasil mais especificamente?

O que foi, então, o último par de governos (Lula)? Uma saída para o Capital. Elevou-se o crédito, colocando muita gente na chamada classe média, puxando um aumento de PIB também pelo consumo(1), mas mantivemos uma taxa de juros altíssima (só é a mais alta do mundo) e aumentamos o lucro líquido dos banqueiros em 400%(2), sendo o aumento real do salário mínimo 54,25%(3).

Na política, um partido que tivera a bandeira vermelha hasteada preferiu alinhar-se às classes dirigentes dos estados governados pelos grandes “coronéis”, vide nosso queridíssimo(sic) Sarney; houve também alinhamento ideológico das altas lideranças aos interesses do Capital, ou alguém nega que seja para amenizar a preocupação dos investidores externos José Alencar, um empresário do ramo têxtil, ser vice de Lula?  Aquela “Carta aos Brasileiros” basicamente dizia “cumpriremos os contratos”, ou seja, honraremos(pagaremos) nossas dívidas!

No saldo final, Lula e Dilma implementaram um grande projeto: desenvolver o Capitalismo brasileiro.  Num perspectiva leninista, o programa é ótimo – afinal, a Revolução deve triunfar no país mais desenvolvido, afinal, somente depois do desenvolvimento amplo das forças produtivas podemos socializar as formas de controle e distribuição da produção; aquela velha fórmula “socialização num país rico é socialização de riqueza, num país pobre, socializa-se miséria e pobreza”. Por essas e outras, esse projeto reformista tem um quê de necessário e colado na realidade, não há nenhuma contradição que esteja exacerbada (todos conseguiram elevar seu consumo, salário real aumentou; direitos trabalhistas, mesmo na crise, respeitados…) para que possamos, em cima dela, construir a plataforma de superação do atual status quo.  A Grécia ou grande parte da Zona do Euro diferem em grande monta; cortes nos direitos dos trabalhadores e desregulamentação ampla nos setores produtivos são contradições bastantes para que as classes trabalhadoras possam conquistar avanços na estrutura da sociedade.

Sobre a burguesia nacional, quem ainda tem ilusões acerca dela, fica um relato histórico: Pegue as formulações dos partidos como o PCB que entendiam (até meados da década de 60) ser esta uma classe potencialmente revolucionária num contexto extremo. Ou seja, dado um projeto internacional Imperialista, a burguesia nacional se aliaria aos interesses dos trabalhadores por entender que assim se protegeriam os interesses nacionais. Então, 1º de abril de 1964, Jango e outros exilados e qual o papel da burguesia nacional? Aliou-se ao interesse do grande capital transnacional, apoiou o projeto de desenvolvimento nacional da Ditadura, porém sem combater o influxo de capital estrangeiro. Vide os acordos MEC-USAID e as formas de dominação ideológica como os institutos IPES e IBAD, projeto financiados pela burguesia nacional para doutrinação da sociedade civil. Ou em pior escala, a OBAN (Operação Bandeirantes) na qual os estadunidenses vinham às matas brasileiras ensinar técnicas de tortura aos militares brasileiros, tudo financiado pelos hoje aclamados grupos nacionais:  Grupo UltragásFordGMGrupo Camargo CorrêaGrupo ObjetivoAmador Aguiar (Bradesco) (4), tendo em Henning Boilesen(5) seu maior expoente.  Qualquer marxista que tenha lido “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” sabe que a pequena-burguesia nada mais é do que uma fração de classe, identificada muito mais com os interesses de classe do que de nação, de território.

Por fim, afinal já me alonguei muito, cabe-nos não incentivar a política do “quanto pior, melhor” esperando que as contradições cheguem ao nível do inaceitável para propor as mudanças. O trabalho político tem de ser diariamente elaborado. Trabalho este que congrega, além do nosso recorte analítico da sociedade (a análise da realidade contraditória e a superação da mesma), a educação, cultura política e fomento à criação da consciência de classe (a dita perspectiva). Isso é importante para que no momento em que a História nos dê a possibilidade de assumirmos nosso papel histórico enquanto agentes transformadores da realidade social saibamos aproveitá-lo para revolucionar as estruturas fundantes dessa sociedade, superando-as em forma, oferecendo-lhes novo conteúdo.

No mais, é interessante nunca perder a perspectiva de que o mundo não é posto, não é dado e que a realidade é dialeticamente modificada a cada momento através da ação coletiva. Cria-se uma realidade, surge também sua negação. Pode, e é árduo, longo, pode ser até que não estejamos mais aqui… Mas essa sociedade que escamoteia os homens em detrimento das coisas não vai mais ter mediação com a realidade concreta da vida.

(1)    PIB = Consumo + Investimento + Gastos do Governo + (Exportação – Importação) , ou seja, ceteris paribus, aumentando-se o Consumo, sobe também o PIB

(2)    Vídeo do PSTU, há no site deles alguns textos onde são mostrados os números, http://www.youtube.com/watch?v=2VELdIaylec&feature=related

(3)    http://www.dieese.org.br/notatecnica/notaTec93salarioMinimo2011.pdf

(4)    http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Bandeirante

(5)    Documentário sobre Boilesen chamado “Cidadão Boilesen” – http://www.youtube.com/watch?v=G-QSD-vU38k

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Texto de referência

UM PROJETO POPULAR PARA O BRASIL

E se pudéssemos fazer um balanço resumido, grosseiro, da situação do Brasil como nação, povo, o que poderíamos concluir nesse final de ano de 2011? Muitos falariam que o povo continuou melhorando de vida, que o desemprego se estabilizou, que as contas nacionais estão sob controle, mas que a desigualdade entre os brasileiros continua crescendo… e estamos em 84º lugar entre todos os países do mundo, em condições de vida. Evidente que em qualquer forma de avaliação encontraríamos pontos positivos, de avanços, e pontos negativos, de retrocessos. Tanto se analisarmos a economia, as condições de vida, a sociedade e a política.
Cumpriu-se o primeiro ano de governo Dilma, que além das substituições forçadas de ministros, seguiu administrando uma política pública que prioriza a intervenção do estado frente ao liberalismo de mercado, mas que na essência não alterou os parâmetros de um modelo dominado pelo capital financeiro e pelas grandes corporações globalizadas.
A turma dos 5% mais ricos da sociedade continua nadando de braçada, e nunca ganharam dinheiro como agora, com suas ações nas empresas, nos bancos e na agricultura.
O capital estrangeiro segue sua ofensiva no controle de nosso mercado, das empresas e, sobretudo agora, dos recursos naturais.
Já a classe trabalhadora brasileira, que é a imensa maioria da sociedade, continua tendo 40 milhões de pessoas dependentes da bolsa familiar para não passar fome, mas teve uma parcela significativa, que melhorou as condições de vida, com aumento da renda e do emprego, comprando mais coisas dentro de casa, porém cada vez mais endividada, embasbacada pelo crédito fácil. Caiu na arapuca do capital financeiro. Compra a crédito sem olhar para as taxas de juros mais altas do mundo, que se apoderam da maior parte da renda dos trabalhadores.
Estamos enfrentando serviços públicos de educação, saúde e transporte cada vez piores.
A política, infelizmente, continua apática, fora da luta real, assistindo apenas na televisão o que os políticos profissionais e seus partidos fazem na política institucional. Ou seja, seguimos um longo período de descenso do movimento de massa, de apatia política das maiorias, e de crise das formas tradicionais de organização da classe trabalhadora.
O que está faltando, então, para nosso país? O que está faltando para nosso país é um projeto de país. Um projeto que enfrente as mazelas do capitalismo, e que se proponha a resolver os problemas da população, como emprego, renda, desigualdade social, acesso ao ensino superior, erradicação do analfabetismo, terra para os camponeses, e melhoria nas condições de vida nas grandes cidades.
E, para isso, será necessário enfrentar o capital financeiro e as empresas transnacionais e reorganizar a economia a favor da maioria.
A burguesia brasileira não tem nenhum interesse, como nos ensinou o saudoso Florestan Fernandes, em desenvolver um projeto de desenvolvimento nacional. Ganha muito dinheiro, acumula, explorando os trabalhadores em associação subordinada ao capital estrangeiro. Por isso, essa missão somente será possível se as forças populares pegarem para si, e construírem uma proposta de interesse do povo brasileiro. Para que em torno dela se possa aglutinar as mais diferentes formas de organização de nosso país, sejam partidos, sindicatos, movimentos populares ou igrejas.
E agora, diante do temporal da crise internacional que se forma no horizonte, será ainda mais urgente trabalharmos nessa direção. Precisamos urgentemente construir um projeto de desenvolvimento popular, para o Brasil.

João Pedro Stedile (membro da coordenação nacional do MST e da Via Campesina Brasil)

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