A Ética da Verdade

Essa música é bela.  Bela porque mostra a ética dos povos negros frente aos desmandos dos colonizadores europeus.

Ela mostra o negro sendo justo com a verdade, mostrando que não fez o que tentam lhe imputar; recorre aos meios de convencimento achando que sua palavra basta. Esbarra na cultura do colonizador europeu que quer castiga-lo fisicamente independente da convicção que o negro assumira em sua argumentação. Ele, então, aceita o papel de submisso, fraco, afinal, o europeu tem as armas e a dominação pode ser feita à força. O escravo, já dominado e percebendo ser impossível demover o europeu de castigá-lo fisicamente, recorre ao mais interior e pessoal dos sentimentos que consegue ver a fim de convencer o branco… diz ele, “juro pelo teu Deus, pelo Teu Senhor, mesmo chorando em iorubá, me converto à tua Fé, se assim for preciso para que acredites em mim“.

O ponto central e atormentador ao negro passa longe apenas da punição, ele tem sim, um verdadeiro compromisso com a veracidade dos fatos, a Ética da Verdade

Numa análise mais de perto:

O negro diz com toda verdade que lhe é pertinente:

“Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem”

É triste notar que o negro se utiliza de Deus Nosso Senhor, se colocando no posto de submisso, culturalmente colonizado, aceitando a posição daquele que o domina apenas para poder se salvar… Inclusive se coloca como fiel, chamando o deus europeu de NOSSO senhor.

E então, tenta de toda forma argumentar contra a iminente injustiça que será a punição física por algo que ele não fez! “Para que, qual o sentido de me machucar, me aleijar, se eu nada fiz?” Usa da imagem dos olhos azuis como a figura metafórica de que o Branco fez mal ao Negro.

Na calada da noite, brancos de olhos azuis chegam com peças metálicas que cospem projéteis e tiram a vida dos negros. São as armas que iluminam os céus e condenam os homens à escuridão do trabalho compulsório – acorrentam-nos e fazem-nos mercadorias. A imagem daquele que fecha a portinhola do navio negreiro e, como que por um olho mágico, condena aqueles homens à escravidão…

“Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis”

…quando, de repente,  percebe que será mal tratado, se utiliza das liturgias católicas tentando argumentar, tentando provar que não é arisco, desrespeitoso, que se submeteu aos dominadores…

“Me benzo com o sinal
Da santa cruz”

… em vão; nada! Recorre, em última instância, na hora da necessidade, à mais forte esperança de que não sofrerá maus tratos. Mostra que chorará em sua cultura nativa, mas, rezará, inclusive, à figura de dominação religiosa imposta pelos brancos, Jesus, empurrado goela abaixo aos povos “bárbaros”; caso seja isso que precise ser feito para provar que não olhou Sinhá, pois bem, sua consciência é seu bem supremo.

“(…)Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Para que que vassuncê
Me tira a luz”

Percebe-se, nesse momento, a vacilação, o vassuncê.

Na hora do castigo corporal, no momento em que se desveste das convenções que colocara para mostrar sua inocência, instintivamente recorre à sua cultura, tenta buscar forças em seu interior, tenta suportar as dores e esquecer a tragédia humana causada pelos brancos – sua cultura é o único alicerce enquanto se vê à deriva…

e, no fim, o músico mostra a verdadeira face do fato acontecido:

“E assim vai se encerrar
O conto de um cantor”

Cantou vocalizando o negro e transpareceu a soberba do dominador europeu

“Com voz do pelourinho
E ares de senhor”

“Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá”

(…) deixando, ao fim, as marcas da colonização, cantadas, machucando quem as ouve, quem as carrega no nome de origem marcadamente colonizadora e na cultura arraigada nos costumes das tradições dos colonizados – mas de qualquer forma, fora o negro, ele sim, quem enfeitiçara a Sinhá…

Bruno Miller Theodosio

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