Repúdio à intolerância – Nota pessoal sobre a USP e seus acontecimentos recentes

Repúdio à intolerância

A PM no campus é um retrocesso democrático dentro de uma Universidade Pública, onde o debate e a discordância são os motores das novas soluções e a liberdade de pensamento é premissa básica e inicial de qualquer discussão a ser começada. Seja qual for o motivo de a PM estar dentro do Campus, ferindo a Autonomia Universitária, a segurança tem de ser questionadas não no “feudo USP” e sim em âmbito conjuntural, como também a PM e sua forma de atuação. Nas periferias a corporação age de uma forma, nos bairros ricos, de outra. Esse reducionismo barato de “PM no campus = segurança X sem PM no campus = barbárie” é uma falácia lógica, e não se sustenta, visto que a cidade em si, ou seja, o local de atuação de todo aparato policial, não é, nem de longe, segura.

A Universidade não pode simplesmente incorporar as soluções falidas que a sociedade apresenta. Cabe a ela gerar novas soluções para velhos problemas, é esse o motivo de ser uma Universidade onde há sinergia de várias áreas do conhecimento, onde pessoas se juntam para criar em conjunto.

Dado o caráter da presença da PM, do tolhimento das liberdades individuais, da manifestação política, da liberdade de ir e vir temos que salientar a forma de atuação da PM neste último episódio. Bombas de gás foram lançadas dentro do local de moradia de estudantes, o CRUSP. Alunos foram impedidos de se locomover para fora da unidade residencial em plena madrugada. Quando falamos que a Tropa de Choque, o GATE, a Cavalaria, dois helicópteros, esquadrão anti-bombas, entre outras divisões da milícia paulista entraram com mais de 400 homens, 50 viaturas, em algum tipo de operação, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a ocupação de um morro fortemente protegido por grupos de traficantes e bandidos, ou então um confronto armado com um grupo de crime organizado, mas não, esse efetivo foi disponibilizado para invadir a maior Universidade da América Latina contra um grupo de estudantes. Sim, pela lógica da polícia os estudantes foram equiparados aos grandes bandidos e traficantes de nosso país; nós, por não estarmos armados e nem representarmos real resistência, somos mais facilmente reprimíveis. Quero saber se a PM deslocará esse efetivo para coibir os usuários de drogas da Cracolândia. Se três usuários de maconha mobilizaram 400 PMs, um bairro inteiro de viciados em crack necessitará de forças conjuntas entre estados, e, em maior nível, falando de uma briga de “gente grande”, no local de maior concentração de bandidos e corruptos por metro quadrado, no Senado e na Câmara Federal, teremos que disponibilizar o exército para reprimir os abusos contra o povo e o Estado brasileiros. Viu como a falácia lógica não se sustenta? Com essa total militarização das instâncias sociais descambaremos para um retrocesso político, para a volta da Ditadura.

Sobre as ocupações: não se consegue organizar um movimento com capilaridade nos cursos e legitimidade frente aos estudantes sem um bom embasamento teórico e direcionamento político além do respeito às instâncias deliberativas e seus encaminhamentos. Derrubar o Rodas e tirar a PM da USP, hoje, analisando-se as condições objetivas é praticamente impossível – depois deste processo todo, inclusive as condições subjetivas estão fora de questão, vide o fortalecimento da direita.

O que cabe dizer é que, se MNN, LER-QI e PCO não pararem de “ultrar” à toa, de tratorar assembléia legítima e primar pelo esquerdismo e radicalismo infantil teremos que nos defender das agressões midiáticas e de outros colegas de curso acerca de uso de drogas, manufatura de armas (coquetel molotov), bebidas e coisas que só servem como pretexto para demonizar a esquerda e justificar a intervenção militar da PM frente à opinião pública. Fazendo assim, com que as pessoas se esqueçam que a verdadeira bandeira levantada foi a falta de liberdade; vista ela uma roupagem ditatorial através da reitoria que se utiliza de decretos e métodos dos idos da década de 70, seja ela encarnada na força de repressão física da PM; e agora, mais ainda, na perseguição criminal aos estudantes. A luta tem de ser centralizada não pela contingência de cada recorte específico, e sim, pelo denominador comum a todas essas representações: qual seja – repressão. Física, moral, de pensamento ou de ação.

Por fim, lutemos pela democracia dentro de nossa Universidade, com o diálogo aberto podemos conjuntamente chegar a novas soluções tanto para segurança quanto para problemas específicos de nossa Universidade. Sejamos contrários às saídas fáceis como a militarização do campus e a falta de diálogo; essas medidas simples são eficazes, mas tratam somente dos sintomas, não das causas das doenças.

Bruno Miller Theodosio – Graduando em Economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo FEA USP

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