Questões sobre Marx

Meu professor de Introdução às Ciências Sociais, Ricardo Abramovay (FEA USP), para o curso de Economia na USP sempre nos propõe questões acerca dos autores estudados. Desta vez eu fiz um trabalho mais profundo e achei interessante publicar aqui a título de esclarecimento de algumas passagens de O Capital.

Obs. São respostas minhas, possivelmente haja divergências e, caso alguém queria, por favor, comente.

Marx: O CAPITAL

Questões sobre trechos selecionados dos Capítulos I, II e IV.

  1. Poderia existir outra coisa comum a todas as mercadorias, além do trabalho? De que maneira a economia marginalista responde a esta pergunta?

R1) A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo que, dado certas propriedades satisfaz as necessidades humanas; sejam elas culturais (livro, filme) ou necessidades biológicas, metabólicas (alimentos, vestuário). 

  1. Existe divisão social do trabalho nas situações históricas onde não se produzem mercadorias? Em que circunstâncias a divisão do trabalho conduz a que os produtos se tornem mercadorias? Marx cita (p. 50), duas situações em que a divisão do trabalho não se apóia sobre a forma mercadoria: quais são estas duas situações?

R2) Sim, existe divisão do trabalho em situações históricas, distintas do capitalismo, onde não há produção de mercadorias. Antes de entrarmos no mérito de quais momentos históricos existem com divisão do trabalho sem produção de mercadorias temos de definir a Forma Mercadoria à É a forma que os produtos do trabalho humano adquirem em uma sociedade de negócios privados (capitalismo) quando são produzidos de forma autônoma e independente (produção capitalista não necessita que eu tome conhecimento de o que a sociedade precisa e nem faça contato com os produtores de outras mercadorias para poder planejar a produção) dentro de um complexo sistema onde há divisão do trabalho. Diz Marx que, a divisão do trabalho é condição para a produção de mercadorias, porém, há produção de mercadorias sem a necessidade de divisão do trabalho. Um exemplo histórico é a comunidade hindu ou a própria instância fabril em si. Na comunidade hindu, cada pessoa da comunidade se utiliza de recursos específicos dentro da divisão de tarefas que são necessárias à vida da comunidade, alguns pescam, outros caçam sem que haja troca de mercadorias para tal… Já na fábrica há divisão das tarefas entre os empregados; alguns fabricam a roda, outros a porta, porém, não precisam trocar mercadorias para que exista essa divisão do trabalho.

  1. É correto falar em “força produtiva das máquinas”, para Marx? (p. 53).

Não, para Marx a força produtiva é dos homens, que são os agentes no processo de produção.

  1. O que você entende por “forma mercadoria”? Por que Marx caracteriza a mercadoria como uma forma. Ela é forma do quê? Qual é o conteúdo desta forma?

Forma Mercadoria à É a forma que os produtos do trabalho humano adquirem em uma sociedade de negócios privados (capitalismo) quando são produzidos de forma autônoma e independente (produção capitalista não necessita que eu tome conhecimento de o que a sociedade precisa e nem faça contato com os produtores de outras mercadorias para poder planejar a produção) dentro de um complexo sistema onde há divisão do trabalho. Forma de quê? Dos produtos do trabalho humano na sociedade capitalista. Porque Marx a caracteriza como forma? Porque na sociedade capitalista a produção destinada à troca é  reiterada inúmeras vezes e acaba assumindo uma aura de naturalidade, fazendo com que os produtos do trabalho humano assumam essa forma nessa sociedade[algo feito para ser trocado].  O conteúdo dessa forma é o valor de uso das mercadorias, dado que para a existência de uma produção voltada à troca há necessidade de trocabilidade entre as mercadorias (trabalhos humanos qualitativamente diferentes), que se dá pela forma mercadoria; porém, a própria troca necessita que exista  um valor de uso nessa mercadoria, se ela não tiver utilidade a alguém ela não terá motivo para ler levada para a troca, não tendo, portanto, valor de troca, ou seja, para que algo se torne mercadoria é necessário que exista valor de uso e que esse valor de uso não contemple a necessidade de quem a produziu. Esse produtor, portanto, levará essa mercadoria ao mercado e para que exista troca ela necessita ser expressa em termos de outra mercadoria, ela necessita de valor de troca. Daí que Marx diz que o “valor de uso é suporte do valor de troca”. Resumindo, portanto, para que uma mercadoria seja mercadoria ela precisa ter utilidade, se ela tiver utilidade e eu não for usá-la, eu a troco, então ela tem algum valor para a troca, e aí eu troco e pego algo que me seja, enfim, útil, que contenha um valor de uso para mim. Mercadorias são, em suma, não valor de uso para o produtor, são somente valor de uso para algum outro produtor de alguma outra mercadoria.

FETICHISMO

Primeiro de tudo: Há fetichismo da mercadoria, do dinheiro, do capital. Fetiche é uma palavra que vem do português e vinha de feitiço. Quando passou para o alemão virou Fetisch e na volta ao português, virou FETICHE.

O subtítulo de “O Capital” é “Crítica da Economia Política”, o que poderia ser traduzido como crítica ao Fetichismo.

Marx escreveu seu texto, em 1867, como uma crítica aos economistas de então, Smith e Ricardo, entre outros, criticando-os no sentido de terem se deixado levar pela superficialidade das coisas, por terem perdido a dimensão estrutural dos processos e deixarem-se enfeitiçar pela aparência das coisas, perdendo, sua essência nas análises. Quando falamos das formas que as coisas adquirem na sociedade capitalista, passaríamos por esse mesmo problema se parássemos aí. Porém, fomos além da forma e passamos a analisar o conteúdo dessas formas. A mercadoria não é só a forma, ela é o conteúdo também, mas a percepção de que há uma dimensão de conteúdo não desabona a importância de se analisar a forma. A forma é o “jeito” que ela aparece na sociedade, é como conseguimos perceber a realidade. Quando há essa dimensão dupla entre forma e conteúdo, cabe uma análise crítica que nos leve além dessa aparência dos processos. O erro e a fantasia são tomados como respostas rápidas e, por vezes, científicas, como os economistas de então faziam – portanto, Marx se debruça nessa questão e mostra como estudar cientifica e criticamente a sociedade capitalista, sempre permeada pela crítica ao fetiche.

Fetichismo da Mercadoria: Segundo Marx, quando na sociedade capitalista se produzem os bens, e os homens “vão ao mercado” trocar os produtos de seu trabalho há um fenômeno que ocorre e que nos escapa aos olhos. O fenômeno, chamado de Fetichismo da Mercadoria reside no fato de que, quando trocamos produtos do trabalho humano os trocamos não por acaso, eles são produzidos pelo imperativo da ordem capitalista de uma produção voltada ao mercado, portanto, respondem à Forma Mercadoria.

Dado esse ponto podemos entender que o Fetiche (feitiço) que esse processo de trocas de produtos do trabalho humano produzidos autônoma e independentemente esconde se embasa no fato de que: na hora da troca entre esses produtos, a relação evidente é COISA x COISA. O que nos escapa aos olhos é, portanto, que cada uma dessas coisas, desses produtos, é produzida por algum homem que, devido ao seu trabalho, produziu aquilo a ser trocado. O Fetiche, portanto, é que as coisas resultantes do trabalho humano, quando trocadas, escondem uma relação social implícita a essa produção. Na verdade essa relação é HOMEM x HOMEM e a mercadoria só serve para mediar a relação. Porém, por nos escapar aos olhos esse processo social, o que nos fica evidente é quase uma autonomia da esfera das coisas na sociedade. Esquecemos que para um produto estar no mercado alguém o produziu e o levou até lá, por exemplo, num supermercado. Quando trocamos não percebemos a dimensão social que existe no trabalho na sociedade em geral. Se produzimos à troca, e se a troca é generalizada, é óbvio que esperamos que outros produzam mercadorias que nos sejam úteis e que desejemos, porém, no instante da troca toda essa dimensão social que une os trabalhos concretos úteis(específicos) de cada um dos produtores autônomos a um trabalho total  social se perde. Na sociedade capitalista a contrapartida do Fetichismo se chama REIFICAÇÃO. Reificação vem de RES coisa, em latim. Poderíamos traduzi-la como Coisificação. A síntese da Reificação e do Fetichismo seria que os homens, no capitalismo, por trocarem mercadorias por mercadorias esquecem-se da dimensão social, contida nos homens que produzem aquelas mercadorias, portanto, suas relações são mediadas por coisas e dizemos que suas relações sociais estão coisificadas, reificadas. No outro lado, quando colocamos duas mercadorias frente a frente parece-nos que elas têm uma deliberação própria, que elas são os agentes do processo e que nós somos secundários nesse processo, que as produzimos e as mercadorias precisam ser trocadas, como se elas quisessem trocar-se, entre si (essa é a trocabilidade inscrita na forma mercadoria, elas, em si, são feitas para a troca).

É comum, também, dizer que o fetichismo é uma inversão entre meios e fins. Dá para dizer que a mercadoria é um MEIO encontrado de se trocar as coisas, porém, como o resultado da produção assume a forma mercadoria ela(a produção de mercadorias) vira um FIM. Existe, aí, uma inversão entre meios e fins; o fim passa a ser um meio e o meio vira um fim. O lucro e o emprego também podem aparecer aqui nessa inversão. Na sociedade capitalista o emprego é um MEIO pelo qual o burguês se utiliza para gerar mais lucros, seu FIM. Porém, há sempre um discurso que o capital dá empregos e que produz mais para melhorar a situação das pessoas; mentira, ele produz para gerar lucros, seu FIM, e tem que empregar as pessoas como MEIO para isso – e não como o discurso que aparece que sempre sendo falado pela classe burguesa “temos lucros para podermos gerar mais empregos”.

Um adendo que expressa a crítica aos economistas reside no fato de que as categorias da economia política burguesa aceita que os fatores de produção: capital, trabalho e terra PRODUZAM renda aos seus donos.  É a perfeita atribuição de ações humanas (produção) às coisas.

 

  1. Por que razão o fetichismo “adere aos produtos do trabalho tão logo são produzidos como mercadorias..”? Como seria possível existirem produtos do trabalho que não fossem mercadorias?

R5) O fetichismo adere aos produtos do trabalho logos são produzidos porque a própria estrutura produtiva na sociedade capitalista é a produção de mercadorias; produtores autônomos e independentes, através do trabalho privado, produzem suas mercadorias destinadas à troca, e, portanto, perdem, na troca, a dimensão social dos trabalhos que produzem essas mercadorias já que a troca é entre coisas. Seria possível se a produção fosse voltada ao próprio uso dos produtos resultantes, como por exemplo, alguém que produz uma torta para servir de alimento à sua família – existe produção, mas não existe mercadoria, afinal, não é destinada à troca essa produção. Produção que visasse geração de valor de uso e não valor de troca.

  1.  “Objetos de uso se tornam mercadorias apenas por serem produtos de trabalhos privados…”: o que quer dizer trabalhos privados? É o contrário de social?

R6) Trabalho privado é a dimensão individual de cada trabalho. Como exemplo, o alfaiate e o açougueiro são trabalhos privados, exercidos de forma autônoma, porque não há uma reunião da sociedade que dite quem produzirá isso ou aquilo. No tocante ao social, quando os produtos do trabalho humano passam a ser produzidos para a troca o trabalho privado adquire um duplo caráter social. Duplo por quê? Por um lado eles têm de atender a uma necessidade social como trabalhos determinados úteis que participam do trabalho total (a sociedade capitalista não é planejada na produção mas, de certa forma, há uma complementaridade entre os trabalhos em geral; eu produzo o que alguém precisa e vice-versa). De outro lado eles só servem a seus produtores se eles se equivalem aos trabalhos dos outros produtores (só irei produzir se aquilo que eu fizer tiver como ser trocado pelo que o outro fizer).

Portanto, não é excludente o caráter privado e o social.

 

É interessante notar, aqui, que a obra de Marx se embasa na lógica Dialética (ciência dos opostos). Marx não concebe as coisas como X OU Y, elas podem ser X E Y ao mesmo tempo.

Exemplos:

MERCADORIA = Valor de Uso e Valor (valor de troca é a expressão do valor na hora da troca)

TRABALHO = Trabalho Concreto Útil (específico) e Trabalho Abstrato (denominador comum dos trabalhos, uma base de comparabilidade entre trabalhos qualitativamente diferentes)

  1. O que é a “cisão do produto de trabalho em coisa útil e coisa de valor”? Em que circunstância histórica esta cisão se realiza?

R7) Na sociedade capitalista a o desenvolvimento do processo de troca conduz a repetidas trocas na sociedade, tornando-se assim um processo social regular. Passado um tempo ele se torna, além de regular, necessário à reprodução da vida e, portanto, o imperativo de produzir-se com destino à troca e não mais ao uso é tido como um processo natural. Nesse instante existe a cisão da em coisa útil e coisa de valor: essa separação se dá na utilidade dos produtos do trabalho humano por um lado em valor de uso (coisa útil) e valor que se expressará em valor de troca (coisa de valor). Esse processo ocorre porque essa produção não visa atender às necessidades pessoais do agente produtor e sim à trocabilidade de sua produção.

 

  1. Por que razão, no feudalismo, a forma natural do trabalho é sua forma diretamente social? Por que isso não ocorre na sociedade mercantil?

R8) No Feudalismo a forma de natural de trabalho é sua forma social porque nesse período a dependência pessoal caracteriza tanto as condições sociais da produção da vida material quanto as esferas da vida estruturadas sobre ela.  O servo já sabia que iria trabalhar nas terras do senhor por um tempo dado e, portanto, não há forma mistificada de dependência, as relações sociais das pessoas em seus trabalhos aparecem como suas próprias relações pessoais. Isso não ocorre na sociedade mercantil porque aqui as relações sociais são dadas em conseqüência das relações de produção da vida material.

  1. É possível produção social sem o “místico véu nebuloso” da sociedade mercantil? Sob que condições isso é possível (p. 76)? A que modo de produção corresponderia a aplicação desta possibilidade?

R9) Sim, existirá, na idéia de Marx, baseado em sua Teoria da História, um modo de produção chamado de Comunismo onde haverá homens livremente associados e com controle tanto da produção quanto da distribuição conscientemente planejadas de todo produto produzido por dada sociedade.

Questões sobre o capítulo II d’O Capital – O processo de troca

  1. De que maneira Marx define o contrato?

R10) O contrato é definido por Marx como a forma jurídica da propriedade privada. Para haver troca necessitamos nos reconhecer reciprocamente como proprietários privados das mercadorias a que iremos cambiar.

  1. O que é “relação de estranhamento recíproco” e por que este tipo de relação não existe para os membros de uma comunidade primitiva? (p. 81).

11R)  O estranhamento recíproco aparece como resultado de uma relação estrutural da sociedade capitalista. Para que um objeto de uso seja um valor de troca ele tem de ser um não-valor de uso para seu proprietário, que, portanto, aliená-lo-á em função de outro objeto. Posto esse processo de alienação dos objetos, os homens precisam se reconhecer como proprietários privados dessas coisas alienáveis de forma recíproca. Esse reconhecimento tácito entre proprietários privados como pessoas independentes mas que, no fundo, coordenam-se dado o trabalho social total é a relação de estranhamento recíproco.  Não ocorre, portanto, em comunidades primitivas porque o trabalho daquelas não é privado e organizado de forma autônoma e independente, portanto, sem produção de mercadorias regularmente,  não formando a circulação de mercadorias como uma processo social regular; o que culminaria na formação do mercado como instituição de estranhamento recíproco.

Capítulo IV d’O Capital

  1. Descreva comparativamente as características dos ciclos M-D-M e D-M-D

12) Legenda:

 M = mercadoria,

 D = dinheiro,

 x’ = notação com maior valor, exemplo: x’ > x

 

M-D-M

Esse processo se chama Circulação Simples.

Ele se inicia com a VENDA de uma mercadoria sendo que o dinheiro é o mediador desse processo. Eu vendo a mercadoria transformando-a em dinheiro e utilizo esse dinheiro para comprar outra mercadoria que pode ter o mesmo valor da primeira que fora vendida. O dinheiro aqui além de mediar o processo é gasto em função da outra mercadoria e assim o ciclo termina; sua finalidade é o consumo, portanto, o valor de uso da mercadoria trocada, ou seja, finalidade se encontra fora da esfera da circulação, se encontra na esfera do consumo.

D-M -D

Esse processo pode ser chamado de Circulação Capitalista e os dinheiros iniciais e finais não podem ter o mesmo valor. A mercadoria aparece como mediadora do processo de circulação e o dinheiro é o começo e o final do processo. Esse dinheiro inicial é adiantado para ser recuperado no final, sendo um ciclo ininterrupto aonde a finalidade é o dinheiro, portanto, o valor de troca da mercadoria é o eixo central desse processo. Ele é um processo tautológico dado que o dinheiro inicial e final são iguais em forma (qualitativamente iguais), são ambos dinheiro, apenas diferindo em sua quantidade.  Nesse processo o valor inicialmente adiantado se mantém na circulação e nela, altera sua grandeza de valor adquirindo Mais-Valia (mais-valor) ou se valorizando; esse processo levará em sua transformação em capital. O objetivo desse processo está na circulação porque é nela que o dinheiro se valoriza (valorização do valor).

 

  1. Por que motivo D-M-D é tautológico?

13R) Ele é um processo tautológico dado que o dinheiro inicial e final são iguais em forma (qualitativamente iguais), são ambos dinheiro, apenas diferindo em sua quantidade.

  1. “Como portador consciente desse movimento, o possuidor do dinheiro torna-se capitalista”: de que maneira o individualismo metodológico reagiria a esta frase?

14R) Possivelmente o individualismo metodológico, por atomizar os homens e torná-los iguais em potencialidades adotasse essa premissa como justificadora de que, caso os homens queiram eles podem tornar-se capitalistas e assim, as ações deliberadas e que dão errado são tidas como deformidades no mercado (falhas de mercado).

  1. A expressão “valorização do valor” (p. 129) não é tautológica?

15R) A expressão é sim tautológica pelo fato de que o processo onde ela se exprime é na circulação do dinheiro como capital (D-M-D), sendo a “valorização do valor” o conteúdo objetivo dessa circulação,  uma finalidade em si mesma, uma atitude que só existe dentro dessa renovação permanente do processo e, por isso, o movimento do capital é insaciável.

A síntese disso é que o valor de uso nunca será tratado como meta imediata no capitalismo; portanto, nesse processo de circulação que se renova de forma incansável o mais importante será a formação do valor de troca dado pela forma mercadoria, (produção orientada à troca), e não a produção orientada a suprir necessidades humanas (valor de uso).

  1.  “Ele passa continuamente de uma forma para outra, sem perder-se nesse movimento, e assim se transforma num sujeito automático” (p. 130). A que Marx está se referindo? Quais são estas formas? O que quer dizer sujeito automático?

16R) Marx se refere, nesse trecho às formas que o valor assume na esfera da circulação do dinheiro como capital (D-M-D). O valor assume modos distintos de se apresentar:

Modo Geral = Dinheiro (todos os valores podem ser expressos em Dinheiro)

Modo Particular = Mercadoria (cada mercadoria corresponde a um valor)

O que podemos dizer sobre o sujeito automático é que o valor passa de uma forma a outra de modo contínuo, sem, no entanto, perder-se nesse movimento; isso o eleva ao patamar de um “sujeito automático”, um agente de uma determinada ação que a faz por um imperativo, algo não deliberado, algo que, mecanicamente acontece.

 

  1. O que é o “sujeito usurpador de tal processo”? (p. 130). Por que Marx usa a expressão “usurpador”?

17R) O sujeito usurpador aparece pelo fato de que o valor assume formas distintas. Em certos momentos ele se apresenta enquanto mercadoria e outros como dinheiro, portanto, usurpa [apodera-se de] categorias formais (forma mercadoria e forma dinheiro) para representar-se enquanto agente de um processo de circulação de mercadorias.

  1. O que é “circulação mercantil simples”? (p. 130).

18R) É o processo d circulação simples, o processo de circulação do dinheiro como dinheiro (M-D-M) em que o dinheiro é apenas forma de mediação entre mercadorias.  No final das contas, essa circulação simples visa atender necessidades humanas, portanto, é calcado na obtenção de valores de uso.

  1. O que é “substância em processo e semovente”? (p. 130).

19R) A substância, aqui, é o valor, na esfera da circulação do dinheiro como capital (D-M-D). O que pode-se destacar dessa trama de idéias é que o valor assume formas distintas nessa forma de circulação. Ora ele se apresenta na forma mercadoria, ora na forma dinheiro, sendo que, sem assumir a forma mercadoria o dinheiro não pode se tornar capital. Mas precisa-se destacar que o dinheiro e a mercadoria são apenas formas que o valor assume nesse processo. Ele, o valor, representa agora um processo consigo mesmo, uma autovalorização. O valor se distingue dele mesmo como mais-valia(mais-valor) porque só por meio da mais-valia(mais-valor) gerada que o dinheiro anteriormente adiantado se torna capital e assim que ele se torna capital, unem-se novamente, mais-valia(mais valor) e capital para tornar o dinheiro adiantado maior, em magnitude.

 O que está evidenciado é que é um PROCESSO e é algo SEMOVENTE. Processo pelo fato de que capital é dinheiro e capital é mercadoria.  O valor ora assume a forma dinheiro (D-m-D), ora se desfaz dela (d-M-d). Algo a se destacar é que, para haver valorização do valor e que se complete o circuito todo o valor precisa de uma forma autônoma como forma de reconhecimento consigo mesmo, essa forma autônoma é a forma dinheiro (todas mercadorias são expressas em quantias monetárias, por isso ela é uma forma “reconhecível” para as outras mercadorias).

  1. Qual é a fórmula geral do capital?

R20) D-M-D’  (aqui é um processo, leia “D M D linha”)

  à D’ = D + ΔD (aqui é uma equação)

ΔD = Mais-Valia (Mais-Valor)

ΔD = D – D’ (leia D menos D’)

OBS. Em vários momentos das respostas eu cito Mais-Valia e entre parênteses aparece o MAIS-VALOR. Isso é porque a tradução dos textos de Marx para o português data da década de 1920, algo por aí. Os tradutores de então usaram o termo mais-valia, porém, as atuais traduções dos textos marxistas, como por exemplo, as edições da Boitempo estão abolindo o termo mais-VALIA do vocabulário marxista e adotando o que, no original, em alemão, aparece à Valor e Mais-Valor, que fica até mais fácil de entender. Portanto, quem for prosseguir nos textos marxistas nos próximos anos tenha costume de que o mais-valor substituirá o termo mais-valia sem, no entanto, qualquer modificação conceitual, é apenas na nomenclatura do conceito.

 

  1. Qual a crítica que Marx faz a Condillac?

21R) Condillac é um adepto da Teoria do Valor Utilidade, distinta da Teoria do Valor-Trabalho, da qual Marx vai se apoderar e  reformar em certa medida (principalmente partindo de D. Ricardo). Ele diz que a Economia vulgar constantemente confunde valor de uso e valor de troca e, como conseqüência, tenta mostrar a criação de mais-valia no processo de circulação. Um ponto evidenciado nessa passagem de crítica a Condillac é que ele pressupõe ser a troca um processo dado entre produtores apenas por seu excedente produtivo, o supérfluo para si.

  1. Qual a posição de Aristóteles com relação aos juros? (p. 137).

R22) Aristóteles concebe duas dimensões distintas da circulação, tal como Marx. Pode-se dizer que a circulação simples (M-D-M), para o pensador grego, é a chamada Economia (cuidado da casa) onde o dinheiro aparece como categoria formal funcional de mediação entre opostos iguais, mercadorias. Quando ele fala do juros há uma referência ao que Marx chamará de circulação do dinheiro como capital, de fórmula D-M-D. Nesse tipo de trato social Aristóteles denomina o processo de busca financeira com o nome de Crematística. Posto a divisão formal entre Economia e Crematística, Aristóteles analisa negativamente a questão do juros pelo motivo da instrumentalização do dinheiro –  este surgira como mediador das trocas e aqui (Crematística, D-M-D) se torna o início e o fim do processo (D-M-D), sendo fonte de ganho e não mais usado para o fim a que fora inventado.

  1. Qual a contradição básica da fórmula geral do capital?

23R)  A contradição BÁSICA é o escamoteamento de relações sociais. A fórmula D-M-D’ esconde o conjunto das relações de compra e venda e aparece como uma troca de dinheiros mediada por uma mercadoria, o que, no fundo, é ilusório. É ilusório porque a esfera da circulação simples que é a superfície da sociedade capitalista, portanto, uma troca de mercadorias que se media por dinheiro M-D-M, congregando pessoas (relações sociais) trocando as mercadorias.

Porém, existem contradições mais profundas a que entrarei a partir de agora, e que, ao meu ver, são as contradições a serem pensadas de forma mais radical.

Fórmula Geral = D-M-D’

Aos olhos do capitalista essa fórmula representa a compra de uma mercadoria de A e a posterior venda dessa mercadoria para um sujeito B.

Se olharmos, pela ótica dos sujeitos há uma inversão.

A vende uma mercadoria para o capitalista e ganha dinheiro com isso M-D.

Da mesma forma que o B compra, com dinheiro, a mercadoria do capitalista D-M.

 No geral, do ponto de vista do capitalista isso é um processo onde ele compra de A e vende para B, há seqüência no processo.

Do ponto de vista dos agentes A e B, não há essa interconexão, dado que A não se importa com o que farei com a mercadoria e B, não quer saber como nem porque eu a possuo, apenas quer comprá-la.

 A e Capitalista = M-D

 B e Capitalista = D-M

 Capitalista = D-M-D’

Por meio da inversão da seqüência percebemos que o que, para mim, capitalista era D-M-D’ virou, M-D-M.

Por quê? Porque a minha compra para A, é uma venda. A minha venda para B, para ele, é uma compra. Dado isso, A e B percebem ser supérfluo meu intermédio e passarão a intercambiar entre si, chegando ao M-D-M. Porém, como haverá formação de Mais-Valia em uma simples circulação de mercadorias?

Na troca de mercadorias pressupõe-se a troca entre equivalentes, portanto, A e B trocam o que não tem utilidade para si pelo que tem, portanto, há ganhos para ambos dado que agora terão o valor de uso a que necessitavam/queriam. Porém, o valor de troca permanece o mesmo, sem alteração porque se trocou apenas de mão, antes a mercadoria de A estava com A e agora, está com B, porém, se são equivalentes e permutam-se, elas possuem o mesmo valor de troca.

à Ninguém tira da circulação nada mais do que lança nela, portanto!

Resultado à Troca de equivalentes não gera mais-valia.

Investigaremos a troca de não equivalentes por hipótese.

Supondo que houvesse alguma forma de A tirar vantagem da venda. A venderia mais caro, por exemplo, venderia a 110 o que vale 100 (aumento nominal de 10%). O vendedor cobra, portanto, uma mais-valia de 10. Mas depois de ter sido vendedor ele se torna comprador, e o vendedor da transação cobrará dele os mesmos 10%, sendo que, no agregado o agente ganha 10 na venda pare perder 10 na compra. (lembrar que todo vendedor é, também vendedor, afinal, ninguém produz tudo o que necessita para viver)

Resultado à Troca de NÃO–equivalentes não gera mais-valia.

Portanto, chega-se à conclusão de que a MAIS-VALIA não pode originar-se da CIRCULAÇÃO e que em sua formação deve ocorrer algo por trás de suas costas invisível nela mesma!

Mas pode a mais-valia originar-se de outro lugar que não a circulação? (circulação é a soma de todas as relações recíprocas dos possuidores de mercadorias, fora dela (circulação) apenas há um homem com uma mercadoria em suas mãos, nada mais.)

O produtor de mercadorias apenas forma um valor, não um valor que se valoriza. Ele pode, mediante outro trabalho, aumentar o valor de sua mercadoria, mas, no entanto, não será um valor que se valorizou autonomamente, foi mediante um novo trabalho. à é impossível que fora da esfera da circulação o capitalista valorize seu valor sem entrar em contato com outros possuidores de mercadorias, assim, tornando seu dinheiro ou sua mercadoria em capital. à Capital, portanto, deve originar-se e não se originar da circulação (contradição).

 

  1. Como esta contradição é resolvida?

24R) Essa contradição é resolvida da seguinte forma: D-M-D’

Na compra D-M não há como se valorizar o valor, afinal, o dinheiro e a mercadoria têm o valor permutável, não há diferença de magnitude entre ambos.

Na revenda tampouco, M-D’, afinal, há apenas a retransformação da mercadoria em forma dinheiro.

Portanto, o processo de valorização do valor tem de ocorrer nesse hiato entre a compra e a revenda. Seria interessante, portanto, que se conseguisse comprar alguma mercadoria, posta no mercado à venda, que pudesse pela sua utilidade ser fonte de valor. Porém se é o trabalho quem gera valor, o consumo dessa mercadoria deveria gerar valor, portanto, somente a FORÇA DE TRABALHO pode ser essa mercadoria. Quando se consome força de trabalho gera-se valor. [O valor de uso da força de trabalho é a efetivação das faculdades físicas e espirituais]

Portanto, resolver-se-á o problema da contradição da geração de mais-valia na esfera da circulação encontrando-se uma mercadoria que possa gerar mais-valia (mais-valor) à Força de Trabalho.

 

  1. Por que motivo “o prosseguimento dessa relação exige que o proprietário da força de trabalho só a venda por determinado tempo…”?

25R) O proprietária de sua força de trabalho vende, por determinado tempo, sua força de trabalho porque, se o fizesse em bloco, de uma vez por todas, venderia a si mesmo, tornando-se ele, em si, mercadoria – e não mais sua força de trabalho que é a sua única mercadoria.

 Em outras palavras, se ele vendesse toda sua força de trabalho ele se escravizaria nas mãos do comprador e, no limite, ele, em si, se tornaria mercadoria.

  1. O que define, para Marx, a liberdade do trabalhador assalariado?

R26) Para Marx há uma dupla liberdade do trabalhador assalariado. Ele é livre para vender sua força de trabalho, diferentemente do trabalhador compulsório ou do servo e é livre também da propriedade dos meios de produção.

Em síntese, essas duas partes da liberdade são as liberdades necessárias para que o capitalista encontre a força de trabalho como mercadoria.

1)    Trabalhador é proprietário de sua capacidade de trabalho e de sua pessoa

2)    Trabalhador é proprietário unicamente de sua força de trabalho em forma de sua corporalidade viva. Ele não tem outra mercadoria a alienar em uma troca recíproca, dado que ele não é detentor dos meios de produção, sendo, portanto, a força de trabalho sua única mercadoria.

  1. Como é determinado o valor da força de trabalho?

27R) O valor de toda mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho necessário à produção e reprodução desse artigo específico. Sua produção pressupõe sua existência, sua reprodução é sua manutenção. Para sua manutenção o indivíduo necessita de alguns meios de subsistência, e portanto, o tempo de trabalho necessário à produção da força de trabalho é o tempo necessário à produção desses meios de subsistência, e, conseqüentemente, o valor da força de trabalho é o valor desses meios de subsistência necessário à manutenção do trabalhador.

Essa condição dos meios de subsistência se sustenta posto que o trabalhador precisa trabalhar um dia, e quando findada sua jornada, precisa, noutro dia, ter as mesmas condições de exercer, ao mesmo nível, o trabalho outrora exercido; portanto, é necessário uma quantidadede coisas para manter essa força de trabalho existente no trabalhador, e, no limite, que o trabalhador em si, esteja no mesmo patamar de potencialidades. Comida, vestuário, moradia, etc. são as necessidades à manutenção do trabalhador em seu estado de vida normal, porém, são mutáveis dado o país  e dadas as condições culturais de cada povo, sendo, por isso, além de determinado por um elemento histórico, é, também,  determinado por um elemento moral.

  1. 28.                       Qual é o valor de uso da força de trabalho?

28R) O valor de uso da força de trabalho é o próprio exercício das faculdades físicas e espirituais do trabalhador.

  1. Qual é o valor do trabalho, para Marx?

29R) Não há valor do trabalho para Marx. Onde há valor é na FORÇA DE TRABALHO. Por quê? Porque só há valor nas mercadorias e o trabalho em si não é mercadoria, o que se torna mercadoria, dadas condições históricas* é a força de trabalho, tendo ela, portanto, um valor.         *Condições históricas:

1) Que o trabalhador seja possuidor de sua capacidade de trabalho, de sua pessoa

2) Que o trabalhador não possua nenhuma outra mercadoria além de sua própria força de trabalho para comerciar, isso posto que ele não detém nenhum meio de produção, portanto, não tem condições de criar nenhuma mercadoria 

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6 respostas em “Questões sobre Marx

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