Sangue do teu sangue

Por que viver?  De onde viemos?  Para onde vamos?

São perguntas que não servem para serem respondidas, servem apenas de motores da vida. São elas que nos impulsionam e nos fazem pisar na pedra ao invés de nos afogarmos no mar. Posso responder não o porquê viver, mas sim o como viver; mais ainda, devo dizer como não viver. Não viver isolado, não viver soberbo, não viver completo de si. A vida é gostosa por nunca estar inteira, por sempre existirem lacunas a serem preenchidas. A vida não é continuidade, é contigüidade… Não viver achando que a vida é como ela se encontra agora; que nada pode ser feito e que o mundo é um punhado de pessoas coabitando um mesmo recorte físico e temporal. Somos seres sociais, somos gente, somos coração, somos sangue e alma; somos bichos e reis, somos plebe, somos mar… Somos a vida, porque dela nos embebedamos a cada dia e nela criamos as condições de sua reprodução. Somos tudo e nada ao mesmo tempo, sem nós, o mundo existe, mas a vida não, conosco, a vida existe, mas o mundo engatinha – ainda fechamos as portas pros imigrantes nos aeroportos e criamos uma divisão internacional da pobreza, com um sul pobre sustentando um norte rico. Talvez por isso seja tão ideológico dizer que um caminho é um norte. Porém é ideológico também nunca ultrapassar pela direita, afinal, o individualismo e a natureza humana dos destros por opção são também criações dos homens; está mais do que provado que a pela direta se passeia, mas pela esquerda se ultrapassa, corre, cria.

Como, portanto, viver? Viver tomando partido, assumindo as rédeas, criando idéias, conquistando corações, arregimentando mentes, construindo barricadas porque só o não fomenta o SIM. Temos que aprender a dizer não para o não e sim para o sim; o não para o que não queremos, para o que nos destrói; o sim para a vida, para o amor, para a conjugação da vida social, para nós mesmo. Não há mais condição de se viver na terra sem ser cidadão do mundo. Não podemos mais aceitar que uns tenham que ser assim ou assado porque é isso um legado histórico, um problema de colonização. Para os ideólogos da situação, infelizmente uns ganhos aqui, são umas perdas ali, infelizmente… Mas o que é aqui, o que é ali? Quem estabeleceu os limites territoriais? Quem inventou as diferenças culturais, quem foi que nos disse que somos, na profundidade da alma, diferentes? O sangue que corre nas minhas veias enquanto escrevo se esvai em um negro que acabou de ser morto por um policial igualmente pardo. Os ossos que tenho fortes pelas vitaminas e pelo sol são os mesmos triturados pelas torturas sombrias dos sionistas nos palestinos. O coração que me bate é o mesmo comprado e vendido no mercado obscuro do tráfico internacional de pessoas. A alma que me anima é a mesma alma de cada um desses, bons e ruins, é a mesma alma daqueles que se fantasiam de palhaços para alegrar a vida dos feridos pelos que apertam botões de lançamento de mísseis.  Sou tão igual a ti quanto tu és aos vivos e mortos, aos nascidos sem braços ou aos animais encalhados na beira do mar. Somos vida, somos morte. Quando nascemos trazemos a semente intrínseca à vida… É, aquela que um dia cessará tuas sístoles para acelerar o coração daqueles que te amam. Sou fogo, sou água, sou vida e morte. Mas nada disso determina meu modo de vida, minha força, minha vontade ou meu querer. Sou eu quem faz, sou eu quem escolhe. Mas sem você, não faço, não vivo, não mato. Espero que consigamos entender que sem o outro não somos nada. Que a força da coletividade consiga abarcar esse mundo habitado por indivíduos autônomos para que dessa sinergia façamos o tão sonhado tecido social, que assumamos nossa autonomia e que continuemos nos perguntando porque, como, quando, de onde… E que assim, somente na morte confirmemos a vida, mas que, durante a vida, façamos dessa experiência a mais completa de todas.

4 respostas em “Sangue do teu sangue

  1. Muito obrigado por sua belíssima reflexão, já faz um tempo que venho refletindo sobre este tema e paralelismos a respeito. Entretanto, Independente do caminho que sigo, nunca me conformo com a sociedade que vivemos, contraditória, corrompida, alienada… somos todos iguais, mas essa igualdade nunca se expressou da real forma que somos e sentimos. Intrinsecamente a nós, parece que o egoísmo torna inerte o próprio conceito deste termo pois somos egoístas de nós mesmos, construímos e consumimos para nos satisfazer com o intuito de sentir-se grande e sob qualquer paradigma social, que nada mais é exatamente este cenário que construímos e destruímos a nós mesmos.
    Talvez algum dia possamos nascer e morrer em uma sociedade feliz, coletiva e com um mínimo de igualdade entre todos.

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