Escolhas

Rousseau preconizava que a busca pela liberdade plena, perdida nos descaminhos da sociedade, passava integralmente pelo autoconhecimento e a reflexão interiorizada do ser; dizia ainda que se estivéssemos num conflito entre a razão e a emoção, optássemos pela segunda através da experiência direta, simplicidade e experimentação através da intuição.

Os tortuosos caminhos que nos são impostos pela experiência mundana, por vezes, não são exatamente como esperávamos que fossem.  Pensamos haver uma lógica por trás do destino. Mas o que seria, então, o destino? Seria um caminho intangível de estradas sortidas, uma trama de experiências entrelaçadas por nada mais, nada menos, que a sorte. Esquecemo-nos que essa sorte reflete as escolhas e caminhos adotados por nós mesmos. Acreditamos que exista uma conspiração dos astros, uma magia dos deuses ou que formas transcendentais possam influenciar nos descaminhos da vida. Existem “respostas” para todos os gostos, todos os credos, mas, todas devem passar, necessariamente, por um fio condutor que é a volição pessoal, a vontade individual. Podemos mover montanhas, acabar com a fome mundial ou conseguir qualquer feito desde que queiramos. Toda ação prática nasce de um panorama subjetivo, toda atitude vem de um pensamento. Quando, entretanto, “um não quer, dois não brigam”. Precisamos da sinergia das escolhas interpessoais. Precisamos, no mais, apostar e “pagar pra ver”, confiar, como diria Rousseau, nas escolhas do coração. Essas escolhas interiores são reflexos do id, são impulsos orgânicos, são vontades viscerais que tratam de remontar o âmago da convivência social, o instinto. O id desconhece o juízo, a ética e a moral, é dirigido ao prazer, é feito um condenado que aproveita o último dia de vida; mas apesar das fraquezas éticas ele atende às expectativas mais intrínsecas da vida. Quando, de sua opção, não for feito o calvário de outro ele deve ser a força motriz das escolhas, deve ser a bússola do destino dos caminhos da vida. Precisamos, por vezes, nos desvestir das convenções sociais e crer que a vida foi-nos dada a fim de que fizéssemos de cada experiência a melhor e mais completa de todas. Precisamos aproveitá-la e fazê-la valer à pena arrancando de forma abrupta a positividade de toda negatividade, temos que enxergar o bem no pior dos males. Viver significa tomar partido, significa acreditar que cada um de nós, está, dialeticamente, ligado a um todo social. Precisamos viver chocando as experiências para que novas realidades surjam da experimentação. A vida seja ela ou não, uma só, deve ser feito um tecido em que consigamos transitar de forma construtiva para todos os lados das tramas, mesmo sabendo que alguns fios são mais resistentes e importantes para a uniformidade do tecido do que outros.

   

3 respostas em “Escolhas

  1. Precisamos mesmo nos desvestir das convenções sociais para olharmos mais longe… mas tomar muito cuidado com as atitudes impulsivas, pois corremos o risco de colocarmos tudo a perder.

  2. É aquilo no “18 Brumário”: fazemos nossas escolhas, mas não livremente senão condicionados pela herança do passado.

    O que é preciso evitar é a queda no “determinismo”, que não é marxismo, mas “marxismo vulgar”, i.e., stalinismo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s