Sangue Libertário

                             Sangue Libertário

Janeiro de 1968, um dia quente e úmido aqui em Florianópolis. Naquele dia, pela manhã, vovô havia voltado emocionado do cemitério. Logo ele, um soldado ariano; forte, bronco. Nunca o tinha visto chorar. No auge dos meus seis anos tive que me despedir dele. Apenas me lembro dele entregar uma caixa abarrotada de objetos para minha mãe. Todos se abraçaram e, até hoje, não tenho mais notícias suas. Dentre as agendas pessoais e o broche da Waffen-SS (divisão de elite do alemã) guardara inúmeras fotos, cartas e postais. Por mais que estejamos em 1968 e eu seja um comunista, libertário; eu brigava muito com a minha consciência por ter tido um oficial da SS como avô. Eu tinha visto Che, Fidel e Camilo lutarem por um mundo mais justo e meu avô, um nazista! Fui tentar entender sua história.

Peguei a caixa que havia visto há vinte anos e encontrei algo terrível: uma foto do oficial Guertel, meu avô, empunhando uma metralhadora e embarcando 56 pessoas em uma caminhonete. Tive asco, senti vontade de rasgá-la, mas me contive. Como poderia compactuar com o meu passado? Será que eu era diametralmente oposto ao meu avô simplesmente para negá-lo? Talvez a psicologia me ajudasse. Fiquei dias tentando entender a lógica por trás do vovô, um homem tão bom, ter sido capaz de embarcar todas aquelas famílias e ainda fotografá-las. Fiquei sabendo que ele havia sido admitido na Waffen-SS  aos vinte e seis anos. Um jovem que poderia ganhar o mundo… Mesma idade que tenho hoje. Ele precisava ter seguido tal caminho? Fui mais fundo na vida do vovô Guertel…

Descobri que havia se graduado com pontuação máxima nas aulas de tiro; havia sido, em alguns eventos, da guarda pessoal de Adolf Hitler. Não me contive. Acabei correndo para perguntar para minha mãe um pouco da história do vovô. Eu precisava encarar a situação e acalmar meu coração. O que acontecera? Eu, com seis anos me despeço do vovô e vinte anos mais tarde descubro que ele era um nazista… Como?

– Mãe, eu não aguento mais ter de lidar com esse peso. Por que o vovô era assim?

– O seu avô, meu filho, guarda muitos segredos; que eu mesma só fui descobrir naquela manhã de 1948.

– Como o que? Como o fato dele ter encaminhado várias famílias para a morte? Como isso, mãe? Curiosamente, minha mãe sorriu. Seria eu a ovelha negra da família? Será que Dona Frida compactuava…

Leia isto, meu bem, disse ela ao passo que me empurrava uma agenda. Era a agenda que eu vira na caixa! Será que ela quer que eu leia a truculência que meu avô tivera? Era agora, enfrentaria meu passado. Abri a agenda e vi uma mensagem escrita de forma abrupta, com garranchos. Era uma carta de meu avô para minha avó se desculpando por ela ter sido presa. Ele dizia que seu amor era mais forte que a barreia física e que tudo isso acontecera pelo fato da fuga das 15 famílias judias ter sido comandada por um oficial da SS.

Tudo fazia sentido! O meu sangue libertário corria também nas veias de meu avô! Ele se rebelou contra o nazismo e veio fugido para o Brasil. Infelizmente, durante o transporte dos judeus, a informação de que um oficial havia programado a fuga correu rápido. Foi aí que prenderam a vovó. Pela primeira vez eu realmente torcia para que, onde estivesse o Sr. Guertel, que ele pudesse ser útil novamente às causas libertárias. Hoje, 1968, o ano perdido para o mundo, foi o ano em que ganhei meu avô.

Bruno Miller Theodosio    15/09/2010

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s