Ensaio sobre Coitadismo

Pense em um indivíduo bem sucedido. Agora pense nele vindo do gueto, da favela, ou então tendo lutado a vida toda pra se livrar da criminalidade, das drogas. Pra mudar um pouco, pense no mesmo ser, tão bem sucedido quanto, porém vindo de família abastada financeiramente. Quem te causa melhor impressão? É inevitável que pensemos que o primeiro exemplo é um vitorioso, e o segundo não passa de uma certeza e praticamente uma obrigação que tenha sucesso, afinal, se a família vem dando certo, porque ele não haveria de dar? Essa visão de que para ser reconhecido você tem que ter passado pelo fundo do poço, ter se livrado das adversidades, é um mito que hoje ronda a proto-intelectualidade. O coitado é Cult, é praticamente um ícone dentro da crise de paradigmas e ideologias que vivemos. O coitado vende a ideia de redenção. A história da Fênix que renasce das cinzas para uma nova existência, tendo se purificado no glorioso fogo da morte para obter sucesso na vida. Um exemplo típico é o Presidente da República, Lula. O mérito que ele tem deveria ser o mesmo que o de um mega empresário que chega ao sucesso. O grande problema é o lema burguês de que com a dedicação, a oportunidade aparece. Esse insumo fomenta ideais de emancipação socioeconômica, no fundo ilusórios. Essa vertente irrompe da desigualdade humana. O juízo de valor se estabelece pelo simples fato de duas personagens terem o mesmo fim, mas inícios diametralmente opostos; se conseguem o mesmo, porque creditamos maior valor para um deles?

Vindo para a esfera pública, encontramos os programas assistencialistas que veem o indivíduo como um Coitado também. Os programas básicos devem suprir necessidades básicas sem usar do paternalismo. Não podemos atribuir ao governo o papel de reivindicar, pedir, clamar por melhores condições. Porém com a facilidade de ceder (do lado governamental) e receber (do lado cidadão), as políticas pães-circenses continuam mantendo o situacionismo, as famosas “vistas grossas” ao âmago da relação político-cidadão. Não está na hora do básico ser cedido, e o resto ser lutado e suado, pelo lado do povo? O povo parece não querer. O cidadão sente-se confortável com o pouco que tem, e se for para lutar por melhorias, tem medo de perder seu pouco. Temos que criar um inconsciente coletivo de melhoras sistêmicas na sociedade.

As reformas educacionais e familiares são armas de grande valia nesse processo. Educando um cidadão no colégio, formando um homem ético, este terá sua família e criará um ambiente moralmente pró-ativo em sua residência. Dando as condições básicas para o grupo familiar e, educando os mais novos, criamos gerações engajadas com a visão ampla de assistência social. Não é um projeto de curto prazo, muito menos simples, menos ainda, barato. A reforma educacional, de nada adiante se não vier de baixo. Nada resolve criar cotas em universidades, se o ensino básico é deficitário. Venhamos desde as nossas casas sedimentando valores, agregando costumes e criando as gerações intelectualmente revolucionárias.

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